Histórias de Bairro, em análise

Histórias de Bairro retrata a vida de seis indivíduos num prédio dos arredores de Paris, misturando humor seco com uma boa dose de afável sinceridade.

histórias de bairro

Um dos temas mais predominantes no cinema independente do século XXI tem sido a questão da multiplicidade de vidas humanas interligadas na sociedade atual. Esse tema tem vindo a ganhar forma em narrativas-mosaico em que uma série de histórias se vão entrelaçando, colidindo ou complementando, numa moda pseudo Dickensiana, para construir uma visão representante da complexa coletividade de indivíduos num determinado espaço ou comunidade. Talvez os suprassumos exemplos desta moda sejam os filmes de Guillermo Arriaga e Rodrigo Garcia, mas não se equivoque quem pense que isto é algo exclusivo do cinema da América Latina. Afinal, se lançarmos o nosso olhar para alguns dos mais recentes filmes no circuito dos festivais europeus, lá encontramos várias obras deste estilo.

Histórias de Bairro é a quinta longa-metragem do cineasta e escritor Samuel Benchetrit e é também um desses filmes acima referidos. Aqui, a comunidade sob análise são as pessoas que vivem num complexo de apartamentos de habitação social nos arredores de Paris, especificamente três pares de personagens. Esses duos nunca parecem fazer parte de nenhum grande ecossistema social e, indo ainda mais longe, as suas histórias são tão fortemente afetadas e artificiais que, apesar do cenário, nunca temos qualquer sensação de estarmos a vislumbrar uma realidade humana, mas sim uma ficção que achou por graça utilizar a pobreza urbana como pano de fundo.

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O passado de Benchetrit neste tipo de comunidades e suas palavras sobre o filme parecem negar tal distanciação e sugerir, pelo contrário, que Histórias de Bairro germina de um desejo de representar a essência da vida nesse mundo. Entre as intenções do artista e o que a audiência perceciona há muito que se altera, mas é difícil olhar para as histórias aqui presentes e ver nelas alguma dessa qualidade vivida do cineasta.

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Veja-se a narrativa que abre o filme. Nela, o cabisbaixo habitante de um prédio, Sterkowsky (Gustave Kerner), faz um acordo com os seus vizinhos para não ter de pagar o arranjo do elevador do edifício. Como ele vive no primeiro andar e não tem necessidade de usar esse mecanismo, não paga e não tem permissão para usar o elevador novo. Infelizmente, um acidente, a que se poderá chamar uma overdose de ciclismo, confina Sterkowsky a uma cadeira de rodas e, vendo-se forçado a usar o elevador, ele passa a apenas sair de casa à noite, indo buscar comida às máquinas de venda de um hospital. Nestas suas viagens notívagas, depara-se com uma bela enfermeira (Valeria Bruni Tedeschi) e inventa, de jeito muito pouco convincente, que é um fotógrafo de renome internacional numa exploração para o trabalho. Como estamos no mundo do açucarado artifício, esta relação vai florescendo ao longo do filme.

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No mesmo prédio, e num registo de absurdo ainda maior, uma simpática senhora de origem argelina, Hamilda (Tassadit Mandi), vê-se com um astronauta americana como hóspede. Um erro na missão espacial de John McKenzie (Michael Pitt) fez com que este aterra-se no telhado do edifício do filme e tem de ficar em segredo (porque aparentemente ninguém há de ver o veículo de viagem espacial ou o helicóptero que mais tarde aparece) até que a NASA o possa resgatar sem mostrar os erros que cometeram. O que se segue é o desenvolver de uma amizade quase de mãe e filho entre os dois indivíduos que não entendem os idiomas um do outro. Visto que Hamilda tem o seu filho na cadeia, John acaba por servir de um substituto para o seu amor maternal, o que poderia ser algo bastante comovente se o argumento concedesse à personagem uma reação minimamente humana. Mas não, Hamilda nunca questiona a situação estrambólica em que se encontra e a sua maior preocupação é fazer cuscuz para o novo convidado.

Numa terceira história, encontramos uma atriz que acaba de se mudar para um apartamento no mesmo prédio. Apesar de Jeanne (Isabelle Huppert) repetidamente insistir que isto é apenas uma situação transitória, existe sempre a inquietante possibilidade que ela está mentir a si mesma, tanto quanto ao seu vizinho, um jovem que vive com uma mãe sempre ausente. Tal como acontece entre os outros pares, a relação entre Jeanne e Charly (Jules Benchetrit) vai-se desenvolvendo numa peculiar cumplicidade. A um certo ponto, é o adolescente que convence a atriz de meia-idade, que ainda estava a tentar interpretar papéis de personagens com quinze anos, a gravar uma audição para um bom papel de uma personagem em idade mais avançada.

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Não há nada de novo neste terceiro conto, mas há sim uma certa inefável qualidade que eleva esta secção do filme em relação às outras. É possível que isso se deva ao modo como, de todas as relações, esta é a mais incerta e indefinida. Se nas outras temos algo de romântico ou maternal, aqui há uma fascinação mútua e uma franqueza que parece surpreender ambos os indivíduos. Pode ser, também, que isto se deva à presença luminosa de Isabelle Huppert que está a interpretar uma versão ficcionada de si mesma. Para demarcar ainda mais essa ligação entre atriz e personagem, Benchetrit chega mesmo a nos mostrar imagens de La Dentellière (aqui sob o disfarce de um outro título), onde Huppert se mostrava em toda a sua fulgurante juventude e num registo inocente que nada tem que ver com a imperiosa e abrasiva presença que a caracterizam nos dias que correm.

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Apesar de momentaneamente fascinantes e portadoras de considerável charme, estas narrativas têm pouca propulsão dramática, falham como estudos de personagens subdesenvolvidas e não têm grande relevância social. Alguns toques de realismo mágico encontram vislumbres de sublime no mundano destas vidas e o uso do formato 4:3 confere ao filme uma elegância visual inesperada, especialmente em cenas mais domésticas. Isso valoriza Histórias de Bairro, concedendo-lhe a aparência de uma obra mais sofisticada do que realmente é, que, no final, se revela como uma experiência anódina e inconsequente. Não obstante, a obra irá certamente deliciar algumas audiências em busca de um filme modesto, que não procura desafiar o espetador e que, ao mesmo tempo, oferece uma refrescante alternativa às cacofonias dos blockbusters dominantes dos cinemas durante o verão.

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O MELHOR: O trabalho e presença de Isabelle Huppert, com destaque para as suas primeiras cenas, onde a atriz telegrafa uma divertida mistura de absoluto desconforto e glacial orgulho à la grande diva do teatro francês. Faz isso apenas com a sua postura e forma de observar o espaço em volta numa mostra de puro virtuosismo.

O PIOR: Apesar de alguns toques de humor seco que recordam os filmes de Roy Andersson, a história do fotógrafo é a menos interessante de todas, sendo também aquela que mais cai no desinspirado cliché.


 

Título Original: Asphalte
Realizador:  Samuel Benchetrit
Elenco: Isabelle Huppert, Gustave Kervern, Valeria Bruni Tedeschi, Michael Pitt
Alambique | Comédia, Drama | 2015 | 100 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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