Julieta, em análise

Em Julieta, Pedro Almodóvar pinta um colorido e solene retrato do coração humano e da sua infinita capacidade para amar e sofrer em igual medida.

Julieta

Julieta, o mais recente filme do mestre espanhol Pedro Almodóvar, inicia-se de uma forma dissimuladamente teatral. A primeira imagem que vemos deste tríptico de tragédia e culpa é a ondulação de tecido escarlate, reminiscente de uma cortina de cena, um apontamento do mundo do teatro bastante comum na filmografia deste autor. No entanto, não estamos perante nenhuma vasta parede de veludo que resguarda um espaço cénico distinto. Na verdade, esta massa de vermelho intenso trata-se de uma blusa que envolve o corpo da personagem titular, cuja câmara começa por fragmentar e até descontextualizar, reduzindo-a a uma massa  escarlate antes de nos apresentar a sua face esculpida pela mágoa.

Esta mulher, vestida com a cor mais importante e violentamente simbólica do cinema de Almodóvar, prepara-se para ir viver para Portugal, deixando para trás a sua vida em Espanha. Contudo, por mero acaso, ela encontra na rua uma amiga da sua filha, Antía, que Julieta já não vê há mais de uma década. O choque deste encontro e o conhecimento que a filha já é mãe, abalam o mundo da protagonista, que até então tinha vivido numa casa despida das marcas da memória. Como que num processo simultâneo de lembrança e exorcização, o espaço estéril do seu apartamento enche-se de caixas com memórias do passado e a narrativa desdobra-se num tríptico de flashbacks, todos eles baseados em contos da escritora canadiana Alice Munro.

Julieta

Aqui, a personagem de Julieta muda de atriz e, da escultura de tragédia e depressão que é a presença de Emma Suárez, passamos a uma versão mais jovem da personagem, mais despreocupada e ainda imaculada de qualquer tipo de corrosiva depressão. Na pele da personagem principal, a jovem Adriana Ugarte é a perfeita visão de uma nova musa de Almodóvar, vibrante com os seus cabelos loiros oxigenados e roupa em cores garridas que contrastam com a paisagem invernal emoldurada por um comboio noturno na primeira história recordada. Aí, desejo, rejeição, morte e sexo colidem de tal modo que todo o resto do filme é uma mera reverberação do seu impacto sísmico, sendo que é nesta viagem de comboio, com alguns ares de Patricia Highsmith e mistério Hitchcockiano, que Julieta conhece o homem que viria a ser pai da sua filha, o atraente pescador galego Xoan, com quem ela passa uma tórrida noite depois do suicídio de um outro homem, cuja companhia ela havia rejeitado.

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Apesar de, como muitos críticos já apontaram, esta ser das obras menos estilizadas de Almodóvar, Julieta é um filme que não poderia pertencer a mais nenhum cineasta. Afinal, que outra voz do cinema ainda mantém vivo o legado do melodrama pintado a cores saturadas de Douglas Sirk nos dias de hoje, se não Almodóvar? A grande diferença entre Julieta e alguns dos seus outros trabalhos recentes é que, aqui, a história humana nunca se resume a uma base estruturante para uma construção estética, mas é, na verdade, o âmago pulsante que domina todo o filme. A estética kitsch e cheia de referências ao melodrama clássico, não serve de mera decoração ou elemento separado, mas é, por outro lado, uma pátina de idiossincrasia que torna algo que poderia ser muito concreto, numa experiência fluida e orgânica, algo inefável e dominada pelas paisagens invisíveis do coração humano. Nesse sentido, Julieta é das obras mais maturas e sofisticadas no cânone deste realizador, cujo estilo raramente se apresentou tão perfeitamente depurado e preciso.

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Não que a sensibilidade kitsch, queer, camp e melodramática de Almodóvar esteja particularmente ausente neste projeto. Basta vermos o modo como a câmara do realizador saboreia a forma masculina de Daniel Grao como Xao, ou a presença de Rossy de Palma como uma personagem que parece uma versão drag da Sra. Danvers de Rebecca, para nos assegurarmos disso mesmo. Para além do mais, Almodóvar raramente mostrou maior domínio sobre a vibrante expressividade da cor, cujos níveis de saturação são ocasionalmente elevados a excessos tão grandes que até Vincente Minnelli julgaria exagerados. Este filme marca a primeira colaboração entre o realizador espanhol e o diretor de fotografia francês Jean-Claude Larrieu  e, vendo-se os resultados, esperemos que esta equipa se venha a repetir no futuro, pois o visual de artificialismo inequívoco é um dos pontos mais fortes de Julieta que, como já sugerimos, parece existir num limbo entre a realidade material e o panorama abstrato das emoções humanas.

Tal limbo nunca se torna mais evidente que na transição que une e separa as Julietas de Ugarte e Suárez. Depois de sofrer uma série de tragédias e de internalizar no seu ser um venenoso sentimento de culpa, encontramos a nossa protagonista a viver em Madrid com a sua filha adolescente. Como uma nuvem de fumo sufocante, a depressão e auto-culpabilização de Julieta parecem infetar a atmosfera e ganhar uma qualidade quase contagiante, pelo que, quando a vemos ser lavada, num estado quase catatónico, pela sua filha, quase suspiramos de alívio. No cinema, a água e o ritual da lavagem corporal têm, há muito tempo, conotações de purificação pessoal, mas, como que piscando o olho a Hitchcock, não há nada de purificante neste banho. Pelo contrário, quando Antía enxagua os cabelos da sua mãe com uma toalha castanha e lhe cobre a face, a montagem elegante de Almodóvar move-se para grande plano e mostra-nos a nova face da mãe deprimida, agora interpretada novamente por Suárez. Não foi a passagem orgânica do tempo que envelheceu esta mulher, mas sim a mágoa que lhe dilacerou o corpo e espírito.

Julieta

É evidente que o crédito de toda esta experiência emocional não pertence singularmente ao realizador, sendo que o elenco deste filme é um dos melhores que ele já reuniu desde Volver e, possivelmente um dos que mais repleto está de caras novas na sua filmografia. Já referenciámos a aparência radicalmente diferente de Ugarte e Suárez, mas também é de salientar o modo como as duas atrizes pouco ou nada fazem para sugerir uma continuidade de personagem. As suas Julietas são mulheres diferentes, uma cheia de vida e vitalidade que testemunhamos ser derrotada pelo choque e pelos eventos da sua vida, e a outra é um fantasma corpóreo, que vive no paradoxo de ter o coração congelado no passado e a mente decidida a tudo esquecer. Para muitos isto não significará grande virtuosismo, mas o facto é que, na sua ousadia de contrastes, estas duas atrizes acabaram por pintar um dos mais devastadores retratos na filmografia do seu autor e, talvez ainda mais relevante, um dos mais belos e dolorosos retratos de uma pessoa afogada nas águas da depressão no cinema recente.

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Em suma, Julieta é uma história comovente, mas nunca salaz ou descarada, sobre a finalidade do amor, a infecciosidade da depressão, o poder corrosivo da culpa, a dor da morte, o trauma da perda e o amor de mãe. Comparado com outras obras do realizador, poder-se-á fazer a redutora avaliação que Julieta é um elo fraco em estilo e complexidade narrativa, mas a realidade não poderia estar mais longe de tais críticas. Através da simplicidade de enredo e fluidez modesta do seu estilo característico, Almodóvar conseguiu pintar em Julieta uma belíssima pintura do coração humano, onde, como em Bergman, a face humana e sua capacidade para expressar dor têm lugar de primazia e onde o vermelho sangra da tela como se fosse a cor viva da alma sofredora das suas personagens.

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O MELHOR: A música reminiscente das bandas-sonoras de Hitchcock, e a fotografia que recorda os excessos cromáticos dos melodramas domésticos de Douglas Sirk

O PIOR: A estruturação tripartida dos flashbacks é um pouco linear demais, mostrando abertamente as suas origens literárias de um modo um pouco infeliz.


 

Título Original: Julieta 
Realizador:  Pedro Almodóvar
Elenco:  Adriana Ugarte, Emma Suárez, Rossy de Palma, Michelle Jenner, Daniel Grao
Pris Audiovisuais | Drama, Romance | 2016 | 99 min

Julieta

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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