Fontaines D.C. (foto de Daniel Topete)

Fontaines D.C. à MHD | “Um real sentido de liberdade”

Falámos com o guitarrista Conor Curley, dos Fontaines DC, sobre poesia, música e o gosto de ser irlandês. O gosto, acima de tudo, de viver de forma memorável.

Só para perceberem com quem falei, olhem para a imagem. Estão a ver o loirinho de óculos com cara de poucos amigos, o segundo a contar da esquerda, bem na linha da frente? É o Conor Curley. Felizmente para mim (que teria de lidar não com um, mas cinco sotaques irlandeses), por telefone não dava para conversar com a banda toda. Ao me perguntarem com qual dos membros desejava trocar impressões, não estando o Grian Chatten a fazer promoção, pedi para entrevistar o Conor Curley. Na verdade não faz muita diferença. Qualquer um dos Fontaines D.C. tem um papel fulcral na composição, todos estudaram música na mesma faculdade, todos partilham daquele mesmo amor pela poesia que os reuniu, todos esbanjaram e amadureceram a sua juventude por aqueles mesmos bares e ruas de Dublin que servem de cenário aos fragmentos narrativos de Dogrel. Mas, talvez por defeito profissional, inclino-me sempre para o homem por detrás do verbo e gosto de discutir com ele sentidos e intenções (como se isso servisse para alguma coisa). Ora, o Conor Curley é o principal autor dos versos de, pelo menos, uma das canções, a “Roy’s Tune”, pelo que agarrei a oportunidade e combinámos uma chamada por whatsapp. Que, escusado dizer, começou mal.

Várias tentativas malogradas, até à hora em que tinha de sair de casa. Uma mensagem, agora por linha telefónica, a avisar que tentara contactá-lo sem sucesso. E uma resposta pesarosa pela desfeita, a explicar que estreara nessa tarde um novo telefone, no qual ainda não instalara o whatsapp. Recombinada para o dia seguinte, a chamada acabou por acontecer, comigo colada ao aparelho, a pensar, a cada palavra ouvida, que me veria grega para decifrar mais tarde o irlandês que mal compreendia naquela altura. Estou a exagerar um bocadinho, o acento até era bastante claro, quando comparado com certos exercícios de Listening dos exames de Cambridge. Ainda assim sofri um pouco, mas tudo vale a pena se a estima não é pequena. Porque se há uma banda que nos entusiasma a todos nós, por aqui na MHD, são precisamente os Fontaines D.C., este colectivo de amigos literatos, com uma capacidade de observação e relato invulgares, alma desmedida por detrás da verve satírica e guitarras volúveis, tão clamorosas quanto gentis (a sublinhar aquele rude “love, are you hangin’ on?”). Porque isto não é um cantautor disfarçado de banda, isto não é uma colaboração esporádica a que, por inépcia, damos o nome de banda, isto é uma banda. À séria e (não liguem às más-línguas), a julgar pelo que anda a vir de Irlanda e Inglaterra, bem longe da extinção.

DOGREL | “TOO REAL”

MHD – Os membros dos Fontaines D.C. conheceram-se todos no Liberties College, em torno de uma paixão comum por poesia. Como aconteceu isso exactamente?

Conor Curley – Estávamos todos a frequentar a universidade de música, estávamos todos na mesma turma e começámos a sair juntos, a tornarmo-nos amigos, a ir a bares e daí veio a ideia de começar uma banda. Suponho que estávamos todos no mesmo comprimento de onda, a ouvir música punk nessa altura.

MHD – O que vos fascinava na poesia? Quando a discutiam, sobre que espécie de coisas conversavam?

Suponho que a principal coisa que queríamos era liberdade. Quanto a mim, nunca antes explorara a discussão de poesia. Naquele período da minha vida, quando tinha dezanove anos, trouxe-me um real sentido de liberdade. Conhecemo-nos, antes de tudo, a ler poesia, essa foi a centelha principal. Um dos primeiros livros que alguma vez li foi The Dharma Bums, de Jack Kerouac, e depois On The Road. Penso que era apelativo para nós nessa altura, com sair de casa e ir para Dublin para perseguir uma vida de músico, a ideia dos poetas Beat serem este grupo de personagens que se inspiravam uns aos outros a viajar, do trabalho basear-se nas luzes que nos guiam e nas nossas próprias que reflectimos, esta visão do mundo onde tudo é belo assim como o vemos. A possibilidade de pôr estes sentimentos que temos diante de nós e libertarmo-nos de um mundo onde parece que temos de ir para a faculdade para arranjar um trabalho, ganhar dinheiro para viver. Por isso havia este sentimento de liberdade que vinha de ler livros como Howl, de Allen Ginsberg, que foi muito importante para mim e para os rapazes. Só a ideia de olhar para o resto do mundo e ter esta grande visão: “Estas são as coisas que estão erradas, mas nós, como jovens pensadores e jovens músicos, podíamos tentar mudá-las através da nossa música”.

MHD – Para além de Joyce e Yeats, ouvi-vos mencionar alguns grandes escritores Americanos da modernidade, como Walt Whitman ou, precisamente, a Beat Generation. O que vos atrai nesses escritores em particular?

Walt Whitman é obviamente um mestre e o seu estilo de escrita foi para nós uma influência. Suponho que ele é mais deliberado, a sua poesia bem mais bela assim como se lê e, sempre que estávamos em digressão pela América, lia lá muito do seu trabalho, parecia o fundo perfeito para o seu estilo de escrita. Mas depois, suponho que todos nós passámos a ler outros poetas que reflectiam talvez bastante mais o nosso próprio ponto de vista. Tentámos procurar coisas que não poderíamos tirar da poesia Beat. Eu, em particular, comecei a ler muito Patrick Kavanagh, porque muitos dos seus poemas iniciais retratam o lugar onde cresci na Irlanda, em Monaghan. São descrições grandiosas de uma vida rural muito simples e são também coisas que têm a ver com a minha ascendência, o que me religou como jovem irlandês, já que me parece que muita gente na Irlanda hoje não tem uma relação com isso porque a modernização e a gentrificação da nossa cultura tornaram, de certo modo, falso pensar sobre a nossa tradição.

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MHD – Quanto à relação que os Fontaines D.C. estabelecem entre a música e a cidade, tem o tipo de sons musicais para os quais tendem alguma coisa a ver com a paisagem urbana de que tanto falam?

Julgo que essa é uma ideia muito interessante e que subjaz seguramente a certas canções, como “Hurricane Laughter”, onde há esta sensação de guitarras histéricas, semelhantes a tráfico em hora de ponta, e do nosso ponto de vista a ser puxado numa data de direcções diferentes, o que é realmente belo quando se mistura com uma letra muito precisa e focada, porque é desorientador por uns momentos, antes de se focar num outro ponto de vista. Coisas deste género na composição é algo que procuramos desenvolver constantemente, e sempre que se tenta entrar nesses quadros mentais, isso é, quando se arranja música e se juntam os dois universos do trabalho instrumental e da letra, torna-se incrivelmente vasto e modulado. Para além disso, somos cinco pessoas. Dogrel baseia-se assim tanto na paisagem urbana porque era aí que nos encontrávamos todos, era o nosso terreno comum, dado que era aí que vivíamos, e o Liberties é em Dublin, por isso digamos que era a nossa tela vazia no cavalete.

MHD – Qual a vossa opinião sobre Dublin, porque o retrato da cidade que transparece da música e entrevistas dos Fontaines D.C. é ambivalente. O que gostam nela e o que vos desgosta?

Suponho que todos olhamos para Dublin de diferentes perspectivas consoante a situação. Naturalmente, se alguém nos perguntar acerca da nossa definição de Dublin, podemos olhar pela lente do que está mal – a crise de imobiliário e todas essas coisas – mas há também uma herança que trazemos. Há um elemento tão romântico na cidade. Todos nós passámos lá os melhores tempos da nossa entrada na vida adulta, vive nas nossas células, nas várias ruelas e arcos, sentados na margem do Liffey a beber. Para nós como pessoas, como sonhadores, essa espécie de experiências é o que realmente queremos reflectir na nossa música, porque se não o reflectíssemos na nossa música estaríamos perdidos, dispersos por coisas como as redes sociais. É o tipo de geração mais recente em que as pessoas já não têm memórias.

FONTAINES D.C. | “DUBLIN CITY SKY” AO VIVO

MHD – É claro que vocês canalizam uma série de influências diferentes. É normal classificarem os Fontaines D.C. como uma banda de pós-punk, mas sei que não gostam do rótulo. Porquê?

Quando se começa a fazer música o pior inimigo é ficar preso no como se irá soar, o que pensarão as pessoas, o que perceberão ao embaterem nisto. Pode-nos impedir de nos deixarmos ir e não nos preocuparmos demasiado com permitir que o centro seja um sentimento autêntico. Não me importo com o termo pós-punk para quem ouve a música, para DJs da rádio se estão a falar sobre nós, dizendo que somos uma banda pós-punk, que somos como os Idles. Percebo, é o que é, porque isso são eles a fazer o seu trabalho, estão a tentar que as pessoas que ouvem uma banda ouçam outra e, desse ponto de vista, essa espécie de categoria geral é importante.

Só não olhamos é para isso como artistas ou músicos, porque se nos tentam pôr numa caixa e começamos a pensar “ah, somos uma banda pós-punk”, a nossa composição vai mudar necessariamente. Se, sempre que entramos no espaço de ensaio, levarmos todas essas coisas que as pessoas estão a dizer sobre nós, estaremos a compor música para outros que não nós. É por isso que não gostamos do rótulo, porque nos vai atirar para um “oh, queremos o próximo álbum punk destes tipos no ano que vem”, para nos fazer encaixar nesta categoria, e nós queremos falar dele na base do “é assim que é”. É por isso que rejeitamos o rótulo e temos canções como “Roy’s Tune” e “Dublin’s Sky” no Dogrel. Para nós, não há barreiras. Podíamos sair agora e ter um álbum talvez com mais do mesmo, mais do tipo de sons energéticos e distorcidos, mas também ter uma canção com arranjos de cordas e seguir a direito por essa rota porque não deixámos que nos encaixassem nisso.

MHD – Não quer dizer que concorde com isso. De facto, quando ouço o Dogrel, a impressão que tenho não é tanto que esses sons estejam a dizer quem vocês são, quanto que vocês estão a usar esses sons para dizer quem são.

O modo como agora compomos é servir a canção, seja uma canção do Grian, minha ou do Deegan. Independentemente de quem escreva a canção, estamos ao serviço desse som, não deixamos a banda ditar como soará. Funcionamos como cinco compositores a determinar qual a melhor maneira de a canção soar, e por isso é que resulta tão ecléctico. Podíamos ter colocado uma batida acelerada na “Roy’s Tune”, mas estaríamos a prejudicar a canção, porque percebemos que as emoções que a letra tenta exprimir soariam melhor se acalmássemos um pouco, se a tornássemos mais solta e mais uma balada.

DOGREL | “ROY’S TUNE”

MHD – Sei que escreveste a letra da “Roy’s Tune”. Sentes que, pessoalmente para ti, não há um lugar na Dublin de hoje em dia?

Em última instância, havia nessa personagem muito de quem eu era nessa altura, porque estava a trabalhar em Dublin, onde me poria a pensar que “é, não parece haver qualquer futuro na cidade para o tipo de pessoa a trabalhar e a viver do salário mínimo”, parece que não vai mais existir, já não há lugar nenhum onde viver por um bom preço. A ideia de não haver para nós futuro algum num certo sítio pode ser uma coisa mesmo triste mas também uma coisa muito positiva. Se aceitarmos que não vai haver qualquer futuro para nós num determinado lugar, isso também nos dá a liberdade de andarmos em frente e ir para outro sítio. A ideia de que não há um futuro não tem de ser uma coisa nociva, triste, também pode ser positiva.

MHD – Dirias que a música dos Fontaines D.C. é política e, se sim, em que sentido?

Penso que, como indivíduos, não andamos a procurar dar às pessoas esta grande explicação de por que razão deveriam acreditar numa certa visão polícia. Pessoas postas à frente da multidão, a dizer como as coisas são, é o uso errado da plataforma da música, não se deve ser tão autoritário. A maneira como o abordamos na nossa música é mais através de personagens. Não vem de nós como pessoas, não é o nosso mantra, apenas a maneira como alguém poderia ver as coisas, por isso penso que, ao mostrarmos às pessoas estes diferentes lamentos e estas diferentes personagens, elas podem depois formar a sua opinião com base nisso. Não é tanto nós literalmente ali com as nossas ideias, porque temos 24 anos, talvez 23 quando acabámos o álbum, não me parece que estejamos na posição de nos pormos ali a dizer às pessoas como as coisas são.

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MHD – Agora que o Dogrel está cá fora e por aí, quão próximos ou distanciados dele se sentem? Como é ter qualquer coisa de vosso a existir fora de vocês?

É estranho. A um nível pessoal e artístico, nunca me senti tão distanciado dele porque é o que o tempo faz. A minha vida agora é completamente diferente de quando estava a trabalhar nesse álbum, por isso emocionalmente e artisticamente, sinto-me a milhas dele. Mas, ao mesmo tempo, toco essas canções praticamente todos os dias, por isso a minha ligação a elas é bastante mais física. Imagino os concertos que damos, as multidões fantásticas que vimos, sempre que ouço “Boys In a Better Land”, e esse é o sentimento mais intenso que tenho relativamente a ele nesta altura. Ainda assim, é bom agora que, uma vez lançado, as emoções que queríamos transmitir estejam à disposição das pessoas, para serem descobertas onde quer que seja. E essa é a coisa bela de andar em digressão, ir a um sítio qualquer como o Kansas, na América, e um tipo dizer que ouviu falar de nós e foi comprar o álbum. Esse género de coisas é incrível, e estou contente que à nossa música tenha sido dada a oportunidade de viajar para tão longe de onde foi feita.

MHD – Sei que já estão a trabalhar no próximo álbum. Para quando o podemos esperar?

Temos tentado fazer o nosso melhor, durante a última digressão. Temos uma colecção de ideias, mas não está ainda nada composto. Temos talvez uma canção quase terminada. Mas é quase certo que deverá ser feito durante o verão, vamo-nos tentar isolar o mais possível e montar o segundo álbum.

FONTAINES D.C. | “THE LOTTS” AO VIVO

(The interview’s original text is on the following page)

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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