Likemeback

12ª Festa do Cinema Italiano | Likemeback, em análise

Likemeback” é um drama cheio de nudez e crítica social sobre um trio de jovens amigas a viajar num iate pela costa croata. É também uma das longas-metragens em competição na 12ª Festa do Cinema Italiano.

A nossa cultura e sociedade odeiam mulheres jovens. Pelo menos, assim parece, especialmente no que se refere aos gostos destas pessoas. Literatura dedicada a este público tende a ser automaticamente vista como um objeto de pouco mérito e alvo justo de escárnio. A música popularizada por adolescentes é recorrentemente ridicularizada e alvo de chacota, mesmo quando o seu sucesso comercial é monumental. Filmes que apelam a esta demografia são catalogados como chick flicks, um denominador usado para denegrir tais obras. As redes sociais que ocupam muito do tempo das jovens da sociedade atual são pintadas como poços de malignidade amoral e superficial, antros de vaidade glorificada e sexualização indevida.

Basta vermos como músicos, atores e outros, tendem a renegar seu sucesso enquanto produtores de entretenimento para mulheres jovens quando querem ser vistos como artistas legítimos, aceites pelo mainstream. Membros de boy bands, por exemplo, só tendem a ser celebrados como músicos de valor, mesmo dentro do contexto da indústria pop, quando vingam a solo ou numa nova banda cuja imagem não esteja presa à adoração de raparigas adolescentes. Olhemos para a surpresa generalizada que se registou quando a Teen Vogue mostrou ser capaz de lidar com temas políticos e socialmente complicados, como se tais problemáticas fossem impossíveis de coalescer com os interesses de uma leitora jovem.

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Um trio de formidáveis atrizes.

Para todos os efeitos, parece que a cultura moderna, quando olha para uma mulher jovem, só vê um corpo pronto a ser explorado sexualmente em redes sociais nefastas e uma mente vápida, fútil e vaidosa, sem capacidade para pensar em temas complicados e cujos interesses são desprovidos de valor. Leonardo Guerra Seràgnoll certamente parece ser dessa opinião. No mínimo, se não desejarmos ser demasiado precipitados em fazer julgamentos pessoais sobre um artista através do seu trabalho, podemos dizer que “Likemeback”, o mais recente filme deste cineasta, propaga tais ideias. Afinal, que outra coisa poderíamos esperar de um projeto que pode ser adequadamente descrito como “Spring Breakers” made in Itália?

Tal como na sua primeira longa-metragem, “Last Summer”, Leonardo Guerra Seràgnoll encena muita da ação de “Likemeback” num iate a viajar pelas águas do Mediterrâneo. Desta vez, contudo, os protagonistas não são uma mãe japonesa e o filho, mas sim um trio de amigas acabadas de sair da escola secundária. Lavinia, Danila e Carla passam os dias a apanhar banhos de sol e a documentar a sua existência hedonista com os telemóveis que parecem ser mais importantes para elas que a própria vida. De facto, quando Carla acidentalmente deixa que o seu iPhone caia borda fora, as amigas consolam-na com o mesmo tipo de solenidade que normalmente se reserva para o funeral de um ente querido.

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Longe de ser um drama estruturado com um enredo, “Likemeback” é mais um exercício de observação. A audiência é convidada a ver o quotidiano destas jovens e gradualmente ir discernindo suas personalidades, sua dinâmica e o tipo de performance social que lhes vai consumindo a vida como um veneno. Nesse sentido, Seràgnoll apoia muito do filme nos talentos das três atrizes principais e, felizmente, elas são mais do que capazes de suster o peso de todo o projeto. Com um registo naturalista, o trio transmite bem a ideia de uma amizade de longa duração e representam, sem condescendência ou caricatura, os comportamentos mais peculiares e afetados destas raparigas viciadas no prazer de receber likes nas fotos e vídeos.

Como Lavinia, Blu Yoshimi tem direito a inteiras cenas focadas nas camadas de artifício que constroem a projeção de autenticidade que a personagem oferece aos seus admiradores virtuais. Há um desespero desconfortável no seu olhar, uma fome, nunca saciada, por validação pessoal. Danila, em contraste, é uma mestra em encontrar gratificação a partir das redes sociais e a sua performance em frente à câmara do telemóvel é muito mais natural, mas não menos estudada. Angela Fontana mostra bem essa faceta da personagem, ao mesmo tempo, que sombreia o retrato com uma peculiar melancolia. Por muito vivaças que as raparigas possam ser, os sorrisos que lhes adornam o Instagram são falsos.

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Será esta uma geração perdida?

Carla é a mais introspetiva das amigas e aquela que melhor personifica essa ideia de omnipresente melancolia que, em termos formais, só se tende a manifestar na banda-sonora e nunca na fotografia digna de postal. Denise Tantucci delineia os limites de tristeza, desejo e contentamento desta figura com claridade, fazendo das suas decisões mais rebuscadas, algo entendível. É graças a ela que o clímax funciona e que, quando a ditadura das redes sociais vai longe de mais, nos revela o preço humano que tal estilo de vida pode ter. Seràgnoll utiliza bem estas capacidades dramáticas do elenco, indo lentamente aumentando a tensão do grupo até essa explosão final.

Infelizmente, o restante trabalho do realizador nunca chega aos calcanhares das atrizes e chega mesmo a prejudicar os feitos do elenco. Dizemos isto pois, apesar de Tantucci, Fontana e Yoshimi interpretarem seus papéis de modo franco e sem condescendências, o argumento e realização de Serágnoll transbordam o julgamento moralista de alguém que se sente superior às três amigas. O pior de tudo, é que o cineasta é um hipócrita, pois, na mesma medida em que retrata a promiscuidade das protagonistas como algo pernicioso, está sempre a filmar seus corpos como se as atrizes estivessem a protagonizar um editorial da Playboy. Aliando isso à atitude reacionária e mesmo hostil que o filme tem para com as jovens e a geração que elas representam, “Likemeback” acaba por ser um miasma intragável de misoginia e conservadorismo escondidos atrás de uma fachada de libertinagem sem estribeiras. Aplaudimos o trabalho das atrizes, mas não há aqui mais nada de valor.

Likemeback, em análise
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Movie title: Likemeback

Date published: 2019-04-10

Director(s): Leonardo Guerra Seràgnoli

Actor(s): Denise Tantucci, Angela Fontana, Blu Yoshimi, Goran Markovic, Carolina Pavone, Guglielmo Pinelli

Genre: Drama, 2018, 80 min

  • Cláudio Alves - 40
40

CONCLUSÃO:

“Likemeback” tenta apontar o dedo à superficialidade tóxica de uma geração de mulheres jovens, mas acaba por ser um diagnóstico cáustico da misoginia de toda uma sociedade doente. Um trio de desempenhos naturalistas salva parte do projeto, mas o filme acaba por se afundar nas águas da mediocridade e da hipocrisia moralista.

O MELHOR: Os desempenhos das atrizes.

O PIOR: O modo como o realizador está sempre pronto a trair a gramática visual do filme para melhor mostrar a nudez núbil das suas protagonistas. Veja-se, por exemplo, como ele filma quase tudo em grandes planos que obscurecem qualquer outra pessoa que não seja as raparigas, mas está sempre a cortar para grandes planos quando elas estão despidas e a apanhar banhos de sol. Outro exemplo é o modo como ele passa meia hora a conspicuamente evitar mostrar a cara do capitão do iate, mas depois fá-lo sem nenhuma justificação dramatúrgica. É cinema indisciplinado e lascivo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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