Festival de Locarno | Gorge coeur ventre, em análise

Em Gorge coeur ventre um matadouro é apresentado como uma infernal catedral de morte e é explorada a relação de poder e proximidade entre o Homem e o Animal.

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Gorge coeur ventre, a primeira longa-metragem de Maud Alpi e um dos filmes premiados no Festival de Locarno deste ano, inicia-se de um modo assombroso e simples. Um plano estático revela-nos o espaço onde a maior parte do filme vai decorrer, um ambiente industrial iluminado por uma doentia luz amarelada proveniente de lâmpadas de halogénio – estamos num matadouro. Pelo meio desta fábrica de morte aparentemente vazia, anda um cão. A câmara segue-o, quase em que em distante perseguição. Lentamente vai-se aproximando do animal e baixa-se ao seu nível, em seguimento da linha do seu próprio olhar. Eventualmente ouvimos uma voz humana. Estamos num espaço onde a relação entre homem e animal é uma de controlo absoluto e aniquilação dos mais fracos pelos mais fortes, mas entre este rapaz e o seu cão parece haver gentileza. A incongruência do espaço e a sensibilidade desta relação central vai continuar por todo o filme.

O cão chama-se Boston, mas o seu dono nunca tem direito a receber um nome. Isso não se trata de uma tentativa de humanizar o animal pois algo é claro neste projeto – os animais são animais e não uma metáfora para o ser humano ou personagens forçadas. Todo o filme é, aliás, uma exploração da relação de poder entre Homem e Animal. Também é um estudo sobre as nossas proximidades a esses animais. Nós podemos ser racionais, mas, tal como as bestas que criamos, matamos e ingerimos, somos animais vivos, com a capacidade de sofrer, ter medo e morrer.

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Essa capacidade para o sofrimento é fortemente salientada pela construção de todo o Gorge coeur ventre. A proximidade da câmara e seguimento da perspetiva do animal não é algo exclusivamente aplicado ao protagonista canino. Na verdade, depois desse início já descrito, temos 15 minutos de cinema quase documental, onde a câmara de Alpin observa o percurso tortuoso das vacas dentro do matadouro. Raramente este espetáculo de agonia foi visto com tal intensidade visceral no cinema. Não existe aqui nenhuma distanciação clínica, mas sim uma impetuosa vontade de capturar a experiência aterradora destes bovinos e o horror sentido pelos trabalhadores que todos os dias têm de enfrentar este cortejo mortal. Quando a câmara mergulha dentro dos apertados corredores de metal que conduzem as vacas ao seu fatídico destino, os animais olham para a lente em aflição e uma parede sonora de gritos, chiados metálicos e gemidos se abate sobre a audiência – é impossível ficar indiferente. A possibilidade do cinema como máquina de empatia é assim manipulada e esticada ao seu extremo pela ousadia desta cineasta jovem.

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O discurso de Alpi e sua construção imagética não busca comparações históricas, mas é difícil não olhar para estes pesadelos noturnos (todas as cenas do matadouro se passam à noite com uma gloriosa exceção) e neles ver o fantasma de outro tipo de matança pela mão humana. Com a paleta cromática rica em amarelos doentes e castanhos lamacentos, assim como a expressiva e infernal sonoplastia, parece que estamos a ver uma versão zoológica de Saul fia do ano passado. Um instante em que vacas frenéticas defecam enquanto um trabalhador lhes grita e as tenta direcionar, recorda um momento da execução do criminoso em Não Matarás de Kieslowki – o Holocausto, a pena de morte e o quotidiano de um matadouro.

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Esse tipo de comparações são difíceis de evitar mas não significam que este seja um filme de radicalismos em que o genocídio da 2ª Guerra Mundial seja de semelhante valor ao consumo de carne animal. Alpi é uma realizadora demasiado inteligente para tais extremismos alienantes e a sua observação minuciosa nunca beatifica os animais ou vilifica os humanos. Quanto muito, ela aponta o dedo à ignorância deliberada de uma sociedade de consumo que prefere não saber como o seu alimento é criado e depois vê este tipo de imagens e rapidamente olha com horror para as pessoas que passam a sua vida neste ambiente. O protagonista humano está claramente horrorizado pelo inferno que vive todas as noites, mas necessita do emprego. Ele apenas deseja que um dia se crie alguma espécie de animal que não grite tanto, que não o torture tanto nos seus momentos finais. Olhemos para a cena horrenda em que uma vaca entra em trabalho de parto – uma visão concetualmente bela, mas grotesca na prática – e é morta pelo rapaz num gesto de peculiar piedade. O sofrimento é comum entre os dois intervenientes, o rapaz e o animal, mas não há recriminação. Ele tenta justificar as suas ações ao cão que está perto, mas o animal nada lhe responde. Só os humanos precisam dessas racionalizações e sofrem por elas.

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A partir de serenos interlúdios fora do matadouro em que o cão e seu dono estão em feliz comunhão, em que a luz do sol tudo cobre com uma cálida brancura, e onde o sofrimento é esquecido, Alpi contextualiza o seu filme fora de quaisquer filosofias New Age sobre o Homem e a Natureza. No final de Gorge coeur ventre, o filme pede piedade e lamentação pelos humanos e não pelos animais. Afinal, a nossa condição como espécie dominante apenas nos parece trazer dor quando despoleta a nossa reflexão, e, quando já tivermos trazido a nossa própria destruição, a Natureza vai continuar a persistir nas ruínas de um mundo esquecido. A realidade não é bela, o mundo natural não é idílico e o Homem não é perfeito – verdades cruas e duras que este filme transmite a partir de um espetáculo visceral cheio de virtuosismo cinematográfico e uma coragem estilística incomum para uma realizadora na sua longa-metragem de estreia.

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O MELHOR: Se houvesse justiça na Awards Season, a fotografia de Jonathan Ricquebourg e a sonoplastia de Philippe Deschamps já seriam os favoritos aos seus respetivos Óscares. Mas, como Gorge coeur ventre tanto nos lembra, não vivemos nesse tipo de mundo idealizado.

O PIOR: Depois de um filme magistralmente construído, os últimos minutos do filme são um doloroso passo em falso. Não é que o epílogo reminiscente de Tarkovsky não seja belo, mas o uso de uma canção de Leonard Cohen verbaliza de modo demasiado óbvio os temas do filme.


 

Título Original: Gorge coeur ventre
Realizador:  Maud Alpi
Elenco: Boston , Virgile Hanrot , Dimitri Buchenet
Festival Scope | Drama, Documentário | 2016 | 82 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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