LEFFEST’16 | El Futuro Perfecto, em análise

Partindo da aprendizagem do castelhano, a cineasta Nele Wohlatz construiu, em El Futuro Perfecto, um criativo retrato da experiência de uma imigrante chinesa na Argentina. 

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A natureza do cinema enquanto linguagem é um conceito que tem sido explorado pela teoria cinematográfica quase que desde sua génese ainda nas primeiras décadas do século XX. Durante os desenvolvimentos mais tardios durante as décadas de 50, 60 e 70 a base linguística tornou-se ainda mais importante no desenvolvimento de teoria académica sobre cinema. Os teóricos que seguiam esta corrente de pensamento viam (e veem) o cinema como uma estrutura que constrói relações de elementos que dão origem a significados específicos. Do abstrato chegamos ao significado concreto. Apesar do impacto destas teorias no mundo académico e estudioso de cinema, a crítica desta arte tem vindo a separar-se dessas ideias, primando, de modo geral, uma visão da sétima arte em que esta serve para capturar algo real, para registar significados e não criá-los a partir dos seus mecanismos.

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Estranhamente, é raro o filme que alguma vez se propôs a evidenciar ou trabalhar essa componente linguística do cinema. El Futuro Perfecto de Nele Wohlatz é um desses projetos. A cineasta de origem alemã, mas naturalizada na Argentina, pega na experiência da imigração e da aprendizagem de uma nova língua como ponto de partida, usando os ritmos, a estrutura e as ferramentas do ensino e entendimento do castelhano como força motriz para a construção de todo o seu filme.

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Todo este palavreado académico e apelo à teoria cinematográfica podem dar uma ideia que El Futuro Perfecto é uma obra de inescrutável intelectualidade – isso não poderia estar mas longe da verdade. É certo, que as ideias subjacentes à construção deste filme são complexas, mas a sua forma final é sublime na sua simplicidade. De forma sumária, esta é a história de Xiaobin, uma adolescente chinesa que vai viver com a sua família na Argentina. Ela não sabe castelhano e, por isso, não consegue mante um emprego na mercearia dos tios. Às escondidas dos seus pais, ela começa a ter aulas de castelhano e depressa consegue arranjar outro emprego, onde conhece um jovem de origem indiana. Eles começam a namorar e ele acaba por pedi-la em casamento, algo que vai contra os desejos dos pais dela que querem combinar um casamento entre a filha e um rapaz de origem chinesa. Nesta encruzilhada, Xiaobin tem de decidir o que vai fazer da vida.

É na apresentação deste enredo simples que Wohlatz mostra a sua surpreendente segurança e criatividade, procurando um registo extremamente artificial onde o minimalismo se impõe a qualquer noção de “real”. As interações humanas são tão depuradas como os guiões que Xiaobin está sempre a ler e “atuar” nas suas aulas de castelhano. Essas aulas, na verdade, são uma constante por todo o curto filme (tem apenas 65 minutos) e tanto comentam como parecem influenciar a ação. Essa meta-textualidade estende-se por todo o filme, chegando ao seu brincalhão píncaro numa cena em que temos a presença de um ator argentino que admite que é um ator a fingir, saber falar mandarim no seu diálogo. Ele é a personificação do artifício que origina o real, do mecanismo de padrões e associações que a linguagem usa para tornar o abstrato no concreto. Normalmente pensamos no cinema ao contrário, como já estabelecemos acima, mas aqui é a partir do choro de ator, que ele ensina aos seus colegas, que floresce a verdadeira angústia de Xiaobin. As lágrimas da protagonista podem ser “fabricadas”, mas quando a vemos chorar esse impacto emocional é “real” – do exercício de ator, do artifício, temos o significado, neste caso o desespero da jovem face à encruzilhada em que se encontra.

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Os últimos 15 minutos de El Futuro Perfecto desenvolvem ainda mais esta bizarra estruturação fílmica. Quando Xiaobin aprende o “condicional” na aula, de repente abrem-se novas portas linguísticas e existenciais. O condicional implica a criação de condições e alternativas na construção frásica, possibilitando a conjetura – a ficção como meio do pensamento e da língua. Assim, durante um exercício em que a professora lhe faz perguntas, no condicional, sobre a sua vida, Xiaobin vai criando possíveis conclusões para a sua história. Cada uma das alternativas parece mais ridícula e telenovelística que a outra, mas há uma potente sinceridade em toda esta brincadeira.

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A “última alternativa” que Xiaobin extrai destas perguntas é um final feliz. Como que por magia, a introdução linguística do “se” despoletou o aparecimento de esperança, “se eu fizer isto, posso ser feliz”. Nesses instantes, o título do filme ganha dois significados distintos – um deles é o significado gramatical do tempo verbal e o significado corriqueiro e mais literal – um futuro perfeito, um futuro feliz, um final feliz. É claro que se deve mencionar que essa possibilidade não é a nota final deste maravilhoso filme. Antes de dar por terminada a sua delicada construção fílmica, Wohlatz ainda tem um truque na manga. Com um jogo de caça e um gato ingénuo, a cineasta pontua o final de El Futuro Perfecto com mais um momento de brincadeira, tornando num fenómeno material os conceitos de cinema que ela inverte neste projeto. É uma delícia e serve de cereja no topo deste bolo de cinema, que apesar de uma enorme densidade de ideias consegue ser airoso e leve como uma brisa de verão ou uma ligeira sobremesa.

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O MELHOR: Todo o argumento e uso da língua como base para a construção de uma narrativa. Não a língua no sentido de literatura ou escrita, mas sim as estruturas de significados que estão no âmago da construção linguística.

O PIOR: El Futuro Perfecto é um exemplo de como se faz cinema com escassos recursos, usando atores não profissionais a partir de um registo estilizado de economia de gesto expressão e um ênfase na estrutura e no argumento. No entanto, não há criatividade estrutural que salve o filme de uma fotografia demasiado acinzentada e enfadonha. Por vezes, parece que os próprios atores são zombies, tal é a falta de cor na sua tez.


 

Título Original: El Futuro Perfecto
Realizador:  Nele Wohlatz
Elenco: Zhang Xiaobin , Saroj Kumar Malik , Jiang Mian , Wang Dong Xi
LEFFEST | Drama, Comédia, Romance | 2016 | 65 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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