"L'Île Aux Oiseaux" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | L’Île Aux Oiseaux, em análise

L’Île aux oiseaux”, também conhecido como “Bird Island”, examina as rotinas de um santuário de aves. Entre o sofrimento e a recuperação animal, os humanos encontram a serenidade. O filme enquadra-se na Competição Internacional do 17º IndieLisboa.

Um corpo extravasado de dor, exausto, derrotado, mas vitorioso também. Ele é Antonin, um jovem que sobreviveu ao cancro e, no rescaldo da luta, se encontra sem energia e sem rumo. Neste desamparo, ele encontra o Centro de Reabilitação Ornitológica de Genebra, empregando-se aí e lá descobrindo um bálsamo para o corpo em necessidade de recuperação. Tal como ele se reabilita, também seus pacientes penugentos o fazem, animal e homem em odisseia refletida, ambos a viver o mesmo fado e a entreajudarem-se pelo caminho. Esta é a premissa do novo filme da dupla de Sergio Da Costa e Maya Kosa.

Durando uns parcos 60 minutos, “L’Île aux oiseaux” constrói-se através de cenas curtas, mas memoráveis, impressões do dia-a-dia onde o tempo real da ação é capturado sem que o artifício do cinema o transforme em demasia. Operações feitas aos pássaros são mostradas em detalhe gráfico e sem censura, carne aberta e sangue jorrado para o espetador ver. Para audiências mais sensíveis, tais imagens podem ser chocantes, enjoativas até, mas Da Costa e Kosa arranjam modo de justificarem a sua inclusão. De facto, eles até encontram alguma beleza transcendente nessas passagens.

L'ile aux oiseaux critica indielisboa
© IndieLisboa

Há um contraste sublime entre o tamanho da mão humana e o corpo frágil de um pardal. Por muito invasivos que os procedimentos possam parecer, cada corte e sutura é feito com a mais extrema delicadeza. É violento e é gentil, o carinho de quem cuida e a necessidade desesperada de quem é cuidado numa dança cirúrgica. Para Antonin, esses contrastes resultam numa estranha terapia, como se o ofício de tratar dos outros o levasse à cura própria. Na serenidade do centro, este jovem encontra a sua sala de recobro, seu santuário.

Com um pé no documentário e outro na ficção, os cineastas foram buscar inspiração ao cinema austero de Robert Bresson para construir tal experiência. Estruturalmente, “L’Île aux oiseaux” deve muito a “Diário dum Pároco de Aldeia”. Contudo, no que se refere à retratação animal e ao uso do som, este filme está muito mais próximo da “Peregrinação Exemplar” onde Bresson contou a história de Cristo através do sofrimento de um burro. Só que, na mesma medida em que o mestre francês do passado usou a vocalização animal para sugerir a dor que acontece fora do enquadramento, Da Costa e Kosa procuram a paz e a vida que existe além dos seus cenários clínicos.

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Apesar do filme terminar com amplo uso de partitura musical, a banda-sonora é quase toda composta pela sonoridade dos pássaros. Piar e canção, o ruído de uma coruja que fraqueja e o som estridente da ave de rapina, estes são os instrumentos que compõem a orquestra de “L’Île aux oiseaux”. O resultado disso é uma catedral de sons naturais que imergem o espetador, mergulhando-o num mundo mais próximo da pureza bucólica da Natureza do que do burburinho urbano dos seres humanos. Nesse sentido, há muito regresso ao natural ao estilo de Voltaire a marcar os minutos do filme.

É claro que nem tudo na Natureza é puro e pacífico. A paz não é natural. A violência sim, prende-se mais à realidade da situação que os sonhos bucólicos de filósofos franceses. Isso mesmo é sublinhado por alguns dos momentos mais brutais do filme. Veja-se a alimentação sangrenta dos predadores alados, ou o modo como os tratadores matam roedores para depois dar de comer aos seus pacientes. A certa altura, imagens térmicas são usadas para retratar a temperatura a descer num cadáver de rato. À medida que o brilho amarelo se subsume à frieza azul, é como se a alma do animal lhe abandonasse o corpo. O humano dá significado espiritual aquilo que não consegue entender do mundo natural.

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Nem tudo nesta obra é um milagre de serenidade sintetizada, convém dizer. Por vezes, quase sentimos a necessidade de empurrar a história na direção da ficção, sendo que o seu lado documental parece limitar a exploração dos cineastas. Também há o caso das suas imagens. Filmado em 16mm e projetado em formato 4:3 com os cantos arredondados, o visual de “L’Île aux oiseaux” apela a um certo arcaísmo. No entanto, a luz clínica dos interiores tende a arrastar as imagens para uma plasticidade que pareceria digital não fosse o grão que as enverniza. Respeitamos a contenção dos realizadores e sua disciplina, mas um passo na direção do lirismo e do estilizado, poderia ter elevado a sua obra um patamar superior de expressão cinematográfica.

L'Île Aux Oiseaux, em análise
l'ile aux oiseaux critica indielisboa

Movie title: L'Île Aux Oiseaux

Date published: 2020-08-27

Director(s): Sergio Da Costa, Maya Kosa

Actor(s): Antonin Ivanidze, Emilie Bréthaut, Paul Sauteur

Genre: Documentário, Drama, 2019, 60 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Sereno, quase fantasmagórico, o novo filme de Sergio Da Costa e Maya Kosa é um documentário ficcionado sobre o cosmos que se estabelece num centro de reabilitação de pássaros na Suíça. Entre a hipnose e monotonia, “L’Île aux oiseaux” fascina. Frustra também, apesar da sua curta duração.

O MELHOR: Há toda uma série de momentos sublimes espalhados pelo filme. Temos a cena em que o ser humano canta para uma audiência penuda. Há os capítulos finais com suas notas de despedida. Ou então a brutalidade com que se preparam ratos como ração e contraste com a delicadeza com que se alimentam as aves doentes.

O PIOR: Na sua forma final, “L’Île aux oiseaux” parece o esboço de algo maior. Sentimos que os seus cineastas poderiam ter desenvolvido mais a ideia apresentada no filme, especialmente a dinâmica entre humanos e pássaros em mútua reabilitação.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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