Festival de Locarno | Donald Cried, em análise

Na comédia Donald Cried, uma amizade da adolescência é revisitada na vida adulta com desconfortáveis resultados e estranhos apontamentos de terror psicológico.

donald cried

Haverá maior cliché nos anais da comédia independente americana que a história do homem que volta à sua terra natal depois de ter vingado na cidade e se apercebe de quanto mudou desde a sua livre juventude? Sim, a figura do homem que nunca passou da maturidade psicológica de um adolescente borbulhoso e fala como uma amálgama dos mais desconfortáveis comentários imaturos que se podem encontrar no youtube. Ambas estas fórmulas servem de pedra basilar para Donald Cried, uma desconfortável cringe comedy que passou pela secção de Cineastas do Presente em Locarno.

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Mas essa recorrência a facilitismos narrativos e personagens estereotipadas não é o único problema do filme nem o seu mais pernicioso. Se possível, a falta de criatividade na abordagem estilística do realizador (e argumentista e ator principal) Kris Avedisian é ainda pior. Mais do que qualquer ponderação sobre os seus efeitos na apresentação dramática, o cineasta parece ter escolhido uma estética de realismo cru com câmara ao ombro e pobre sonoplastia apenas porque tinha poucos recursos ou ideias. E talvez porque já tinha visto tal displicência estética noutros indies americanos, onde tal desleixe formal é bastante comum. Quando é que os cineastas independentes do mundo se vão aperceber que este conformismo face a fórmulas pré-estabelecidas é tão corrosivo como os códigos repetitivos dos mais desinspirados blockbusters?

donald cried

Bem, Avedisisan parece, a um certo ponto, aperceber-se disso. É verdade que o início do filme não agoira muito a seu favor, mas o cineasta depressa mostra que tem uns quantos truques na manga, sendo o seu principal recurso o seu próprio talento de ator. Donald Cried começa com Peter (Jesse Wakeman), um executivo de Wall Street que, devido a uma morte na família, tem de voltar à sua hometown onde acaba por perder a carteira e fica sem documentos, dinheiro ou lugar para ficar até apanhar outro voo de regresso à grande cidade. Assim, ele acaba por ir pedir ajuda a um amigo da adolescência, Donald, que, ao contrário de Peter, parece não ter evoluído desde a juventude imatura – afinal, o seu mais estimado pertence é um poster autografado de uma atriz pornográfica.

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Ouvir o diálogo e observar as desastrosas interações entre estes velhos amigos é algo quase doloroso, tanto pela intencionalidade cómica como pela incompetência textual. Ninguém fala como o Donald de Avedisian, em compridos monólogos que mostram uma perspetiva do mundo mais próxima de um cartoon ou um videogame que de um ser humano adulto. Nada no filme justifica este floreado verbal, não havendo qualquer estilização a la Allen para suportar os devaneios do argumento. No entanto, como já foi mencionado, o que Avedisian não tem como realizador, tem como ator e o seu Donald é um pequeno milagre de inconveniência em forma humana. Estar na sua companhia parece tortura chinesa, mas o ator nunca permite que ele se torna em mera caricatura, sombreando a sua caracterização com uma insegurança profunda e rasgos de agressividade instável.

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A escuridão psicológica que está sempre subjacente na personagem de Donald vai ganhando poder sobre todo o filme. Momentos que lembram o Single White Female marcam presença, outros parecem saídos de um filme de terror psicológico e uma desastrosa tentativa de um encontro romântico entre Pete e uma antiga colega parece saído de um thriller psicológico. Quando brinca com géneros cinematográficos e vai assim dando umas generosas machadadas nos seus clichés estruturantes, Donald Cried encontra alguma originalidade e refrescante vigor cinematográfico mas é, de modo geral, pouco mais que um brilhante showcase para Avesdisian o ator.

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O MELHOR: Uma sequência passada dentro de um escuro esconderijo do passado contém os instantes mais visualmente sofisticados do filme e é onde o lado mais sombrio da prestação dos dois atores principais atinge o seu píncaro.

O PIOR: Este filme origina de uma curta-metragem e isso é notório estando cheio de repetições e momentos que apenas parecem existir para aumentar a duração de Donald Cried. Para além disso, os clichés narrativos e a incompetente sonoplastia também são terríveis.


 

Título Original: Donald Cried
Realizador:  Kris Avedisian
Elenco: Kris Avedisian , Jesse Wakeman , Kyle Espeleta , Louisa Krause
Festival Scope | Comédia, Drama | 2016 | 85 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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