I Am not a Witch

FEST ’18 | I Am Not a Witch, em análise

Uma menina zambiana é acusada de ser uma bruxa e vê a sua sôfrega existência tornar-se numa farsa absurdista, tão irónica como cruel, em “I Am Not a Witch”. Este filme é a primeira longa-metragem de Rungano Nyoni e um dos melhores projetos em exibição no FEST | Festival Novos Cineastas Novo Cinema, a realizar-se de dia 18 a 25 deste mês em Espinho.

Rungano Nyoni é uma realizadora britânica nascida na Zâmbia que, o ano passado, assinou a sua primeira longa-metragem, “I Am Not a Witch”. Neste filme, Nyoni virou o olhar para a nação que a viu nascer e criou uma obra de tal segurança estilística e claridade concetual que é difícil crer que se trata do seu primeiro esforço no panorama das longas-metragens. Note-se, por exemplo, o modo como a cineasta abre “I Am Not a Witch”, posicionando o espectador num autocarro que percorre a paisagem zambiana, aqui filmada como uma expansão sem fim de brancura cáustica. Na banda-sonora ressoa uma agressiva melodia de Vivaldi que se subsume quando o veículo para e seus passageiros saem para se depararem com uma visão estranhíssima.

Num campo arenoso, um grupo de mulheres está sentado no chão, suas faces pintadas com desenhos em tinta branca e com uma fita que as prende a bobines gigantes. À sua volta está uma cerca improvisada e, graças às palavras de um pseudo guia turístico, ficamos a saber que estas mulheres são bruxas. As fitas estão lá para as impedir de escaparem através do voo e a cerca está lá para a segurança dos turistas, incluindo algumas das poucas caras brancas que passam pelo filme. Efetivamente, este é um zoo humano sancionado pelo estado e alimentado ora pela superstição ou oportunismo de toda uma sociedade.

I am not a Witch critica FEST
Uma menina é desumanizada por uma sociedade misógina e infetada pela superstição.

Depois de nos chocar, Nyongi volta a rebentar os ouvidos do espectador com Vivaldi à medida que a sua câmara viaja pelas faces das mulheres em cânticos supostamente mágicos. A imagem corta então para preto e, nessa tela de escuridão, aparecem uma a uma as palavras do título, como que num apelo gritado a alguma racionalidade e piedade que parecem não existir neste universo retratado por Nyoni. Um universo que é o nosso, pois a cineasta decidiu fazer este filme após ter visitado um campo de bruxas e foi com base nas suas experiências que construiu esta desesperante narrativa centrada numa menina acusada de bruxaria.

Ela é Shula, que conhecemos a seguir ao prólogo, quando a sua presença no meio da estrada assusta uma mulher que carregava água. Sem desperdiçar qualquer momento, o filme corta para Shula e essa mesma mulher na esquadra da polícia local. Pelo que parece, toda a comunidade está a acusar a rapariga de ser uma bruxa, pois, desde que ela apareceu, coisas estranhas têm acontecido. É claro que esses estranhos eventos são ora variações do momento em que a mulher se assustou e deixou cair um balde de água ou então são pesadelos despoletados pela histeria comunal. Ao longo desta cena, a pequena protagonista não diz nada, evitando confirmar ou negar as acusações amedrontadas da população que, ao invés de tentar auxiliar a órfã sem abrigo, está pronta a exigir o seu exílio.

Lê Também:
A Volta ao Mundo em 80 Filmes

Nas mãos de um cineasta com uma voz mais convencional, tal interrogação poderia facilmente transmutar-se numa versão africana de “As Bruxas de Salém” de Arthur Miller. Através da perspetiva invulgar de Rungano Nyoni, contudo, a cena ganha uma dimensão cómica. A encenação é diabolicamente simples, como se a própria câmara estivesse a contar uma piada seca, e a montagem apenas reforça isso, pontuando cada acusação absurda com a inexpressão da polícia que parece quase aborrecida com a tempestade de histeria generalizada que lhe veio bater à porta. Tal tonalidade cómica não abandona o filme depois deste momento, chegando mesmo a intensificar-se à medida que o espectador vai vendo como todo um sistema governamental trabalha com o intuito de tornar a pequena Shula numa comodidade a ser trancada num campo de bruxas e explorada por tudo e todos.

Trata-se de uma farsa de absurdos entre-cortada pela genuína acidez da crueldade com que o mundo trata a protagonista. Isso faz do filme uma proposta tonal extremamente peculiar e mais ou menos inclassificável. Afinal, seria erróneo categorizar a obra de Rungano Nyoni como uma comédia, mas é igualmente erróneo descartar a ironia do seu olhar e a riqueza absurdista do seu tema. Por outro lado, o filme poderia também ser algo próximo do estudo etnográfico se a sua narrativa fosse menos estruturada ou os seus epítetos de estilização menos notórios. Tendo em conta o que acontece a Shula, não seria também estranho chamarmos a isto uma tragédia tingida por um certo tipo de realismo mágico, mas a mise-en-scène de Nyoni não apoia tais conclusões.

I Am not a Witch critica FEST
Entre a comédia cruel, o retrato etnográfico e a tragédia miserabilista.

Enfim, independentemente dessas questões de rotulação cinematográfica, “I Am Not a Witch” é um feito de impor respeito. Já falámos da sua impiedosa mistura de humor e crítica social, mas há que reconhecer como, quando o guião exige, Nyoni é igualmente capaz de orquestrar cenas cheias de ameaça e suspense. Como prova disso só é preciso ver uma das cenas em que Shula fica sozinha nas suas vestimentas, pinturas e escarificações de bruxa e é assim confrontada por algum estranho enfurecido. Noutras ocasiões, a cineasta é igualmente capaz de construir passagens de observação pacífica, quase lírica, especialmente nos seus momentos finais, em que a elegância imagética funciona quase como um murro no estômago do espectador.

Depois de tantos elogios, seria fácil presumir-se que todo o sucesso de “I Am Not a Witch” se deve à sua realizadora, mas, como é bom nunca esquecer, o cinema é uma arte inerentemente colaborativa. A contribuição do diretor de fotografia David Gallego é, por exemplo, inestimável na sua pintura da Zâmbia em tons de osso e cal. Por muito belas que as imagens do filme possam ser, existe sempre algo desconfortável na sua construção, o que é exacerbado pelos desenhos do cenógrafo Nathan Parker, da figurinista Holly Rebecca e da designer de maquilhagem Julene Paton. Até a sonoplastia do filme é de um virtuosismo exemplar, especialmente na sua modulação de deixas musicais e os sons de massas de gente.

No final, “I Am Not a Witch” tende a retratar as superstições zambianas como um mecanismo misógino pelo qual as pessoas podem culpar as suas desgraças em alguém e com a qual as autoridades conseguem conceber atrações turísticas e fonte de mão-de-obra barata. Ao mesmo tempo, por muito indefinida que a personagem de Shula possa ser, a prestação solenemente imperiosa da jovem Maggie Mulubwa e o foco que Nyoni confere às suas reações, imbuem Shula de dignidade e agência. Assim, o filme contradiz a ideia de que esta criança não é mais do que uma marioneta de carne que só existe para sofrer em nome da tese da narrativa. Ela é uma personagem que merece a nossa atenção, uma vítima que merece a nossa indignação em seu nome e, acima de tudo, uma pessoa que merece a nossa empatia.

“I Am Not a Witch” vai ser exibido dia 22 de junho no âmbito do FEST | Festival Novos Cineastas Novo Cinema, em Espinho. Não percas!

I Am Not a Witch, em análise
I Am Not a Witch fest critica

Movie title: I Am Not a Witch

Date published: 2018-06-11

Director(s): Rungano Nyoni

Actor(s): Maggie Mulubwa , Gloria Huwiler, Eunice Mapala, Nellie Munamonga, Margaret Z. Mwale, Mirriam Nata, John Ng'Ambi, Becky Ngoma, Henry B.J. Phiri, Margaret Spinella, John Tembo, Pulani Topham, Selita Zulu

Genre: Drama, 2017, 93 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO

Não há que enganar, “I Am Not a Witch” nem sempre é um filme fácil de ver, mas a sua complexidade ou temas difíceis são elementos de valor e não fragilidades. Em relação a Rungano Nyoni, esta é uma primeira longa-metragem incrivelmente impressionante.

O MELHOR: Tanto o prólogo como o final são pontos altos no que diz respeito ao primor estético deste belíssimo filme.

O PIOR: Uma cena passada num estúdio televisivo pode ser baseada em eventos reais, mas tende a fazer o filme resvalar num tipo de comédia pintada com pinceladas demasiado largas para o resto da história em que se insere.

CA

Sending
User Review
5 (1 vote)
Comments Rating 0 (0 reviews)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending