©Curtas de Vila do Conde

Especial | O Cinema às Voltas com o Futuro (7) | Miguel Dias

A pandemia forçou o cancelamento de muitos eventos e festivais. Não é para já o caso do ‘Curtas de Vila do Conde 2020’, que foi adiado para às datas de 3 a 11 de outubro, a primeira vez na sua história desde 1993. Um dos seus directores-fundadores Miguel Dias fala-nos dessa ideia de um cinema nas salas e no streaming e do caminho para os festivais voltarem ao que eram antes.

Miguel Dias é licenciado em Design de Comunicação – Arte Gráfica, na Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1992 e ainda frequentou o 2º ano do Curso de Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1986. É fundador do Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde desde 1993, membro da Direcção, programador e membro da Comissão de Selecção das Competições Internacional e Nacional, além de fundador e membro também da Agência da Curta Metragem, criada em 1999. Cinéfilo inveterado e frequentador ‘pesado’ das salas de cinema, — o streaming só em último recurso — já foi membro de vários júris internacionais de festivais, entre muitas outras atividades de programador por exemplo ou de várias organizações internacionais ligadas à promoção das curtas-metragens. Isto desde a fundação do ‘Curtas’, um dos melhores festivais do mundo deste formato, que normalmente concilia também o cinema, as artes visuais e a música.  Neste contexto, Miguel Dias mantêm em paralelo uma actividade como DJ, a solo ou no colectivo Sete Magníficos, do Porto, algo que funciona mais como diversão e como uma forma de partilhar a sua extensa e diversificada discografia, que coleciona compulsivamente há várias décadas.

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‘As pessoas precisam dessa imersão sensorial total só possível na sala de cinema’. ©Curtas

O rumo incerto do cinema face ao coronavírus: Não acho que isso fosse acontecer de qualquer maneira. Todas as formas de consumo de cinema iriam coexistir. Pequenas salas iriam começar a abrir em maior número nos centros das cidades, como alternativa aos multiplexes dos centros comerciais. O sucesso do Cinema Ideal em Lisboa, ou do Trindade, no Porto, fruto da sua programação muito inteligente e eclética, são símbolo dessa tendência. A experiência de ida ao cinema é preciosa e única. A pandemia colocou em evidência, de uma forma muito clara, a fragilidade económica dessas salas, e de uma maneira geral, de toda a estrutura cultural, mas principalmente a maneira de consumo dos espectáculos culturais, quer sejam eles cinema, teatro, música… As pessoas precisam dessa proximidade, de se permitirem a uma imersão sensorial total que só lhes é possível na sala de cinema (ou no teatro, ou numa sala de concertos) para usufruírem de um espectáculo, em toda a sua plenitude, e dessa experiência colectiva. E agora sabem disso melhor que nunca.

Blockbusters, super-heróis e cinema de arte & ensaio: Há espaço para tudo. É muito difícil competir com essas produções, de grandes orçamentos, apelo imediato e recurso a fórmulas quase infalíveis, e máquinas de promoção gigantescas. Nem vale a pena tentar competir directamente com esses filmes. A exibição de cinema alternativa estava a crescer, lentamente e sem terem essa pressão de fazer um número grande de espectadores que rivalizasse com os blockbusters. Era essa a tendência em vários países europeus, através de redes de salas alternativas, cineclubes, cinemas municipais… Em Portugal era ainda uma rede muito incipiente, mas como a maior parte das tendências acabaria por chegar cá.

Um cinema ‘infantilizado’ vs. séries de televisão: Isso só é verdade para o cinema mainstream, que se infantilizou e sim, perdeu alguma magia, basta ver que houve épocas em que alguns dos grandes autores eram também aqueles que tinham sucesso, mas isso já há muito que deixou de ser assim, nem é um fenómeno recente nem se aplica ao cinema em geral: por exemplo, o disco ‘Kind Of Blue’, do Miles Davis estava nos tops de venda da época em que foi lançado. Mas há muito para lá do cinema mainstream, aliás quase tudo. E hoje há uma diversidade tão grande que não é fácil generalizar. Uma coisa que me parece evidente é que já se fizeram filmes melhores. Quanto a séries de televisão, não vejo, por isso não sei qual a razão do sucesso, tudo o que dissesse seria em segundo grau ou por ouvir falar. Para mim não faz sentido perder tantas horas em várias temporadas com algo que, normalmente, se poderia contar em duas horas. O meu interesse pelas séries é nulo, nem sei os nomes das que têm maior sucesso de público ou crítico.

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Se esta situação se mantiver sempre, acabem com os festivais de cinema ou chamem outra coisa a estes eventos online (…) ©Curtas.

O cinema de arte & ensaio e o streaming: Cada vez havia mais espaços para todo o tipo de cinema, projectado, que é o que me interessa, seja em salas ou em festivais. O streaming pode ajudar, desde que não seja gratuito ou pirateado, mas os filmes que referes foram feitos para serem vistos nas salas. Às vezes há também um equívoco na forma sobre como nos referimos a “cinema alternativo”, “cinema do mundo”, como se essas etiquetas fizessem bons filmes, quando na maior parte das vezes até são maus. Mas têm que existir, para que alguns deles sejam bons. Quanto às plataformas de streaming, podem sobretudo ajudarem-se a si próprias.

Festivais, mercados, reportagens e entrevistas online: Acho que não faz qualquer sentido festivais em streaming, espero que o que se passa neste momento seja apenas uma questão de sobrevivência, numa situação que se considera circunstancial. E que depois tudo volte ao normal nos festivais, o cinema precisa disso. Para muitos filmes, os festivais são quase a única forma de serem projectados num grande ecrã, nas melhores condições de som e imagem, numa partilha e diálogo directo com o público. Os festivais apresentam obras inéditas, em estreia absoluta, num percurso cuidadosamente delineado por realizadores e distribuidores, que se segue a meses de trabalho intenso de preparação, rodagem e pós-produção. Esse trabalho não foi seguramente pensado para terminar num computador ou num i-phone. Se esta situação actual se mantiver para sempre, acabem com os festivais de cinema ou chamem outra coisa a estes eventos online, mas não festivais.

Os agentes do sector andam um pouco desanimados: O único ânimo possível é pensar que pode ser uma situação passageira. Se durar demasiado, não vai sobrar nada, toda a gente terá que procurar outros modos de vida, e quando tudo voltar vai ser feito de novo a partir do zero.

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Pela primeira vez na sua história o ‘Curtas’, foi adiado, agora para outubro. ©Curtas

O fim de uma era no cinema: Depende de quanto tempo durar esta situação. Também pode provocar exactamente o contrário: um desejo enorme de um regresso a experiências colectivas, de estar com muita gente, desde que exista a percepção que as experiências colectivas voltaram a ser absolutamente seguras. Algo que ninguém pode garantir neste momento, nem o seu contrário.

Lotações limitadas vs. receitas de bilheteira: Não vai ser possível. As lotações limitadas e a percepção de risco de contágio ao entrar numa sala de cinema vão impedir que exista uma rentabilidade num curto prazo.

Operadores de serviços de plataformas: Não no meu caso, pois não quero ter acesso a nenhuma plataforma. A primeira vez que acedi e paguei plataformas online de exibição de filmes foi durante estas semanas de estado de emergência e confinamento, pois não tinha outra alternativa – normalmente só vejo filmes nas salas de cinema. E a conclusão a que cheguei foi que não têm grande interesse, os conteúdos que realmente valem a pena são tão reduzidos, que se quisermos mesmo ter acesso ao que interessa temos que pagar várias ao mesmo tempo, pois não se encontram mais que uma ou duas coisas por mês que justifiquem o investimento em cada uma delas.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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