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Joker, em análise

Joker” é um fascinante “character study” de uma personalidade doentia, que nos arrebate e silencia com um sorriso corrosivo e perturbador do princípio ao fim. Joaquin Phoenix interna-se na pele de “Joker” como uma força demoníaca.

Desde que foi anunciado publicamente, “Joker” tem colocado em polvorosa todo o universo de ávidos consumidores das famosas ilustrações aos quadradinhos da DC Comics, sobretudo por se tratar de uma das personagens mais icónicas da editora norte-americana. A história do cinema já concedeu uma mão cheia de interpretações a este sorridente supervilão criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane nos aguerridos anos 40, mas o molde originário da sua figura circense, é esculpido nas vestes draculianas de Conrad Veidt, na mudez monocromática de o “Homem que Ri” de 1928 – a obra homónima baseada no romance de Vítor Hugo, e que inspirou Todd Philips (A Ressaca) na recriação deste “Joker” de carne e osso. À primeira vista, o realizador nova-iorquino perfilar-se-ia como a carta mais renegada de qualquer baralho para dirigir uma metragem com um perfil tão mediático e peculiar, mas o total desapego deste “Joker” da sua aura mais burlesca e cartoonista, acaba por casar na perfeição com a renovada sobriedade cinematográfica perseguida a partir de agora por Todd. E foi ele quem fez finca pé para garantir Phoenix como o príncipe dos palhaços de Gotham, depois de Di Caprio ter sido cogitado para o papel vilanesco pelos estúdios da Warner. Mas quis a teimosia abençoada do realizador americano, que Phoenix fosse a derradeira expressão espiritual do seu argumento coadjuvado por Silver, diluindo aquele típico arquétipo fantasioso da banda desenhada numa versão humanista indistinguível da realidade material. E esse é o maior feito deste “Joker” face a todos os outros que o antecederam, a exaltação da descida de um anti-herói à terra para viver uma vida de mortal no anonimato.

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(…) É Phoenix quem faz “Joker”, e não “Joker” quem define Phoenix…

A analogia até poderá invocar um certo romantismo confundível com uma qualquer cidade dos anjos, mas esta metrópole retratada por Todd é tudo menos angelical, e arrasta-nos para aquela sarjeta imunda de imoralidade, aonde os fracos e oprimidos são espezinhados como lixo desprezível. De resto, tem sido essa a premissa político-social presente em cada uma das recriações audiovisuais de Gotham City, mas desta vez, Todd, vai resgatar a cultura urbana mais excêntrica, anarquista e criminal daquela Nova Iorque proibida dos anos 80, veiculando a inequívoca mensagem de que, a máquina estadual, é igualmente responsável pela criação dos seus próprios demónios. E é nessa relação de causalidade, que acordamos em Gotham com aquela voz relatada de uma telefonia clássica a desbobinar as notícias locais dos grevistas numa luta de classes cada vez mais acérrima, enquanto somos apresentados a Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) no seu camarim artístico, no momento em que este se maquilha de palhaço com os dedos na boca a alargar um sorriso maquiavélico, para mais um dia rotineiro a vender propaganda barata naquelas ruas sem piedade. Logo ali, começamos a nutrir toda a simpatia, se pena, por Fleck, depois de um bando de adolescentes marginais roubarem o seu letreiro de trabalho, para em seguida o partirem na sua cara pintada com pontapés e bofetadas num desses becos sem qualquer valor.

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E Todd não se resguarda um bocadinho que seja em privar-nos do sofrimento atroz de Fleck, cravando-lhe aquela lente “Scorcesiana” como um inspetor criminal, que observa a sua vítima de perto, quase de forma sadista, e se vai afastando gradualmente do sujeito para obter uma visão mais abrangente daquele momento marcante. De facto, é de marcas profundas que este astuto e incisivo guião é feito, retalhando sem demora pela mente traumática de Fleck com temáticas tão fraturantes como o bullying, que nos atingem como um golpe diário na pele de uma singela faca a deslizar por um bloco de manteiga. Mas é essa alarmante ressonância com a nossa realidade e “status quo”, ainda mais amplificada por aquela tonalidade melancólica neo-noir e pela justaposição de texturas vívidas tão palpáveis, que nos atraca e afunda a uma psicanálise imagética fulgurosamente instigada por “Larry” – o inseparável diretor fotográfico de Todd Philips. É ele quem alumia as sombras negras e solitárias que vão alimentando a ira de Arthur, à medida que o denso e mordaz enredo vai dissecando a psique desta persona aparentemente vulgar, que padece de um distúrbio mental indutor de uma arfante e anémica gargalhada compulsiva. E como conseguimos nós ficar indiferentes, a um indivíduo que só quer ser aceite pela sociedade e que dá banho à sua mãe como se fosse o último reduto da sua humanidade? Não conseguimos. E é por esse motivo que a metamorfose de Arthur em “Joker” é tão dolorosa, depois de ele bater a todas as portas por um gesto de compaixão e a resposta bater-lhe de volta no seu rosto cansado e cadavérico como se ele não existisse. Mas Arthur quis existir, e por sonhar em querer ser o comediante de uma comédia de mãos dadas com a sua tragédia, deixa-se consumir por todas as injustiças, maus tratos e abusos físicos, que acabam por sedimentar a sua existência através da expurgação dos seus pensamentos tenebrosos contra todo e qualquer agressor que remexa nas suas feridas.

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(…) Todd não se resguarda um bocadinho que seja em privar-nos do sofrimento atroz de Fleck.

E vermos Phoenix a “amamentar” Arthur por todos os estágios da sua dor, até “dar à luz” a sua grotesca criação, é uma experiência quase tão reveladora para nós como terá sido para ele. Porque é Phoenix quem faz “Joker”, e não “Joker” quem define Phoenix. Nem nos atrevemos a imaginar, o custo e a exigência emocional que terão levado o ator de origem porto riquenha, a escavar uma interpretação tão sulfúrica e pungente como aquela que ele nos apresenta de forma tão crua e selvagem numa bandeja: ele que contorce as suas costelas vazias com um cigarro pendurado no canto da boca; ele que despeja um frigorífico inteiro no chão e se enclausura no seu interior em penitência; ele que dança como um pássaro desenjaulado numa casa de banho toda grafitada…Ergue-se “Joker”, um alter-ego endeusado, que renasce no seu niilismo existencial como um primo uomo, um agente artístico do caos e da desordem, que já ninguém pisa, mas respeita. E é no talk-show do seu ídolo televisivo, Murray Franklin (De Niro), que “Joker” pinta oficialmente a sua primeira obra de arte e acerta contas com o mundo, subvertendo as regras do jogo a seu favor, porque não tem nada a perder, já perdeu tudo. É por isso que “Joker” encerra um paradoxo em si mesmo, não vive, mas quer viver, e vai vivendo do nada que é tudo. E se há alguma leitura ideológica que possa ser extraida desta abordagem algo reacionária aos nossos tempos do próprio realizador, e parafraseando uma citação de Nuno Markl: é que se o filme “é capaz de inspirar “lunáticos” a matar “gente sã”, se calhar, também é capaz de inspirar “gente sã” a estender a mão a estes “lunáticos””. “Joker” é uma anti-piada de humor negro que cheira a gasolina, cuja controvérsia perdurará muito para além dos últimos créditos rolarem no grande ecrã. Mas uma coisa é certa, se Joaquin Phoenix não vencer o Óscar para melhor ator dramático, essa sim, será a piada do ano.

Joker
joker

Movie title: Joker

Movie description: Arthur Fleck é um homem que enfrenta a crueldade e o desprezo da sociedade, juntamente com a indiferença de um sistema que lhe permite passar da vulnerabilidade para a depravação. Durante o dia é um palhaço e à noite luta para se tornar um artista de stand-up comedy…mas descobre que é ele próprio a piada. Sempre diferente de todos em seu redor, o seu riso incontrolável e inapropriado, ganha ainda mais força quando tenta contê-lo, expondo-o a situações ridículas e até à violência. Preso numa existência cíclica que oscila entre o precipício da realidade e da loucura, uma má decisão acarreta uma reacção em cadeia de eventos crescentes e, por fim, mortais.

Date published: 2019-10-07

Director(s): Todd Philips

Actor(s): Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz

Genre: Crime, Drama, Thriller

  • Miguel Simão - 100
  • Cláudio Alves - 60
  • Luís Telles do Amaral - 80
  • Maggie Silva - 80
  • Filipa Machado - 90
  • Catarina d'Oliveira - 65
  • Inês Serra - 80
  • Rui Ribeiro - 90
  • José Vieira Mendes - 90
82

CONCLUSÃO

“Joker”, depois de ganhar um Leão de Ouro no Festival de Veneza, está na pole position para arrecadar umas quantas estatuetas da Academia. A fita sombria de Todd Philips vai beber dos clássicos para nos apresentar uma fidelidade visual distinta, que vai desembocar, provavelmente, na melhor interpretação de Joaquin Phoenix até a data. Contudo, apesar de “Joker” abanar as águas conservadoras como poucos filmes tiveram a coragem de fazer, a controvérsia das suas temáticas e a rotura com a linha comercial da BD, poderá dividir opiniões. Uma coisa parece-nos clara: tempos extremos requerem medidas extremas, e “Joker” é um abre olhos para o extremismo em que vivemos.

O Melhor: Joaquin Phoenix é brilhante; belíssima cinematografia de Lawrence Sher; guião imaculado deixa-nos enredados na trama até ao final; os violinos de Hildur Guðnadóttir induzem os mesmos arrepios gélidos de “Chernobyl”.

O Pior: Ter de comprar outro bilhete para ver o filme de novo.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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