Festival de Locarno | L’indomptée, em análise

Duas artistas encontram-se e mudam a vida uma da outra durante uma estadia na belíssima Villa Medici, em L’Indomptée de Caroline Deruas-Garrel.

l'indomptée

Caroline Deruas-Garrel é uma cineasta maioritariamente conhecida pelo seu trabalho como argumentista, especialmente as suas colaborações com Phillipe Garrel, o seu sogro. No entanto, ela já foi responsável por algumas curtas-metragens que foram bem recebidas no circuito dos festivais internacionais de cinema. No seu percurso artístico, passou pelo programa da Academia Francesa que permite que vários artistas passem um ano sob o abrigo da luxuosa Villa Medici em Roma, onde poderão trabalhar no desenvolvimento da sua arte. É precisamente este o cenário e base narrativa da sua primeira aventura pelo mundo das longas-metragens, L’Indomptée que, na sua essência, é uma carta de amor a esse paraíso romano.

Lê Também: Festival Scope | Filmes do Festival de Locarno podem ser vistos online

E é certo que, como uma homenagem apaixonada, este filme é um triunfo. A câmara baila embriagada pelos jardins, ou vira-se para os tetos pintados em algo semelhante a um êxtase religioso. A música vai alternando entre romantismo clássico e experimentação eletrónica como se também a sonoridade se tivesse deixado levar pela atmosfera de inspiração artística que transpira das paredes palacianas. Fantasmas do passado passeiam-se entre os caminhos dos jardins e as estátuas renascentistas ganham vida em fugazes momentos de fantasia. Um dos maiores clichés da crítica cinematográfica atual é afirmar que o espaço é como um protagonista do filme, mas neste caso, Deruas-Garrel leva isso mais longe. Em L’Indomptée, a Villa Medici não é apenas mais uma personagem, na verdade é a única personagem concreta e os humanos são apenas alguns insignificantes parasitas no seu organismo.

l'indomptée

Mas esses parasitas são bem irritantes e recusam reduzir-se à sua apropriada insignificância, infetando o filme com um grande caso de incoerência e triste mediocridade. Os devaneios estilísticos da cineasta pedem uma obra mais abstrata e semelhante ao Marienbad de Resnais, mas Deruas-Garrel não tem a mestria do falecido mestre francês e nunca consegue conjugar as diferentes facetas do seu filme. Por exemplo, a presença de Camille, uma escritora e grande protagonista do filme, é perfeitamente incompatível com a abordagem estilística. Ela vive uma narrativa de crise conjugal e criativa que pede claras comparações à vida da cineasta, mas este nível de meta-textualidade é enfaticamente literal e psicológico – quando despontam os momentos de magia, parece simplesmente que quem fez o filme se aborreceu com o drama desinteressante e usou isso como distração.

Lê Ainda: Festival Scope | Filmes da Semana da Crítica de Cannes (I)

Mas não é a presença de Camille que arruína o filme, mas sim Axèle, uma jovem e impetuosa fotógrafa que muitas vezes age como real protagonista do drama psicológico do filme. Ela é simultaneamente demasiado bem definida como personagem para funcionar enquanto elemento metafórico, como é demasiado abstrata e espectral para se estabelecer como uma personagem funcional em que a narrativa se pode apoiar. O resultado final desta falta de congruência é uma narrativa que está sempre a suplicar pela eutanásia, mas que a realizadora nunca deixa morrer.

l'indomptée

Talvez isso se explique pelo trabalho de Deruas-Garrel enquanto argumentista. Talvez ela ainda esteja demasiado insegura como realizadora para abandonar o apoio do texto dramático, mas aqui esse elemento apenas prejudica a totalidade do filme. L’Indomptée é assim uma obra rica em indisciplina que está cheia de momentos sublimes, vislumbres de uma obra-prima abortada pela insistência em emoldurar a homenagem experimental à Villa Medici numa narrativa convencional.

l'indomptée

O MELHOR: A brilhante maneira como o espaço é filmado, especialmente uma sequência onde observamos corpos desnudos a interagir com as estátuas do jardim num momento carregado de estranho erotismo. A um nível mais textual, a personagem de uma socialite com pretensões de mecenas é uma deliciosa mostra de humor e escárnio por parte da cineasta.

O PIOR: A indisciplina do argumento e sua insistência em elementos narrativos desnecessários. O drama de um corte orçamental que leva ao despedimento de muitos membros do staff do palácio é apenas superado na sua incompetência dramática pelo final que reduz uma das personagens a um fragmento meio sonhado da imaginação de outra.


 

Título Original: L’Indomptée
Realizador:  Caroline Deruas-Garrel
Elenco: Clotilde Hesme , Jenna Thiam , Tchéky Karyo , Bernard Verley
Festival Scope | Drama | 2016 | 98 min

[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 


CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *