Homem-Aranha: Longe de Casa | © Big Picture Films

Homem-Aranha: Longe de Casa, em análise

Depois do épico apocalíptico que foi “Vingadores: Endgame”, “Homem-Aranha: Longe de Casa” representa um regresso do MCU à comédia leve com epítetos de ação polvilhados a gosto. Infelizmente, seguir o fim do mundo com histórias de adolescentes à la John Hughes não é uma escolha particularmente funcional.

Mais do que um franchise comum, com sequelas sucessivas a funcionar como filmes que valem por si só, o Marvel Cinematic Universe segue um modelo de produção mais próximo da televisão ou, se preferirem, dos seriados dos tempos do cinema mudo. Com isto queremos dizer que os filmes do Universo Marvel dependem uns dos outros, suas histórias e personagens estão intrinsecamente incompletas pois são somente a peça de um puzzle maior. Isto pode ser visto como uma benção e como uma maldição. Por um lado, esta abordagem permite aos cineastas conceberem arcos de ação e personagem que ganham multidimensionalidade ao longo de vários filmes, onde cada gesto pode ressoar por todo um franchise e assim adquirir significados não explícitos no texto. A nível emocional, tal dinâmica é bem visível, basta ver quantas pessoas choraram e aplaudiram “Vingadores: Endgame”.

Por falar nesse clímax épico, há, obviamente, uma parte negativa nesta abordagem. Kevin Feige e companhia tentam homogeneizar os vários filmes, muitas vezes sacrificando qualquer tipo de liberdade criativa em nome da coesão, mas é impossível conceber uma lógica interna que permita saltar de “Endgame” para “Homem-Aranha: Longe de Casa” sem esbarrar contra enormes inconsistências tonais e narrativas. O que vimos em “Endgame” não é nada menos que um cataclismo que para sempre mudaria a História da Humanidade e a nossa civilização, nem que seja somente a nível social. Pedir a uma comédia de adolescentes centrada nas desventuras europeias de Peter Parker que lide com as consequências apocalípticas do filme anterior é algo impensável e, como é óbvio, “Longe de Casa” é obrigado a recorrer a soluções superficiais e a perder-se num pesadelo de incoerência tonal dentro do seu franchise.

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Já muitos críticos têm acusado esta sequela a “Homem-Aranha: Regresso a Casa” de ser o filme mais inconsequente do MCU e, verdade seja dita, é difícil argumentar contra tais conclusões. Desde uma piada inicial ao som de Whitney Houston até uma cena a meio dos créditos que invariavelmente dá início a uma nova fase na história de Peter Parker, “Longe de Casa” é o epílogo incompetente de um épico e o prólogo desajeitado para aventuras futuras. Tom Holland está a ser posicionado como o equivalente a Robert Downey Jr. para a quarta fase do MCU e o modo como “Longe de Casa” o tenta forçar a se moldar ao novo papel, é algo forçado e triste. Afinal, nós amamos o Homem-Aranha por ele ser o Homem-Aranha, não porque o queremos ver a ser o novo Homem-de-Ferro. Obrigado, mas não desejamos que Peter Parker seja o Tony Stark 2.0. Além disso, se há algo que este novo filme nos comprova, é que Tom Holland é, de facto, o Peter Parker perfeito.

Tal como nos filmes anteriores do MCU, o ator é adorável e cheio de charme, um prodígio de comédia física, mas é igualmente capaz de se desmanchar em epítetos de vulnerabilidade emocional que distinguem Peter Parker de quase todos os outros heróis do franchise. Há um enorme gozo em ver como Holland maneja as variações tonais do argumento errático, colando as cenas mais díspares sem aparente esforço e injetando pequenos detalhes que elevam até os momentos mais corriqueiros. Os saltinhos de Peter Parker numa estrada em ruínas depois de um pequeno triunfo romântico são um gesto inócuo, mas absolutamente genial que nos recorda a inocência da personagem, mesmo num cenário de destruição e horror. Verdade seja dita, quase todo o elenco do filme está de parabéns, sendo que somente Samuel L. Jackson parece estar a ficar um pouco farto de interpretar o mesmo papel subdesenvolvido há uma década.

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As tropelias românticas de Peter Parker nunca funcionariam sem um bom interesse romântico e a MJ de Zendaya é fenomenal, conseguindo ser muito mais que o mero adereço ao qual tantas das namoradas dos heróis da Marvel são reduzidas. Testemunhar a dinâmica dela e Tom Holland até faz com que os clichés mais irritantes do filme, como piadas fáceis escritas por alguém que nunca foi a uma ópera, se tornem em algo apelativo. Com isso dito, mais ninguém em “Homem-Aranha: Longe de Casa” se aproxima mais da perfeição que é Tom Holland do que Jake Gyllenhaal como Mysterio, um dos vilões clássicos da banda-desenhada deste herói mascarado com poderes aracnídeos. Na primeira parte da história, Gyllenhaal concebe uma figura superficialmente heroica, propositadamente carente em carisma. Vê-lo falar de outras dimensões e monstros elementais prontos a destruir o planeta é algo tão portentoso quanto perfuntório.

Isso não é uma crítica negativa, pois o ator claramente apresenta isto com intencionalidade, de modo a que as reviravoltas da segunda parte do filme sejam fundamentadas. Não querendo revelar spoilers em demasia, fica a ideia que, num dos seus gestos mais metatextuais, a Marvel fez com que o vilão de “Homem-Aranha: Longe de Casa” fossem efeitos especiais. Nada é mais apropriado num franchise tantas vezes criticado pela sua dependência desses mecanismos e pela falta de qualidade dos seus esforços em CGI. Em contrapartida, este filme tem alguns dos melhores e mais criativos efeitos de todo o MCU, em parte pois a sua imaterialidade é parte da história. Noutros filmes da Marvel, esse tipo de humor autorreferencial pareceria um pouco estranho, mas este é um dos raros exemplos deste franchise que se passa numa realidade relativamente próxima da nossa.

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Tirando “Black Panther” e seu discurso concetual enraizado em dinâmicas sociais da nossa História, o mundo dos heróis da Marvel parece estar completamente divorciado da cultura, da sociedade e do contexto político contemporâneo. Aqui, contudo, há quase uma reflexão sobre uma cultura popular obcecada com super-heróis, temos referências a fake news e até vemos que o mundo de Peter Parker tem a sua própria versão do veneno que são sites como o Breitbart. Esta é uma observação não muito significativa a não ser na medida em que nos mostra, de novo, como “Homem-Aranha: Longe de Casa” devia ter tido oportunidade de explorar seus temas e ideias singulares mais a fundo, sem estar preso à continuidade tonal de todo um franchise. Quando este filme tem oportunidade de ser uma aventura de um Homem-Aranha moderno e divertido, revela ser um bom objeto de entretenimento escapista. É pena que tenha de carregar o peso do MCU nas costas, pois acaba por ser quase esmagado.

Homem-Aranha: Longe de Casa, em análise
Homem-Aranha: Longe de Casa

Movie title: Spider-Man: Far from Home

Date published: 2019-07-14

Director(s): Jon Watts

Actor(s): Tom Holland, Jake Gyllenhaal, Zendaya, Samuel L Jackson, Marisa Tomei, Jon Favreau, Colbie Smulders, Jacob Batalon, Tony Revolori, Angourie Rice, Martin Starr, J. B. Smoove, Numan Acar, Remy Hill, Dawn Michelle King, J.K. Simmons, Ben Mendelsohn

Genre: Ação , Aventura, Comédia, 2019, 129 min

  • Cláudio Alves - 65
  • João Fernandes - 85
  • Filipa Machado - 70
  • Luís Telles do Amaral - 82
  • Marta Kong Nunes - 85
  • Rui Ribeiro - 85
  • Maggie Silva - 75
78

CONCLUSÃO:

Com efeitos visuais criativos e um elenco charmoso, “Homem-Aranha: Longe de Casa” é um divertimento leve que vacila quando os seus criadores o tentam colar à continuidade tonal dos filmes da Marvel. Novas personagens provam ser grandes adições e o humor, mesmo que básico, diverte.

O MELHOR: Tom Holland aos saltos, Zendaya envergonhada e Jake Gyllenhaal a brindar a si mesmo.

O PIOR: A metamorfose forçada de Peter Parker à imagem de um novo Tony Stark.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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