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12ª Festa do Cinema Italiano | Figlia Mia, em análise

“Figlia Mia” da realizadora Laura Bispuri é um dos melhores filmes em competição na 12ª Festa do Cinema Italiano. Não percas a nossa cobertura deste festival que, depois de Lisboa, vai passar por todo o país.

Ao longo dos últimos anos, Alba Rohrwacher tem vindo a afirmar-se como uma das melhores atrizes do cinema europeu contemporâneo. Seu repertório é variado, tanto em termos de caracterização como de registo tonal, e os filmes a que a atriz italiana concede seus talentos tendem a ser pequenas joias. “Figlia Mia”, originalmente estreado na Berlinale, volta a juntar a atriz com a realizadora Laura Bispuri que, em “Virgem Prometida”, já tinha proporcionado a Rohwacher um dos seus melhores papéis como uma mulher albanesa que sacrifica a sua sexualidade para poder desfrutar da liberdade e do privilégio de uma identidade masculina.

Desta vez, contudo, o papel da atriz está longe de ser tão introspetivo. De facto, em “Figlia Mia”, Alba Rohrwacher interpreta uma mulher bastante simples, guiada pelos seus impulsos e dominada pelos desejos, uma bomba de caos primordial. Ela é Angelica, uma loira desinibida que vive na Sardenha. Quando não está ocupada a negligenciar os cavalos da sua quinta, ela passa o tempo a passear pelas paisagens arenosas em busca de algum encontro sexual rápido e sem compromissos. Com sua gesticulação exagerada, beleza meio etérea e atitude desafiante, Angelica parece ser uma versão deslavada das grandes divas dos melodramas italianos que em tempos tornaram mulheres como Anna Magnani e Sophia Loren em superestrelas.

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Alba Rohrwacher é uma estrela em ascensão.

Considerando tudo isto, não é difícil imaginar como um mero vislumbre desta mulher possa enfeitiçar uma criança inocente. O espectador é certamente enfeitiçado pela sua presença no grande ecrã. Assim acontece logo na primeira cena de “Figlia Mia”, quando a verdadeira protagonista do filme primeiro dá de caras com Angelica. Vittoria é uma menina ruiva e pálida que tem uma relação próxima com a mãe, Tina, mas está a chegar à idade em que precisa de alguém para culpar de todas as suas inseguranças e angústias. Um dia, quando passeia com a mãe por uma festa local, sua atenção recai sobre uma figura pálida na multidão, uma pincelada de brancura e juba loira no meio da areia branca e céu azul. Depois de muito ser apalpada por um homem desconhecido, Angelica lá dá conta da presença da menina e, como se tivesse visto um espírito, caminha extasiada na sua direção.

Para Vittoria, trata-se de uma experiência que tanto fascínio desperta como medo. Na altura, ela foge para os braços de Tina, mas, quando tem oportunidade, a menina não demora a aventurar-se em busca da loira. Apesar de o argumento escrito por Bispuri e Francesca Manieri não revelar os seus segredos de modo muito explícito, é fácil deduzir a dinâmica que une as três figuras femininas. Angelica é a mãe biológica de Vittoria e, desde o nascimento da criança, tem vindo a viver às custas da caridade de Tina e seu marido. Por seu lado, o casal tem tentado manter Vittoria afastada da outra mulher, chegando mesmo a esconder a sua existência na esperança de que a filha não se venha a tornar num caco humano à imagem da mãe.

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Como é óbvio, toda esta tapeçaria de segredos vem a desfiar-se à medida que Vittoria e Angelica passam tempo juntas e a jovem se vai afeiçoando à mulher que é tão radicalmente diferente da mãe que ela conhece. Tina, que tinha tido um alívio efémero quando soube que Angelica estava a planear mudar-se para longe da Sardenha, é assim transtornada pelo cataclisma que se abate sobre sua unidade familiar. Não só Vittoria está a crescer e a tornar-se numa adolescente rebelde, como se está a afastar progressivamente de Tina e a confiar em Angelica. Nas mãos de muitos outros cineastas, este tríptico de laços de sangue e afeto poderia cair num fácil binário moral. Bispuri, no entanto, prefere evitar esses facilitismos.

A história de “Figlia Mia” é uma exploração do tipo de negociação emocional que ocorre entre qualquer mãe e filha nesse período difícil em que uma menina se torna mulher e deixa para trás a inocência e dependência parental da infância. Para Tina, que sempre tentou subjugar o caos da vida a uma ordem confortável, a reentrada de Angelica na vida de Vittoria é o apocalipse. Valeria Golino, que tem um papel muito menos vistoso que o de Alba Rohrwacher, demonstra como Tina vai perdendo controlo e se desfragmenta em espirais de pânico e desamparo. Angelica, por seu lado, também não é nenhum monstro imoral, sendo que parece ter genuíno afeto por Vittoria, apesar de a sua imaturidade a impedir de expressar tais sentimentos de um modo saudável ou seguro para a menina e para si mesma.

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Laura Bispuri evita binários moralistas.

Enquanto realizadora de atores, Bispuri é uma mestra consagrada e, em “Figlia Mia”, isso vê-se tanto nas prestações perfeitamente opostas de Alba Rohrwacher e Valeria Golino, como também no trabalho da pequena Sara Casu. Devido à ênfase que o guião coloca nas duas figuras maternas em conflito, o papel de Vittoria tende a subsumir-se a uma presença reativa, mas isso em nada diminui a sua importância. Sob a orientação da realizadora, Casu consegue transmitir toda a tempestade de descobertas, traições, fúria e curiosidade que se desenrola na mente da protagonista. Por exemplo, quando a vemos começar a ganhar confiança face a Angelica, seu olhar e postura revelam um desejo por afeto sombreado pela caução amedrontada, como um gato selvagem a cheirar a mão de uma pessoa que lhe quer dar festas. Esse é só um dos muitos momentos em que “Figlia Mia” mostra como, apesar de ser um desavergonhado melodrama, existe em si espaço para complexidade humana e até alguma ambivalência sentimental.

Além de tudo isso, a partir de mecanismos formais, a realizadora tende a isolar as suas figuras centrais em ambientes que parecem despidos de outra presença humana. A câmara, por exemplo, está sempre a seguir as três mulheres, deixando qualquer outra pessoa às margens da composição, em contraluz ou mesmo desfocadas. Em contrapartida, a paisagem natural é destacada por uma fotografia que satura as cores naturais, tornando as sombras azuis e a luz do sol uma constante pátina de âmbar sobre a pele das personagens. Há assim a sugestão de uma realidade esculpida em volta das emoções ebulientes da história, onde, para todos os efeitos, nada mais existe senão duas mães e uma filha. Quando, em frente à câmara temos pessoas como Alba Rohrwacher a deixar-se rebentar em gritarias rancorosas, nada mais precisa de existir. No panorama cinematográfico atual, melodramas sinceros e desavergonhados começam a ser raros, o que é uma tragédia tal como nos prova a preciosidade de “Figlia Mia”.

Figlia Mia, em análise
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Movie title: Figlia Mia

Date published: 2019-04-08

Director(s): Laura Bispuri

Actor(s): Alba Rohrwacher, Valeria Golino, Sara Casu, Udo Kier, Michele Carboni

Genre: Drama, 2018, 97 min

  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 75
78

CONCLUSÃO:

Laura Bispuri e Alba Rohrwacher são uma combinação perfeita. Em “Figlia Mia”, as duas assinam um melodrama clássico sobre mães e filhas, sobre as angústias do crescimento e o medo pela desordem. As paisagens da Sardenha são a cereja no topo do bolo.

O MELHOR: A performance bombástica de Alba Rohrwacher.

O PIOR: O final, apesar de emocionalmente catártico, é meio abrupto.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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