Menocchio

12ª Festa do Cinema Italiano | Menocchio, em análise

Menocchio” de Alberto Fusalo é um filme de época que fala de temas importantes e portentosos e está, de momento, em competição na 12ª Festa do Cinema Italiano.

Em 1928, o cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer realizou um dos filmes religiosos mais influentes e importantes da História da Sétima Arte. Usando transcrições do julgamento e uma linguagem visual baseada quase exclusivamente em grandes planos de atores despidos do artifício da maquilhagem teatral, Dreyer trouxe ao grande ecrã a história trágica de Joana d’Arc e seus últimos dias. Com uma prestação lendária de Maria Renée Falconetti a enfatizar a humanidade da mártir acima de qualquer consideração dela como um ícone distante, o filme fez dos dilemas do espírito uma experiência visceral e inesquecível. Ainda hoje, muitos são os cinéfilos, académicos e historiadores que listam “A Paixão de Joana D’Arc” entre os melhores filmes já feitos.

90 anos depois, o cineasta Alberto Fasulo parece estar a propor a sua própria versão desse clássico canonizado do cinema mundial. Desta vez, contudo, o realizador italiano trocou a guerreira francesa por um molinheiro italiano que, no século XVI, foi julgado pela Inquisição e condenado a morrer na fogueira. Seus crimes foram, segundo a Igreja Católica, a heresia de questionar e blasfemar contra a ordem bíblica. Pelo menos, assim foram algumas das acusações oficialmente levantadas contra ele. Em retrospetiva, é fácil analisar todos os documentos que ainda existem dos seus julgamentos e deduzir que a sua execução se deveu principalmente ao modo como Menocchio desafiava altivamente o status quo da sociedade da época e sua rígida ordem hierárquica.

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O uso de luz natural dá ao filme uma intemporalidade pitoresca.

Ele opunha-se, por exemplo, à marginalização dos pobres e analfabetos pela hegemonia do Latim em questões de lei e liturgia, acusava os ricos de abusarem do povo e apontava o dedo à própria igreja pelo modo como atacava pessoas de outras religiões. Fazendo uma breve pesquisa sobre este homem, é fácil entender como seu fado trágico poderia vir a fascinar artistas séculos depois de ele ter morrido entre as labaredas. Aliás, até é de admirar que haja tão poucas dramatizações cinematográficas da sua vida. Talvez por isso, Fasulo tenha querido justificar um lapso representativo, honrando Menocchio através dos mesmos mecanismos que esculpiram um lugar para Joana D’Arc na História do Cinema.

Atente-se que a comparação entre os dois filmes não é simplesmente uma questão de temáticas semelhantes. Tal como “A Paixão de Joana D’Arc”, “Menocchio” baseia-se quase exclusivamente em documentos judiciais da época e sua execução formal é profundamente claustrofóbica, sendo que a câmara raramente se afasta das caras enrugadas da personagem titular e seus acusadores. Os cenários são simples e agem mais como fundo desfocado, os figurinos são historicamente corretos, mas depurados. Só quando o cineasta tenta expor uma visão subjetiva da ameaça de violência física, de tortura, é que esta gramática cinematográfica se transmuta, adotando um tom mais teatral e fantasioso, como um pesadelo expressionista.

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Infelizmente, temos de admitir que o filme italiano não chega sequer aos calcanhares do clássico de Dreyer. Parte do problema devém do ator principal e sua direção. Marcello Martini tem as feições intemporais de um retrato renascentista e transmite uma invariável aura de dignidade inviolável, mas suas escolhas de ator deixam muito a desejar. Mesmo em cenas de angústia e esforço físico, há algo de superior e distante na sua apresentação rígida, sendo que ele parece ter optado por esconder quaisquer vulnerabilidades de Menocchio por detrás de uma máscara estoica. Num filme tão dependente de grandes planos, esse instrumento cinematográfico que convida o espectador a ler a psicologia das personagens pintada na expressão facial, tal máscara é incongruente.

Quando, no clímax dramático, Fasulo convida o seu protagonista a fitar diretamente a câmara, confrontando o espectador com seu olhar penetrante, é difícil ver aí algo mais que um gesto vácuo de pantomima portentosa. Afinal, não sabemos nada sobre Menocchio além da sua desafetada e inexpressiva defesa face às interrogações e acusações de uma série de figuras autoritárias que nunca são mais que vilões unidimensionais. Se “A Paixão de Joana D’Arc” é um estudo de dor e medo, de resiliência espiritual face à punição da carne, “Menocchio” é uma coleção de argumentações secas, onde a fragilidade humana é posta de parte, esquecida pelos cineastas.

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As melhoras cenas do filme são aquelas que permitem que a linguagem de horror se una à sua pesquisa histórica.

Num épico bíblico dos anos 50, cheio de planos gerais e paisagens imponentes, esta abordagem poderia fazer sentido. Neste caso, Fasulo usa a linguagem de um estudo de personagem, mas é incapaz de realizar esse mesmo estudo. Não queremos com isto dizer que “Menocchio” não tem bons elementos. Sempre que o realizador se afasta da severidade acética do julgamento e deixa entrar alguns elementos de terror na construção cénica, então o filme sente-se revitalizado. Uma abertura que parece composta por fragmentos de uma pintura de Caravaggio e uma noite de horrores demoníacos são duas sequências que sugerem uma versão muito mais interessante desta história.

Por fim, ao invés de focar a narrativa no julgamento que acabou com a execução do molinheiro, Fasulo dedica o filme aos primeiros inquéritos que levaram à prisão perpétua do acusado. Menocchio passou 15 anos atrás das grades, mas vivo, graças ao ato de abjuração, por onde renegou as suas crenças pessoais. Para construir um filme em volta de um gesto de dúvida e penitência, de mentira e medo, depreende-se que o cineasta deveria ter tentado mostrar o que levou à escolha final do protagonista. Fasulo, contudo, parece pensar que basta olhar respeitosamente para sua fachada de integridade solene ao invés de tentar ilustrar qualquer tipo de motivação ou interioridade. “Menocchio” é um filme sobre a escolha, onde o realizador não deixou espaço para as personagens manifestarem nenhuma autonomia ou capacidade de escolha além da récita de textos históricos.

Menocchio, em análise
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Movie title: Menocchio

Date published: 2019-04-10

Director(s): Alberto Fasulo

Actor(s): Marcello Martini, Maurizio Fanin, Carlo Baldracchi, Nilla Patrizio, Emanuel Bertossi, Agnese Fior, Mirko Artuso, Giuseppe Scarfì, David Wilson, Roberto Dellai

Genre: Drama, História, 2018, 103 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Indo buscar muita inspiração a “A Paixão de Joana D’Arc” de Carl T. Dreyer, Alberto Fusalo assina, em “Menocchio”, uma história de fé e opressão anémica e sem vida. Algumas escolhas formais e momentos de misticismo horrorífico redimem as passagens mais aborrecidas da obra, mas este é um caso claro de uma história interessante que, através de uma má execução, se mostra incapaz de suster um filme desinspirado.

O MELHOR: Apesar de uma linguagem cinematográfica apoiada no grande plano claustrofóbico, a fotografia de “Menocchio” é impressionante. O uso de luz natural e a claridade mínima de velas é algo de particular virtude técnica.

O PIOR: O olhar final para a câmara, um gesto vistoso que não é, de maneira alguma, sustentado pelo filme que o precedeu.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “12ª Festa do Cinema Italiano | Menocchio, em análise

  • Acho que à crítica faltou um elemento central para a consideração do filme: ele se baseia no livro do historiador Carlo Ginzburg, “O queijo e os vermes”. Assim, não creio que o diretor estivesse com “A Paixão de Joana D’Arc” como referência de filme sobre Inquisição, mas sim a preocupação em adaptar para o cinema uma obra historiográfica que estivesse à altura do do trabalho de Ginzburg ao perscrutar os autos inquisitoriais para recuperar as ideias de Menocchio, às quais o moleiro nunca verdadeiramente renunciou.

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