ArteKino | Fatima, em análise

Em Fatima, o realizador Philippe Faucon examina e retrata a vida e tumultuosa dinâmica familiar de uma imigrante argelina e suas duas filhas na França dos nossos dias.

fatima artekino

Quando, no início deste ano, foi feita a cerimónia de entrega dos prémios César, muitas pessoas ficaram chocadas com a escolha do filme vencedor do galardão máximo para Melhor Filme. Mesmo sem terem visto o filme, indivíduos como o ator Guillaume Gallienne, mostraram-se críticos desta escolha, apontando para ela como uma manifestação do politicamente correto a ser posto acima de considerações de mérito artístico. Em primeiro lugar, criticar um filme de modo tão cortante sem o ter visto é um sinal de imprudência e ignorância, em segundo, Fatima de Philippe Faucon é, de facto, uma obra de cariz político, mas isso não lhe tira valor e, no final, os seus méritos artísticos são consideravelmente superiores ao de muitos dos outros nomeados.

Mas essa valorização estética não implica, de modo algum, que o seu comentário político e social seja de menosprezar. Pelo contrário, no clima atual que vivemos, e que se evidencia ainda mais na corrosiva islamofobia e xenofobia da sociedade francesa, um filme como Fatima é um risco, uma necessidade e uma aventura cinematográfica da mais alta importância. Este é, como o título indica, o estudo na vida de uma mulher chamada Fatima, uma imigrante de origem argelina que vive em Lyon com as suas duas filhas adolescentes depois de se ter divorciado já em território francês há muitos anos.

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Somos apresentados ao trio de personagens centrais numa sequência de abertura tão subtil e violentamente sucinta como o resto do filme. Longe de grandes dramatismos, observamos esta imigrante e suas filhas a visitarem um apartamento para onde se poderão hipoteticamente realojar. A localização é boa, visto que está perto da Escola de Medicina onde Nesrine, a filha mais velha, estuda, mas, parece que há um problema com os proprietários do edifício. É que, quando olha a cabeça  de Fatima coberta por um hijab, a mulher, que ia apresentar o apartamento, muda de atitude e começa logo a dizer que já têm um novo inquilino. É um vislumbre casual e antidramático de islamofobia, mas é precisamente na sua modéstia casual que se esconde o seu maior veneno.

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Face a tal início poderíamos concluir que, tal como muitos outros filmes desta temática, Faucon iria tornar Fatima num desfile de injustiças e exemplos caricaturados da preconceituosa sociedade francesa. Só que, este filme e cineasta demonstram uma sagacidade e humanidade muito superior a tais facilitismos. Cenas como essa, em que Fatima é vitimada pelos preconceitos e desconfianças de franceses hostis repetem-se, mas nunca há nada de sensacionalista ou panfletário nas situações ou no modo como são apresentadas. Na realidade, nem é mesmo essa barreira entre Fatima e a sociedade francesa que se evidencia o tema central do filme, mas sim a barreira entre ela e suas filhas.

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Voltando a recordar a abertura do filme, mais do que simplesmente introduzir o conflito entre Fatima e o seu país de residência, essa sequência também estabelece a difícil dinâmica familiar deste trio feminino. Parte dessa dificuldade devém da distância comunicativa entre as duas gerações de mulheres, pois enquanto Nesrine e a sua irmã mais nova, Souad, estão completamente integradas na sociedade e cultura francesas, Fatima nem sabe falar a língua fluentemente. Ela pode ter atravessado enormes distâncias para assegurar às suas filhas um futuro melhor mas, ao fazer isso, Fatima também garantiu a trágica separação que viria a formar-se entre as três, entre a sofredora imigrante que ainda é argelina na sua alma, uma jovem  trabalhadora-estudante de Medicina que respeita mas não consegue compreender a mãe e uma adolescente impetuosa e insolente que nunca mostra uma pinga de simpatia pelas gerações mais velhas e seus problemas de assimilação.

Felizmente, Faucon é capaz de muito mais empatia que a jovem Souad e o modo como ele a retrata é prova disso mesmo. Apesar de ser, das três personagens principais, a mais moralmente dúbia, esta adolescente nunca é vilificada nem pelo texto nem pela câmara. O guião, adaptado dos poemas e memórias de Fatima Elayoubi, demonstra uma magistral coerência humanista, propondo-se a observar os detalhes mais insignificantes e até humorísticos na vida das suas personagens sem as julgar a elas ou às figuras humanas na sua periferia. Por outro lado, a câmara nunca cai nas dinâmicas de alienação típicas de tanto do cinema realista europeu e cria um equilibrado balanço entre observação passiva e pesquisa íntima, usando muitos grandes e médios planos, mas nunca insinuando a displicência estética de abordagens mais televisuais.

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A experiência total desta união de texto humanista e estética modesta é de uma delicadeza soberba e incomum. Podemos chamar a Fatima um filme de intenções políticas bastante claras, mas não estamos perante nenhuma obra que reduza pessoas a ideias. De facto, Fatima, em particular, é uma personagem de assombrosa complexidade e multitudes interiores e nunca completamente expressas. Ao longo da narrativa, que é mais uma compilação de momentos unidos por um tema comum do que uma estrutura dramática, a personagem titular vai registando a sua vida e pensamentos numa espécie de registo diarístico. Tal documentação é feita em Árabe tingido por uma gentileza quase lírica bem distante do grosseiro e inepto francês que Fatima consegue falar com dificuldade, e, quando ela finalmente nos lê em voz alta estas palavras, o impacto é avassalador. Não há grande euforia operática nesse momento, mas ouvir a exposição crua da vida interior de uma mulher que se sente completamente distante das filhas que tanto ama é tão dolorosa como revelador.

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A força do momento é intensificada pelo facto de que, como a maior parte do elenco, a atriz Soria Zeroual é uma relativa amadora e, ao bom estilo neorrealista, é a sua própria experiência de vida e desconforto perante a câmara que pintam os espaços em branco deixados pelo texto acerca de Fatima. No final, a totalidade do filme é como a sua prestação principal, pequeno, modesto, um pouco impolido, mas belo e profundamente honesto e humano. Fatima não é um exemplo de cinema como espetáculo, ou mesmo de cinema como experiência estético do foro audiovisual, mas sim do cinema enquanto uma maravilhosa e quase mágica máquina de empatia humana.

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O MELHOR: A delicadeza humanista do guião, sua miríade de pequenos momentos cheios de implicações passadas e insinuações de uma experiência de vida quer vai muito para além da miniatura capturada pelos 79 minutos de Fatima.

O PIOR: Apesar do bom trabalho das atrizes, do realizador e da complexidade do texto, as duas filhas são muito menos desenvolvidas que a sua mãe, o que é entendível, mas não deixa de ser frustrante.


 

Título Original: Fatima
Realizador:  Philippe Faucon
Elenco: Soria Zeroual, Zita Hanrot, Kenza Noah Aïche, Chawki Amari

Artekino | Drama, Família | 2015 | 79 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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