Kimi no Na wa (Your Name), em análise

As temáticas, a delicadeza e a inspiração de Makoto Shinkai regressam no seu mais recente filme. Kimi no Na wa é uma obra magnífica que marcou o cinema de animação deste ano.

Conhecido também por Your Name, Kimi no Na wa gira em torno de Taki Tachibana (Ryunosuke Kamiki), um rapaz de Tokyo que apesar de boa pessoa é um pouco traquina, e Mitsuha Miyamizu (Mone Kamishiraishi), uma jovem da pequena vila de Itomori que deseja viver em Tokyo no futuro.

As suas vidas correm normalmente até que se apercebem que em determinados dias os dois trocam de corpo. Isto causa muita confusão e proporciona alguns momentos verdadeiramente engraçados como, por exemplo, quando Mitsuha enquanto no corpo de Taki usa o termo “watashi” em vez de “ore”. Em japonês apesar de “watachi” poder ser usado para designar o “eu” feminino e masculino, os rapazes tendem a  usar a expressão “ore” que se aplica exclusivamente a homens.

Inicialmente confusos e zangados com o que acontece, os dois começam a criar um forte laço de amizade (talvez algo mais), e quando Taki deixa de conseguir trocar de corpo com Mitsuha, decide viajar até Itomori com o intuito de procurar a amiga e descobrir o que se passou.

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A história entra aqui num espaço não-linear e bastante estimulante, distanciando-se da narrativa tradicional e previsível, deixando o espectador curioso para saber o que irá acontecer a seguir, algo que poucas obras conseguem alcançar hoje em dia.

kimi no na wa

Em termos narrativos, Kimi no Na wa regressa à dicotomia entre cidade e campo. A cidade sendo um local de ferocidade e modernidade enquanto o campo transmite ideias de tradição e harmonia.

E como não podia deixar de ser o tempo e o espaço possuem, mais uma vez, uma posição de destaque. Afinal, estes são fundamentais para explorar a distância, uma das temáticas fundamentais do autor. Aqui a distância entre as personagens é avassaladora por viverem em locais opostos e por nunca se poderem tocar. Eles vivem no corpo um do outro, porém não poderiam estar mais distantes. Este aspecto é ainda manipulado durante as sequências de passagem do tempo que marcam igualmente o cinema de Shinkai.

kimi no na wa

No entanto, esta noção não aparece tão subtilmente quanto em The Garden of Words. Em Kimi no Na wa é apresentado ao espectador o termo Musubi. Esta é uma palavra usada para designar o tricô e outras artes artesanais que recorrem à manipulação dos fios de lã, e utilizada para resumir o conceito de que tempo e espaço são elementos maleáveis. Por conseguinte, são capazes de se separar, entrelaçar, juntar e voltar a separar, num ciclo infinito (curiosamente também a história começa e termina num ciclo).

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Aliado a esta ideia é inevitável não mencionar o Fio Vermelho do Destino. Proveniente de uma lenda chinesa chamada Yīnyuán hóngxiàn que pode ser encontrada um pouco por todo folclore asiático, a expressão está ligada à ideia de que os deuses atam um fio vermelho aos tornozelos (ou outras partes do corpo, dependendo da versão da história) dos amantes que estão predestinados a casar-se. Desta forma, independentemente do que acontece, os dois encontrar-se-ão uma e outra vez, para sempre, puxados por esse fio, algo que acontece aos dois protagonistas do filme.

kimi no na wa the garden of words

A banda sonora, a piano, funciona em perfeita sintonia com a obra, serena e harmoniosa. Da mesma forma, os efeitos sonoros permanecem cuidados e realistas.

Aliás o realismo é outro dos elementos que distinguem Shinkai da maioria dos cineastas. O fenómeno pode ser visto na forma como Tokyo e “Itomori” são transportadas para a obra até ao último detalhe. Curiosamente, à semelhança do realizador, Taki é um excelente desenhista e utiliza como base dos seus trabalhos, fotografias e outros meios de representação do real.

Kimi no Na wa apresenta ainda um detalhe importantíssimo para os amantes dos filmes de Shinkai: Yukari Yukino. A protagonista de The Garden of Words é a professora de literatura de Matsuha, comprovando que as personagens vivem no mesmo universo.

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É assim fácil de compreender o porquê do filme ser o mais visto em 2016 no Japão. Justifica também os inúmeros prémios recebidos em festivais de cinema, e a razão que levou a FUNimation Entertainment a comprar os direitos de exibição da obra, possibilitando a sua nomeação para os Óscares de 2017, que certamente acontecerá.

CONFERE O TRAILER DE KIMI NO NA WA

Mas nem tudo são flores. Kimi no Na wa inclui sequências que se assemelham a “aberturas de anime” que me distanciaram um pouco da obra, não apenas pelo seu tipo de montagem mas também pela música (dos Radwimps) que apesar de interessante, se separa bastante dos motivos a piano que protagonizam o filme.

Esta é uma história repleta de encontros e desencontros. Uma narrativa para os amantes e para os incuráveis românticos. Mas também para aqueles que procuram um bom filme de animação com romance, comédia e um pouco de acção.


kimi no na waTítulo Original: Kimi no Na wa
Realizador: Makoto Shinkai
CoMix Wave Films | Drama | 2016 | 107 min


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 Ângela Costa

Ângela Costa

Mestre em Cinema pela Universidade da Beira-Interior, sou apaixonada pelo cinema japonês e toda a cultura que o envolve. Adoro igualmente fotografia e se tiveres curiosidade passa no meu Instagram ;) Música e videojogos são dois outros grandes interesses.

4 thoughts on “Kimi no Na wa (Your Name), em análise

  • Parabéns pela análise, o filme é fantástico

  • Obrigada 🙂 Fico feliz por teres gostado. E sim, está mesmo magnifico. Pelo menos a nomeação para os Óscares espero que consiga.

  • Onde conseguir baixá-lo para ver?

  • Olá Emerson, ele pode ser encontrado nalguns websites em relação aos quais não conhecemos, no entanto, os seus direitos de acesso. Mas tenta ver porque ele está realmente muito bom 🙂

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