"Diamante Bruto" | © Netflix

Diamante Bruto, em análise

Com a crise do COVID-19 a afetar as nossas vidas e a nos confinar às nossas casas, é boa altura para explorar o que os serviços de streaming têm para oferecer. “Diamante Bruto” dos irmãos Safdie é um dos melhores filmes atualmente na Netflix e conta com uma prestação magistral de Adam Sandler.

Pensar que o cinema só existe para nos fazer sentir bem é erróneo. Presumir que o entretenimento só provém de experiências positivas é outra falácia cometida por muito público cinéfilo. Se não acreditam ou concordam com tais conclusões, oferecemos o último filme dos irmãos Safdie como o perfeito argumento. “Diamante Bruto” está longe de ser uma experiência pacífica ou agradável, sendo uma espécie de bomba de ansiedade em forma de filme. Contudo, o seu génio e o seu gozo provêm dessa mesma capacidade para destabilizar o espírito do espectador. Quando um filme nos arrebata e faz bater o coração mais rápido, temos que o respeitar.

Tal como os outros trabalhos desta parelha de irmãos realizadores, “Diamante Bruto” é uma obra intrinsecamente nova-iorquina. Essa especificidade regista-se a vários níveis como, por exemplo, a geografia cenográfica da cidade, assim como a sua diáspora cultural. Neste caso, os Safdies apontaram as suas câmaras para a comunidade judaica e para o negócio dos diamantes que ocupa os habitantes de todo um bairro da Grande Maçã. O protagonista da história é então Howard Ratner, um comerciante de pedras preciosas que está sempre a inventar esquemas mirabolantes, a mentir, a apostar e a infernizar a vida de todos os que o rodeiam.

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O ímpeto da narrativa encontra Howard a realizar o seu mais arriscado esquema de sempre. Tudo começa e acaba com uma gema preciosa vinda de fontes misteriosas em África. Trata-se de uma maravilha de beleza natural, que cativa o olho avarento do comerciante e conquista o coração de um jogador de basquetebol famoso que a vê no estabelecimento de Howard. Ele empresta a pedra ao desportista e usa o dinheiro deixado como segurança e adiantamentos criminosos para apostar em corridas. Tudo isso pode parecer simples, mas, ao longo de 24 horas, tudo dá para o torto, ele pede dinheiro emprestado e aposta mais, faz garantias vácuas e tem a ousadia de irritar uma série de gangsters locais que não têm grande problema em porem-lhe uma bala na cabeça.

Observar as suas façanhas e desvarios é como ver uma galinha sem cabeça a andar às voltas em espasmos moribundos. Com isso dito, a qualidade nova-iorquina do filme não se restringe somente a estes assuntos de tema, ambiente, história e personagem. Mais relevante ainda é o modo como o legado cinematográfico da cidade afeta o estilo radical dos irmãos Safdie. Sintetizando gerações de cinema independente com um caráter urbano, eles usam a câmara como uma perspetiva indutora de adrenalina, vendo em diálogos sobrepostos e frenesim temulento a perfeita tradução estética de uma vida passada nas ruas traiçoeiras de Nova Iorque.

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Imaginem o estilo de Cassavetes com um pouco de Abel Ferrara metido pelo meio, uma boa dose de avant-garde de baixo orçamento e a gritaria despegada de uma luta de bêbados numa noite fria em Manhattan. Essa é a fórmula mágica dos irmãos Safdie e, até agora, só produz sucessos. Apesar disso, também não podemos negar que “Diamante Bruto” é o trabalho mais formalista e dramaticamente maturo destes enfants terribles da cena indie americana, continuando na mesma linha de “Good Time”, o filme anterior dos Safdie. O apurar da técnica nota-se particularmente ao nível do som, com a violência sónica e a música expressionista das façanhas passadas deles a aqui ganhar maior perfeição que nunca.

Tudo é prodigiosamente balançado entre composições sem melodia e um constante frenesim de conversa fiada que tanto agride o intelecto como o ouvido. A ajudar a situação está a montagem precisa de Ronald Bronstein e Benny Safdie, a fotografia granulosa de Darius Khondji e os desempenhos do melhor elenco alguma vez reunido por estes cineastas. Adam Sander brilha no papel de Howard e, mais uma vez, prova que é muito mais que um comediante sem talento dramático. Ensopado em suor e com um sorriso oleoso, a voz de um trapaceiro nato e a linguagem corporal de um animal enjaulado, este comerciante de pedras preciosas é uma criatura parasítica para aqueles que têm a infelicidade de o conhecer.

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No entanto, há comédia na sua desgraça, um sentido de piedade que se desperta face à recorrente humilhação do homem. Quando ele é despido e preso no porta bagagens de um carro, forçado a pedir a ajuda carrancuda da ex-mulher, é impossível não nos rirmos da sua infelicidade. Esse cocktail perigoso entre drama naturalista e comédia de alto-risco sumariza o equilíbrio tonal da obra. Julia Fox, que interpreta a namorada mais nova de Howard, é perfeitamente apta no que se refere a esses balanços tonais, trazendo devoção romântica e sexualidade obstinada a um filme tão irrequieto que nem tem tempo para contemplar em demasia o seu apelo erótico.

Por outro lado, Idina Menzel, como a desafortunada mulher que esteve casada com Howard, é um trago de vinagre necessário para equilibrar os sabores cinematográficos da receita. Há ainda um leque de personagens secundárias cada uma mais tresloucada que a outra, jantares hostis e cameos invejáveis de uma série de celebridades inusitadas – quem diria que o basquetebolista Kevin Garnett era tão bom ator? Dito assim, parece que descrevemos um projeto cinematográfico meio confuso e problemático, mas “Diamante Bruto” é uma gema esculpida pelo cinzel do caos controlado. Se não acreditam, vejam o filme. Podem ter a certeza que não se vão arrepender.

Diamante Bruto, em análise
diamante bruto critica poster

Movie title: Uncut Gems

Date published: 2020-03-20

Director(s): Benny Safdie, Josh Safdie

Actor(s): Adam Sandler, Julia Fox, Kevin Garnett, LaKeith Stanfield, Idina Menzel, Pom Klementieff, Eric Bogosian, The Weeknd

Genre: Crime, Drama, Thriller, 2019, 135 min

  • Cláudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 95
93

CONCLUSÃO:

Um ataque de ansiedade cristalizado em cinema, assim é o milagre ímpio de “Diamante Bruto”, o mais recente e melhor filme da dupla dos irmãos Safdie. Trata-se de um dos grandes filmes que a Netflix tem para oferecer presentemente.

O MELHOR: A presença sedutora de Julia Fox, a irritação de Sandler e o rancor obstinado de Idina Menzel. Que elenco!

O PIOR: “Diamante Bruto” é propositadamente caótico, frenético e bastante repetitivo. De certa forma, a obra engloba toda a personalidade do protagonista. Como já sugerimos antes, trata-se de uma experiência ansiosa que não é propriamente prazerosa de se ver. É contudo, um grande trabalho de cinema.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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