Great Grandpa (foto de West Smith)

Great Grandpa à MHD | “Queria capturar um ciclo, um único hertz”

Falámos com os Great Grandpa sobre esta época de quarentena e o seu fantástico Four of Arrows. Pela conversa, suspeitamos que o próximo álbum será ainda melhor.

Nem tudo são desvantagens e estes tempos de confinamento sempre tiveram a virtude de tornar habituais as videoconferências. O mundo tornou-se mais global ainda, unido numa mesma experiência de prova e num único meio de comunicação, o zoom. Todos conhecem as salas de toda a gente e toda a gente sabe o que cada um lê. A paisagem tornou-se bastante uniforme, vista pelo ecrã do computador, e Seattle passou a estar à mesma distância que as casas dos meus alunos em Lisboa. Alguns passos até à secretária e oito horas de diferença, foi tudo o que me separou de Pat e Carrie Goodwin, os principais compositores da banda Great Grandpa, cujo álbum adorámos e cuja simpatia testemunhámos numa longa e informal conversa. Que, como não podia deixar de ser, começou por uma troca de ideias sobre estes tempos tão extraordinários.

Four of Arrows, editado pela Double Double Whammy, foi uma das nossas preferências do ano passado e, cheios de pena que nem todos se tivessem apercebido do valor deste álbum saído de uma das cenas locais americanas, quisemos fazer tudo ao nosso alcance para o dar a conhecer e à banda que o concebeu. Por sorte, pudemos falar com o casal no centro da banda e verificar uma vez mais, agora em primeira pessoa, a bondade e delicadeza de alma que transpiram por todos os poros da sua música. Não chegámos a ver as estantes, mas podemos afiançar que abundam em Philip K. Dick e Kazuo Ishiguro. E, a julgar pelo vocabulário e preocupações, não me admiraria se houvesse alguma filosofia pelo meio.

Apesar das referências (e porque não por causa delas?), a conversa não podia ter sido mais pessoal e terra a terra. No final, mais do que uma entrevista profissional foi um verdadeiro encontro o que aconteceu entre nós, um daqueles momentos de humanidade que fazem do nosso mundo um lugar melhor. Para o futuro fica a promessa de um terceiro álbum que, sem deixar para trás a deliberada imersão na emotividade pop, será mais experimental ainda, um vaticínio entusiasmante para quem traz na memória aqueles detalhes de pós-rock e math-rock que fazem de Four of Arrows uma audição tão gratificante.

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MHD – Estava agora mesmo a dizer à Carrie que, como sou professora, estou muito habituada ao zoom.

Pat – Todos temos o ensino por profissão agora.

Carrie – Sou enfermeira, por isso nunca o uso. A minha mãe é directora de liceu. Tenho andado a visitar os meus pais e ela tem estado constantemente em chamadas por zoom, a tentar perceber o que fazer. Tem sido muito difícil para os professores e toda a gente.

MHD – Vocês os dois estão de volta a Seattle, ou ainda em Milwaukee?

Carrie – Terminei a universidade em Dezembro e o Pat e eu regressámos. Estamos em lugares diferentes agora, porque apanhei mononucleose e estou em casa dos meus pais para me tratar. Por isso, só por esta semana, mudei-me para casa dos meus pais e o Pat está no nosso apartamento em Seattle.

MHD – Carrie, és enfermeira. Tens passado muito tempo no hospital, a lidar com doentes de Covid? Sei que as coisas não têm estado fáceis em Seattle.

Carrie – Tenho estado a trabalhar, sim. É um tempo muito interessante para começar como enfermeira. Comecei em Janeiro. Trabalho na sala de emergência, em South Seattle. Trabalhei ali até há duas semanas atrás, altura em que apanhei mononucleose. Tenho de ficar em casa até estar recuperada, por isso consegui uma pequena pausa. Mas tem sido uma boa oportunidade de aprendizagem estar na enfermaria durante isto tudo. É interessante estar na sala de emergências porque não sabemos quem tem e quem não tem. Leva horas e horas até termos de volta os resultados dos testes (antes eram dias até os termos). As pessoas entram, estão com sintomas – a ter dificuldades em respirar, a tossir muito – e eu estou ali com elas. Vi pessoas extremamente doentes, que têm de ser internadas na unidade de cuidados intensivos e postas num ventilador. E vi pessoas sem quaisquer sintomas, que vêm fazer o teste porque o irmão tem Covid. Vi o espectro todo. Sinto-me muito feliz por termos conseguido abrandar um pouco a coisa, pelo que o hospital não tem estado sobrecarregado.

MHD – Estamos agora a abrandar o confinamento, aqui em Portugal, mas nem toda a gente o está a fazer com o cuidado que devia.

Carrie – O nosso governador em Washington tem sido bastante prudente numa série de coisas, o que é bom. Vimos o que aconteceu em Itália, e tentámos fazer a quarentena para abater a curva. Por causa disso, não temos visto um grande aumento dos contágios, pelo que está a funcionar, mas as pessoas não entendem o que poderia ter acontecido. Esse é o paradoxo de estar preparado e nunca ter realmente de o enfrentar. Muita gente não conhece ninguém que tenha corona vírus. Nunca viram quão mau pode ser. Tenho de me lembrar disso, porque vejo-o a toda a hora.

MHD – Como têm estado a lidar com o confinamento, com todos os concertos a serem cancelados, tendo de ficar em casa? Que tipo de trabalho têm estado a fazer, como têm passado o vosso tempo?

Pat – Não há dúvida que trouxe um problema a todos os nossos planos para esta Primavera. Obviamente, toda a nossa digressão foi cancelada. Inicialmente, quando isto aconteceu, decidimos que aproveitaríamos o tempo para compor. Não temos conseguido ensaiar ou gravar, mas julgo que todos temos usado este momento para reflectir e trabalhar cada um no seu ofício. A Carrie e eu temos tentado escrever e sei que os outros também têm estado a fazer as suas coisas. A música não parece ser uma grande prioridade, nestes dias. Há outras coisas que são bem mais importantes, como tomar conta do resto dos nossos semelhantes não saindo à rua para dar concertos ou outras coisas que parecem ligeiramente insignificantes no mundo de hoje em dia.

Não sei o que futuro nos guarda, na música ao vivo em geral. Quem sabe quanto tempo levará até se tornar outra vez uma coisa normal? Julgo que todos estamos felizes por continuar a compor e, quem sabe, conseguir gravar e lançar música. Talvez fazê-lo mais ao vivo, do tipo concertos online. Vi muita gente fazer isso e é interessante. Claro que não se consegue a mesma energia que tem o volume de um concerto mas sempre é alguma coisa, é uma maneira de interagir com os fãs. Para mim, pessoalmente, a música teve sempre mais a ver com o processo de gravação, gravar discos é a minha parte preferida. Por isso, se nunca mais houver música ao vivo, é uma chatice, mas desde que possamos continuar a fazer música, pessoalmente, ficarei contente. Não posso falar por todos, mas sempre é um contributo.

Carrie – O Pat e eu temos muita sorte em ter trabalhos fora da indústria musical, por isso fomos financeiramente menos afectados por tudo o que está a acontecer. E o resto dos membros da banda têm também outras profissões, estando em regime de layoff ou ainda a trabalhar. Por isso temos tido mesmo sorte, porque sei de muitas bandas para quem esta é a sua única fonte de rendimento, para quem, por isso, a digressão é muito importante. Para nós era, acima de tudo, onde colocávamos todo o merchandising. E agora temos todo este merchandising na nossa loja e esperamos que as pessoas o comprem online! E ainda temos o cheque da banda, que recebemos todos os meses. Não sei quando será a próxima vez que daremos um concerto, mas temos pessoalmente muita sorte por conseguir ainda pagar a nossa renda e fazer todas as coisas de que precisamos.

GREAT GRANDPA | “DARK GREEN WATER” AO VIVO

MHD – Four of Arrows foi um nome que escolheram porque a carta significa tirar tempo para reflectir e meditar. Um tempo como este pede isso, um tempo para parar e pensar. Tem sido assim para vocês?

Pat – Carrie, queres responder a esta? Também o posso fazer, mas se tiveres algumas ideias sobre isto, avança.

Carrie – Estava a pensar que era mesmo uma boa pergunta e uma observação pertinente, na qual até agora ainda não tinha pensado. Four of Arrows foi escrito logo depois e enquanto vivíamos em Milwaukee. Foi uma mudança muito grande para nós, tal como agora estamos também noutra grande mudança, voltando para Seattle. Começámos ambos novos trabalhos, para mim todo um novo campo e para o Pat um tipo de trabalho muito diferente do que fazia antes. E com todo este acontecimento do vírus tornou-se uma mudança ainda maior do que alguma vez antecipámos. Temos procurado, muito deliberadamente, tirar tempo para ter a certeza de que estamos a cuidar de nós e a tentar processar tudo o que nos tem acontecido. Especialmente agora que os nossos planos para o futuro foram suspensos, o que mais há para fazer senão pensar? Este tempo está a trazer uma data de novas experiências para processar e processar talvez por meio da música.

Pat – Concordo com tudo o que a Carrie disse. Acho que este é um tempo para reflectir, também numa perspectiva geral, um exercício que muitas vezes acaba por ser realizado apenas de maneira especulativa. Não se trata de coisas com as quais não se tenha estado em contacto por meio do voto ou activismo. Nenhuma destas coisas era desconhecida mas tornaram-se mais evidentes por meio disto. Há muita reflexão a acontecer sobre como mudarmos como país e tomarmos conta uns dos outros. Isto só trouxe ao de cima quão pobremente uma larga parte da nossa população é tratada, com uma falta de acesso a recursos. É certamente alarmante, uma espécie de grito de alerta. Pelo menos, para muitos é, embora também haja seguramente muita gente que não veja a coisa assim, infelizmente. Mas esperamos que uma coisa positiva a retirar disto tudo seja o despertar de muita gente para o facto de “oh, é verdade, não faz muito sentido que o cheque de desemprego das pessoas, que serve supostamente para cobrir as suas necessidades humanas mais básicas, seja mais do que aquilo que obteriam a trabalhar a tempo inteiro, a ganhar o salário mínimo”.

Este é apenas um exemplo de uma das muitas coisas expostas por meio disto. Pessoalmente, tenho pensado muito nisto e em para onde vamos a partir daqui, o que acontecerá a seguir? Há muita especulação e questionamento sobre o que acontecerá a seguir. Isto afecta toda a gente a um nível pessoal também. É um tanto ou quanto difícil porque, por um lado, não queremos estar constantemente a pensar “oh, coitado de mim, não posso sair, ver os meus amigos ou fazer as coisas que quero”, mas por outro lado não deixa de ser um sentimento bem real, toda a gente sente isto. Por isso é difícil balancear, pesar estas coisas, as nossas vidas pessoais contra um quadro geral bem mais lato a acontecer, sobre o qual é importante também reflectir. Por isso, sim, muita reflexão por todo o lado!

MHD – Avançando agora para o álbum, uma coisa de que gosto muito nele é a fusão de fórmula pop com substância art-rock, como torce e ajusta a fórmula. Descubro que é um grower mas ao contrário. Geralmente growers são difíceis ao início mas, depois de ouvidos várias vezes, crescem e acabamos por apreciá-los. Mas, no caso de Four of Arrows, é fácil gostar dele imediatamente. No entanto, quanto mais se o ouve, mais único e estranho fica. Faz-vos sentido isto? Porque julgam que acontece?

Pat – Antes de mais, obrigado, esse é um franco elogio. Julgo que se trata sempre de algo ao qual aspirar. É muito lisonjeiro que sintam que alcançámos isso. Acredito que era qualquer coisa de que estávamos conscientes durante a composição e que apela aos nossos gostos como grupo. Todos nós estamos firmemente ancorados na clássica tradição pop americana e nas suas melodias acessíveis, aquela tradição folk de ter alguma coisa que possa ser facilmente cantada e lembrada. Mas também temos todos um gosto por música experimental, jazz clássico, outros géneros que têm menos a ver com a acessibilidade e a melodia, nesse sentido. Há sempre o desejo de trabalhar nessa fronteira e é uma coisa com que lutámos como banda.

Quando começámos, porque muitos de nós viemos do lado extremo do espectro, estávamos a tentar criar música mais complexa e artística. Depois, o começo dos Great Grandpa foi uma reacção a isso. Fomos na direcção contrária, tentando basicamente fazer uma coisa o mais acessível possível. Bom, não devia dizer isso, não estávamos propriamente a fazer pop de rádio. Ainda assim, estávamos a tentar focar-nos na acessibilidade e universalidade. No entanto, avançando para o Four of Arrows, houve um esforço consciente em tentar trazer de volta algumas dessas raízes, pensando que talvez tivéssemos ido longe demais num sentido. Queríamos trazer de volta esse equilíbrio de fundir a simplicidade com a complexidade. Talvez no próximo álbum prossigamos mais ainda neste outro sentido, tendo menos acessibilidade, mais estranheza. Porque é apenas uma questão de tentar sempre fazer alguma coisa diferente e nova. Se fizéssemos a mesma coisa duas vezes, não seria entusiasmante trabalhar nela. Encontra-se o que vem naturalmente e não seja apenas repetir-se a si próprio.

Carrie – Para dar um exemplo específico, não sei se alguma vez ouviram a anterior banda do Pat, chamada Postmadonna? Era a banda em que estava quando nos conhecemos, e é um math-rock experimental de loucos. Tem sido giro ver e ser parte disto tudo, diz muito de quantos géneros diferentes de música o Pat consegue compor e juntar. Deviam ouvir Postmadonna, dar-vos-á uma ideia de quão estranhas as coisas se podem tornar.

GREAT GRANDPA | “ENGLISH GARDEN” AO VIVO

MHD – Há de facto muitas mudanças de andamento e compasso no espaço de uma mesma canção e ao longo de todo o álbum. Parece-nos que estão a usar esta prática em math-rock, misturada com as tendências pop, para criar emoções que são complexas, mas ainda assim muito relacionáveis.

Carrie – Eu gosto muito e cresci ao som de música country, é o meu prazer escondido, especialmente a música country da década de 90. Durante o nosso casamento, tenho vindo a converter lentamente o Pat a apreciar pequenas doses de música country, e gosto de pensar que isso teve alguma influência nas canções mais pop que temos vindo a escrever. Mas suponho que ele pode falar por si mesmo nesse caso.

Pat – O Cam, o Dylan e eu costumávamos tocar em bandas de math-rock. Na realidade, foi assim que nos conhecemos. O Dylan estava numa banda chamada I Kill Giants, uma coisa algures entre o math-rock, o pop e o punk-rock, quando estava na escola em Boston. O Cam e eu andávamos juntos na universidade e ambos tocávamos uma data de música juntos. Por muito tempo, estivemos também em diversas bandas de math-rock. Por isso, logo que nos tornámos amigos, começámos a partilhar o nosso gosto por esse género, juntando-nos no dormitório a ouvir uma data de clássicos de math-rock. Havia uma espécie de cena naquele período à volta de 2010. De 2007 a 2011, houve uma revitalização do math-rock (suponho eu, porque também houve nos 90, talvez inícios dos 2000). Houve esta espécie de ressurgimento, uma segunda onda de popularidade do math-rock. Bom, não deveria dizer “popularidade”, porque as palavras “math-rock” e “popularidade” nunca deveriam ser usadas na mesma frase.

É um desses casos típicos em que os que gostam são muito aficcionados. Já não estou realmente envolvido nisso, não ouço tanto dessa música como costumava, mas naquela altura sentia-se que havia uma comunidade muito apaixonada, muito activa no apoio e na amplificação dessa espécie de música. Acho mesmo que perdeu a sua popularidade, mas há sempre gente a tentar dar-lhe uma lufada de ar fresco, a tentar trazê-la à vida, o que é fantástico. Adoraria ver coisas novas e tenho a certeza de que existem. Talvez estejam a voar debaixo do radar agora mesmo e eu é que me deveria esforçar mais para a encontrar.

GREAT GRANDPA | “DIGGER”

MHD – Falemos dos vossos cães. Como se passa de “escavador” (“Digger”) a “escavação existencial”? E que escavação é esta?

Carrie – Tínhamos um cão chamado Obie, e Obie era um cãozinho muito especial. Quando o adquirimos foi-nos dito que era uma mistura de Labrador com Rottweiler, mas era na realidade uma mistura de Pastor Australiano e Cão de Gado. Por isso, era um pequenino cão pastor muito neurótico e escavar era uma coisa que fazia desde cachorro, foi muito difícil treiná-lo para deixar de o fazer. Era tão esperto e facilmente treinável noutros aspectos mas, quando se punha a escavar, ficava com este olhar focado, tão determinado, que parecia que todo um outro estado de ser se apoderava dele. Vimos nisso qualquer coisa de familiar a quando se está a fazer uma coisa que não é de grande ajuda mas que não se consegue, ainda assim, deixar de fazer. O Pat e eu somos ambos pessoas muito dadas à ansiedade, como a maior parte dos músicos, e só me lembrava de nós presos em pensamentos ansiosos, a ruminar em coisas e a escavarem-se a si próprios. Quer dizer, até linguisticamente funciona, no sentido de se meter num buraco do qual é difícil sair. Mas estou certa de que o Pat tem uma data de opiniões sobre isso.

Pat – Acho que explicaste muito bem. Tudo o que a Carrie diz é verdade. É uma metáfora apta para esse exercício quase instintivo e fútil. “Fútil” é uma palavra importante quando se fala disto. Que escavava ele? Não estava a escavar por nenhuma razão em concreto, não havia qualquer objectivo, nada viria dali, não ia descobrir nada, mas caía neste foco fervoroso, quase um transe. Para mim teve sempre a ver com a ideia de estar filosoficamente extenuado, mastigando questões ontológicas e epistemológicas, mesmo coisas sobre a própria vida, a própria existência e significado, andando às voltas e analisando demais, quase criando narrativas.

Sou um grande fã de Philip K. Dick, tenho até uma tatuagem a dizer “VALIS”. Ele é simplesmente um desses autores clássicos. A razão por que tenho a tatuagem e ele significou tanto para mim, quando o descobri pela primeira vez no final do liceu, princípio da faculdade, foi ele ser um dos primeiros autores que descobri que conseguia pôr em palavras o que é pensar demais nas coisas dessa maneira e situar-se nesse quadro mental obsessivo e paranóico. Estava a passar por uma série de conflitos nesse período e qualquer coisa naquilo ressoava em mim. Para mim, a “Digger” foi sempre uma espécie de hino na tradição da “Paranoid Android” e outras canções que exploram este quadro mental de não ser capaz de parar, este comportamento em particular que é, em última instância, quase prejudicial, fútil e absurdo. Continua-se a procurar e a procurar até que, a certo ponto, só se está a revirar terra, não se está a alcançar nenhuma grande revelação. No final, nenhum de nós é capaz de realmente compreender ou conhecer estas coisas, mas há talvez uma linha ténue.

Queria que fosse uma homenagem, não directa mas espiritualmente, a um dos meus livros preferido de Philip K. Dick, “A Transmigração de Timothy Archer”, cuja mensagem geral é a de que esta procura ou indagação espiritual obsessiva é fútil e absurda à excepção de que talvez não seja. Um tipo acaba por morrer por causa desta procura obsessiva mas há este pequeno momento, bem no final, onde há uma possibilidade que fica em aberto, onde é como se “espera um segundo, talvez ele tenha mesmo chegado lá ou alguma coisa importante tenha acontecido”. Está algures naquela linha ténue entre ter tido a percepção racional, partilhada pela maior parte das pessoas, de que nada vai mudar, não vamos chegar a nenhuma grande sabedoria ou conhecimento, e é inútil, e haver este vislumbre de “sim, mas…”. “Digger” é uma espécie de demissão de tudo isso mas deixando em aberto este “na realidade, talvez eu nunca escape a isto”. É assim que todos nos sentimos, todos ainda nos questionamos se haverá alguma espécie de… [vídeo congela e cai].

Carrie – Suponho que seja o fim dele.

MHD – Precisamente no clímax!

Carrie – É mesmo!

GREAT GRANDPA | AO VIVO NA KEXP

MHD – No chat que acompanhou a estreia da vossa performance na KEXP, disseram que têm um novo cão chamado Lenny?

Carrie – Oh, esse é o cão dos pais do Pat. Eles têm Boiadeiros de Berna. Não sei se conhecem esses cães, mas são enormes, muito felpudos e amorosos, e eles tinham um chamado Wilson. Em Seattle, vivemos muito perto dos pais do Pat e somos muito próximos da família dele, pelo que passávamos muito tempo com o Wilson, até ele ter morrido há cerca de um ano atrás. Muitas das letras temporárias das canções dos Great Grandpa começavam com o Wilson, porque era uma personagem muito engraçada acerca da qual escrever. Agora temos o novo pequeno Lenny, que tenho a certeza providenciará…

MHD – Novas metáforas?

Carrie – Isso, exactamente. Embora os Boiadeiros de Berna sejam uns gigantes mansos, não sofrem de muita ansiedade ou neuroses, pelo que teremos de ser criativos. Mas é verdade que adoram regalos (treats), e é daí que veio originalmente a “Treat Jar”.

MHD – O Pat está a regressar, não sei se estará interessado em continuar o clímax….

Carrie – Essa foi uma saída muito dramática.

Pat – [Ri-se] Desculpem, o meu telefone morreu. Aconteceu tão depressa, passou de repente de 4% para 0%.

MHD – Estávamos a dizer que foi mesmo no clímax da resposta.

Carrie – Era a única maneira de o calar, suponho.

Pat – Também me parece, provavelmente ter-me-ia limitado a divagar por mais meia hora.

MHD – Uma canção que me comove muito é a “Split Up the Kids”. Carrie, fiquei com a impressão de que estavas a dizer que a zanga parece tão absurda quando a morte paira sobre tudo, tornando o tempo precioso. Que retiras para ti da história dos teus avós?

Carrie – Só uma breve retoma da história. Espero que se perceba na canção mas como tem de ser poético, alguns dos detalhes ficaram de fora. A mãe do meu pai teve um caso quando ele ainda estava no liceu. Ele era um dos mais velhos da família, mas os meus avós tinham também filhos pequeninos. Acabaram por se divorciar, e os filhos tiveram de escolher com qual dos pais queriam ir, e as raparigas escolheram a minha avó enquanto os rapazes ficaram com o meu avô. Foi extremamente difícil para o meu avô. Sei que lutou à séria por muito tempo, depois de se separarem, e a família nunca mais foi a mesma, porque ele recusou-se, até ao fim da vida, a ficar na mesma sala que ela. Lembro-me que, quando era pequena, não sabia sequer que os meus avôs se conheciam. É claro que percebia que tinham sido casados para ter os filhos, mas nunca os vira juntos, porque, quando tínhamos reuniões de família, a minha avó vinha a uma parte e o meu avô a outra parte – e é o que acontece na canção. Julgo que a minha avó carregava uma grande culpa com ela, e ainda carrega, sobre tudo o que aconteceu. Ela estava mesmo a querer corrigir as coisas, mas ele estava ainda tão magoado que julgo nunca processou realmente a coisa ou foi capaz de a perdoar. Por isso, o final da canção sou eu no enterro, com ela lá e eu a dar-me conta de que era a primeira vez que via os dois juntos na mesma sala.

É que parecia tão doloroso o que fez à família deles e nossa família, a mim. A família está muito dispersa. Quem sabe como teria sido se tivessem ficados juntos, porque sei que eles não tinham um grande casamento, mas só esta coisa do que pode fazer a gerações de pessoas, quão fragmentada a nossa família se tornou e o quanto a zanga e o orgulho não passam, como disseste, de “para quê tudo isto?” Ficámos mesmo tristes que nunca se tivessem reconciliado, e agora não têm a oportunidade de o fazer. Julgo que teria significado muito para a nossa família, teria significado muito para a minha avó. Às vezes a vida não nos dá o final feliz mas tens razão quando dizes que podemos aprender com isso.

MHD – Qualquer coisa na consciência que a canção transmite de tudo isto, em como olhas para as coisas e as transformas em poesia e música que todos podemos ouvir, traz uma espécie de redenção.

Carrie – Gosto de pensar que pode haver alguma esperança nela. Vi a minha avó algumas vezes desde então. Ela ainda fala de quanto lhe pesa tudo o que aconteceu e tenho a esperança de que, ainda que o meu avô já cá não esteja, ela venha a encontrar alguma paz dentro dela, depois de todos estes anos.

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MHD – “Bloom” é uma canção muito ambivalente, tanto ao nível da letra como da sonoridade. Custa “florescer”?

Pat – Sim, absolutamente! Essa foi, sem sombra de dúvida, a intenção da canção. Não apenas no sentido mais tradicional de dores de crescimento. Estava também a escrever sobre as minhas próprias experiências, questões de saúde mental, em termos de altos e baixos, que julgo serem uma experiência muito universal, mesmo para os que não têm doenças mentais, apenas o sentimento das flutuações dos estados de ânimo. Motivação, inspiração e o oposto disso, aquele sentimento de estar bloqueado ou com falta de movimento, depressão, o que se lhe queira chamar. Coisas que acontecem naturalmente de forma cíclica nas nossas vidas, quer por meios exteriores, quer influenciados por coisas exteriores, ou apenas pela biologia interna. Navegar estas ondas, sentindo que se está a progredir ou que as coisas estão melhores e depois vêm os contratempos.

Queria capturar uma onda sinusoidal, queria capturar um ciclo, como um único hertz. Aquele sentimento de que há uma grande ascensão, o sentido de possibilidade e potencial, e depois há sempre o contraponto disso. Sim, essas duas coisas são muitas vezes de certa forma inseparáveis. Quis fazer qualquer coisa de contraintuitivo ou, melhor dizendo, pouco convencional. Sinto que muita música se foca apenas num único estado de espírito – esta canção é sobre o triunfo do espírito humano, ou esta canção é sobre uma pura e autêntica alegria, ou esta canção é sobre uma imensa tragédia ou tristeza. Concordo que destoe e geralmente não funcione muito bem uma única canção ter múltiplas emoções complexas, porque as pessoas gostam de se demorar numa certa emoção durante algum tempo. E é verdade que a “Bloom” resulta numa audição um pouco mais destoante e menos natural do que outras canções por causa disso. Mas o nosso objectivo era que soasse da forma mais contínua possível, e não destoasse incrivelmente ter duas emoções muito diferentes numa única canção. As pessoas não parecem odiá-la, ou dizer que as deixa desconfortáveis, o que talvez queira dizer que funciona junto.

Foi uma espécie de experiência, porque tratavam-se originalmente de duas canções. A coda era de uma outra canção, muito triste, triste o tempo todo. E a secção inicial da “Bloom” era ela própria uma canção, que era só alegre durante todo o tempo. Surgiu de uma forma inorgânica, no sentido em que não estavam originalmente pensadas para estarem juntas e foram apenas postas juntas. A sua criação foi de certo modo artificial, foi por capricho que o fizemos, mas estou tão contente por o termos feito!

GREAT GRANDPA | “MONO NO AWARE”

MHD – “Mono No Aware”, o pathos de todas as coisas, a natureza efémera, impermanente de tudo, é o sentimento no centro do álbum e veio, Pat, das tuas leituras de Kazuo Ishiguro. Quão influente foi para ti e para o álbum o encontro com este autor?

Pat – Muito, sim! Muito influente. Andava a ler uma data de livros dele nesse período, porque tínhamos andado muito em digressões e a Carrie e eu fizémos algumas viagens, pelo que tinha imenso tempo para ler. Assim que li o primeiro, A Pale View of Hills, fiquei agarrado. Julgo que ele é um grande autor e há nele um apelo universal, mas há uma data de grandes autores que não ressoam necessariamente em mim, a um nível pessoal. Mas qualquer coisa na maneira como ele escreve funciona com o meu cérebro, senti-me encantado, mesmerizado. E é engraçado porque não se trata de livros emocionantes, não são de virar as páginas sem parar. Embora o Never Let Me Go tenha alguma coisa disso, acima de tudo têm um ritmo glacial, metódico, são muito pensativos e quietos, muito observadores. Não conseguia fartar-me, pôs-me a pensar sobre a minha vida. Julgo que também estava a atravessar uma fase, a chegar a uma certa idade, a perceber algumas coisas sobre mim, pelo que muitas das coisas de que ele falava pareciam-me muito pertinentes. Foi muito importante para mim e julgo que acabei por usar muita da linguagem que ele usa, pensar sobre muitos dos mesmos temas e aplicar isso a algumas das canções que estávamos a compor. Sou completamente fã do Ishiguro.

Carrie – Um pouco de trivia, também: há uma linha do Ishiguro roubada e posta em “English Garden”. Por isso, os dedos dele estão por todo o álbum.

(The interview’s original text is on the following page)

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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