Festival de Locarno | Pescatori di Corpi, em análise

Em Pescatori di corpi, o jovem cineasta Michele Pennetta aborda o tema da crise dos refugiados, retratando o Mediterrâneo como um monumental túmulo aquático.

pescatori di corpi locarno

Ainda em janeiro, o cineasta italiano Gianfranco Rossi alcançou a glória do Urso de Ouro em Berlim com Fuocoammare, um documentário sobre a ilha de Lampedusa e a crise dos refugiados que afetam a sua comunidade e existência. Esta situação é uma das maiores tragédias humanas da atualidade e é importante que o cinema admita a sua existência, que a olhe de frente e capture a sua complexidade. Para isso existem vários caminhos – Rossi escolheu a observação humana como caminho indireto para tratar dessa realidade, construindo um complexo retrato a partir de filmagens muitas vezes distantes do tema central do seu filme.

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Na sua mais recente obra, o jovem cineasta Michele Pennetta também almeja construir esse tipo de poesia cinematográfica – um delicado retrato humano que olha a crise dos refugiados de modo subtil. Infelizmente para Pennetta, que levou a sua obra ao Festival de Locarno, o filme peca pela falta de foco e incisão, falta de contexto global e falta de qualquer tipo de opinião latente face ao assunto central. O resultado é uma obra que quase parece incompleta.

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A primeira imagem de Pescatori di corpi não sugere esses limites. Pelo contrário, é um estupendo exemplo de ingenuidade cinematográfica e economia visual. Com uma simples imagem do mar que ocupa quase todo a tela e uma sonoplastia que exagera a intensidade sónica do grandioso Mediterrâneo. Este é um tableau de magnificência bíblica, sugerindo algo muito maior que o ser humano e com uma natureza que nos transcende. É também uma imagem que sugere uma admiração rapidamente subvertida quando vemos um barco de pesca onde se veem as marcas do trabalho da noite anterior. Roupas espalham-se pelo convés marcando o espaço como ultimo repositório para o que sobra das pessoas que morreram na tentativa de atravessarem o mar. Aquelas águas grandiosas de repente tornam-se em algo mais sinistro – um túmulo colossal onde várias vidas sumiram quando engolidas pelas suas águas.

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Essas roupas são apenas algumas das muitas imagens que Pennetta conseguiu capturar e que impõem respeito. O realizador tem um peculiar talento para encontrar beleza pictórica nos mais desoladores ambientes. Quando o barco parte no seu trabalho noturno, as gaivotas que acompanham os pescadores e rasgam a negrura da noite com a sua brancura refletora lembra as monstruosas visões do Leviatã de Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel. Pescatori di Corpi não tem nem metade da criatividade imagética desse filme ou ousadia, mas tem uma assombrosa elegância. As visões do quotidiano de Ahmed, um imigrante ilegal que trabalha como pescador, parecem pinturas de George de la Tour, e o final de uma noite de trabalho é filmado com uma beleza magistral – o céu, já azul e não preto, serve de abóbada para as luzes brancas e amarelas que pintam o ambiente industrial e o tronam em algo onírico.

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Infelizmente, voltamos a salientar que este é um filme que parece incompleto. Temos, é certo, as bases para algo soberbo com uma estética primorosa e brilhantes associações de imagens. A fragilidade do filme é a sua abjeta distância dos seus sujeitos humanos. Apesar de alguns momentos em que os pescadores expressam a sua frustração face à inconveniência que são os corpos e roupas que vêm juntamente com o marisco nas suas redes, ou os problemas que vêm com os pedidos de ajuda em missões de salvamento, Pennetta nunca faz mais do que apenas contornar a superfície de algo muito maior. Nem mesmo Ahmed consegue ser muito mais que um belo fenómeno estético sobre o olhar do realizador, o que realmente prejudica o filme. Não temos aqui nem uma experimentação puramente formal da realidade dura dos pescadores ou um retrato humano com uma aceitável incisão. Apenas uma base incompleta que frustra duplamente por sugerir que, com trabalho, este filme poderia ser um verdadeiro triunfo.

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O MELHOR: Algumas das imagens são verdadeiramente assombrosas e merecem ser admiradas pela sua beleza e perfeita condição enquanto exemplos pictóricos de miséria e desolação.

O PIOR: A insistência numa simples observação passiva do quotidiano, sem um centro ideológico ou concetual que una todo o filme de forma satisfatória.


 

Título Original: Pescatori di corpi
Realizador: Michele Pennetta
Festival Scope | Documentário, Drama | 2016 | 64 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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