© Leopardo Filmes

FICLO ’20 | O cinema de Albert Serra

O FICLO, o Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão, é um dos poucos eventos do género a ter lugar em Portugal no advento da pandemia. Um dos melhores aspetos da sua programação cinematográfica é uma retrospetiva ao trabalho do maravilhoso realizador catalão Albert Serra.

Ao longo das duas últimas décadas, Albert Serra tem vindo a ganhar uma reputação impressionante entre cinéfilos, críticos e aficionados de cinema de autor. Conhecido pelas suas provocações e narrativas langorosas, este é um realizador destemido que não tem medo de subverter o texto bíblico, testar os limites da expressão verbal e dissecar os ícones da História e da Literatura europeia. Seus filmes são rigorosos trabalhos de estilo formalista, performance experimental e convenções estilhaçadas, mesmo quando se achegam ao limiar da pornografia.

Tudo começou de forma meio inócua, com um híbrido entre o musical, o documentário e a etnografia. “Crespià” documenta festividades estivais na Catalunha e tem vindo a ganhar algum seguimento de culto desde a sua estreia em 2003. A maioria dos atores que aparecem diante da câmara são amadores, conhecidos de Serra que viriam a aparecer noutros filmes da sua autoria, estabelecendo uma espécie de elenco reportório do cineasta. Deste modesto trabalho, o realizador deu um enorme salto com a sua segunda longa-metragem, pelo menos ao nível da ambição.

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“Honra da Cavalaria” | © Notro Films

“Honra de Cavalaria”, estrado em 2006, é quiçá a mais estranha adaptação alguma vez feita do “D. Quixote” de Miguel de Cervantes. Na sua procura pela desmistificação da iconografia europeia, o cineasta aniquilou quase todos os elementos textuais desse clássico espanhol, mantendo somente as duas personagens principais e suas personalidades memoráveis. Daí, ele construiu um filme que espanta pela sua humildade e simultânea ousadia. Ao invés de apelar ao sentido épico do mito quixótico, Serra trouxe o famoso cavaleiro até à terra, despiu-o da prosa grandiosa e mostrou-o como um ser humano. O filme é lânguido e lento, movendo-se a um ritmo glacial, mas há algo que encanta na sua arrojada proposta de adaptação.

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Anos mais tarde, em 2011, Serra viria a revisitar os temas e preocupações de “Honra de Cavalaria”, espelhando o seu minimalismo dramático com um documentário sobre a feitura do filme e a peregrinação aos locais em que Cervantes escreveu sua magnum opus. É claro que, antes de tais desventuras documentais, Serra viria a assinar mais umas quantas provocações narrativas, nomeadamente uma história bíblica chamada “O Canto dos Pássaros” de 2010. Nesse trabalho, Serra filmou a viagem dos Reis Magos, excisando toda magia deslumbrante do Novo Testamento e substituindo-a com observação desafetada, crueza dramática e uma maré de interminável inação.

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“O Canto dos Pássaros” | © Andergraun Films

Por outras palavras, quase nada acontece em “O Canto dos Pássaros”, sendo que a maior parte do filme é feita de imagens monocromáticas dos três reis em difícil travessia pelo deserto. Trata-se de um teste de paciência do realizador para com a sua audiência, uma prova cuja superação vale o prémio do assombro cinemático. Pode parecer meio rebuscado, mas há algo sublime no modo como Serra arrasta a divindade para o verismo cru do dia-a-dia, filmando o menino Jesus e a Virgem Maria como pessoas reais ao invés de conceitos distantes. Nesse sentido, o cinema de Serra é um dos mais teologicamente ricos da contemporaneidade, atrevendo-se a procurar o êxtase espiritual na contenção ao invés de no espetáculo, no real ao invés do abstrato.

“Els noms de Crist”, uma colossal narrativa em catorze partes, foi outra experiência bíblica, mas os filmes que viriam a seguir desviaram o rumo do cinema de Serra. Da religião cristã, o olhar de Serra virou-se para a História e sua imortalização pelo meio da palavra escrita. “Els tres porquets” mistura Hitler com Goethe, Fassbinder com Kaufmann e outros que tais, enquanto “História da Minha Morte” cruzou o maior amante da História, Giacomo de Casanova, com o mais famoso vampiro da literatura, o Conde Drácula.

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“História da Minha Morte” | © Leopardo Filmes

O resultado de tal encontro de personalidades é um épico de observação ponderada, um retrato escatológico de um amante envelhecido cujo corpo degradado reflete o rumo de uma Europa cujos vícios e injustiças estavam prestes a rebentar com a Revolução. Muitos consideram que esse filme é a obra-prima máxima de Albert Serra, tendo sido o filme que lhe valeu o Leopardo de Ouro em Locarno e uma das primeiras obras suas a conquistar grande distribuição internacional. Avisamos que é um filme denso, mas também é muito rico, melancólico e febril, cheio de sexo e vísceras, o pesar de um homem prestes a morrer e a sabedoria de outro sem medo da morte.

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“A Morte de Luís XIV” | © FICLO

A decadência europeia do século XVIII voltaria marcar presença na filmografia de Serra. De facto, nesta última década de trabalho, o tema tem vindo a tornar-se numa verdadeira obsessão do realizador. “A Morte de Luís XIV” transmutou o monarca francês numa sinédoque doente de toda a Europa, sua cultura e, de certo modo, seu cinema. “Roi Soleil” é o gémeo experimental desse filme da mesma maneira que “Honra de Cavalaria” e seu companheiro documental são obras da mesma família cinematográfica.

O mais recente trabalho de Albert Serra é “Liberté”. Depois de ter tido um visionamento especial na Cinemateca Portuguesa, nesses meses primeiros do ano quando a pandemia ainda era um pesadelo distante, o filme está em destaque na programação do FICLO. Em certa medida, esta é uma prolongação das pesquisas artísticas do catalão, esse provocador que encontra o espírito através da carne e que tanto gosta de ancorar o sublime na feiura do real. Com sexo explícito e muita pomposidade setecentista, o filme é uma pintura anti-erótica em forma de cinema, um marco que coroa Albert Serra como o Marquês de Sade da sétima arte. Ou seja, é filme que todo o cinéfilo devia ver, tal como todas as obras deste génio catalão.

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“Liberté” | © Rosa Filmes

Para mais informações sobre o FICLO, visita o seu site oficial. As festividades em Olhão terminam na terça-feira, dia 21 de julho.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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