LEFFEST ’16 | La fille inconnue, em análise

Em La fille inconnue, Adèle Haenel substitui Marion Cotillard como musa dos irmãos Dardenne, num thriller realista que vibra com nobres intenções humanistas.

la femme inconnue the unknown girl leffest dardenne

Parece que, depois de uma primeira experiência com uma estrela de cinema francófono em Dois Dias, Uma Noite, os irmãos Dardenne voltam a restruturar a sua habitual fórmula de realismo social em volta de uma atriz de renome, desta vez Adèle Haenel. Verdade seja dita, a prestação da atriz vencedora de dois prémios César é o melhor aspeto de La fille inconnue, um projeto onde já se começam a denotar marcas de esforço na contínua repetição temática que estes dois cineastas belgas andam a perpetrar desde 1996. Na sua atitude áspera, mas empática, a atriz sugere uma figura complexa presa numa crise moral que transcende os limites dos seus valores pessoais e profissionais.

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Tal como a maioria das suas anteriores peças de moralidade contemporânea, la fille inconnue mistura um cru retrato social com elementos de thriller, desta vez bem assentes num esquema dramático que sugere o drama televisivo de investigação criminal. Esta é a história de Jenny Davin, uma jovem médica que está prestes a trocar a pequena clínica onde os seus pacientes são todos de origens humildes, por um centro hospitalar topo de gama. No dia em que a narrativa se inicia, Jenny entra numa discussão ideológica com o seu emocional interno pelo que, quando ouve o tocar da campainha depois de a clínica ter fechado, ela ignora-o. Na manhã seguinte, descobre que tinha sido uma jovem de origens africanas que, pouco depois de ter tocado á campainha da clínica, foi assassinada numa zona de obras do outro lado da estrada.

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Transtornada e com um esmagador sentimento de culpa, ao que se acrescenta o medo de ter sido responsável pelo seu interno ter desistido da carreira médica, Jenny entra numa espiral obsessiva e faz tudo para descobrir a identidade da jovem que, sem identificação, foi enterrada numa campa desprovida de nome. Assim, como em muitas das suas obras anteriores, os cineastas mais influentes da Bélgica criam uma série de ciclos de repetição, à medida que vão explorando, tanto a investigação de Jenny, como o seu quotidiano e a comunidade cuja população ela se dedicou a ajudar. Inúmeras cenas de consultas mostram o dia-a-dia da médica e seus detalhes mais banais, enquanto outras muitas sequências se dedicam à sua crescente fixação em descobrir o nome da rapariga desconhecida que dá nome ao filme.

Uma série de sólidas prestações naturalistas e detalhes curiosos, como a coleção de comida que os seus pacientes lhe vão dando cada vez que ela faz consultas domiciliárias, marcam essas passagens banais e vão criando um fascinante e minucioso retrato desta médica, seus valores e atitudes. Aliás, se o filme se ficasse por um retrato de personagem, não haveria grande problema, mas La fille inconnue insiste em ser também um thriller criminal. Na conjunção forçada destes dois impulsos narrativos, a simplicidade redutiva de muitas personagens começa a tornar-se evidente e é quase doentio ver o modo como os irmãos tentam elevar Jenny a uma figura de retidão moral tão magnífica, que não seria de estranhar que o filme terminasse com a sua canonização.

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Como já dissemos, Haenel faz um soberbo trabalho com a sua personagem, dando-lhe mais complexidade interior que qualquer um dos longos diálogos que os Dardenne insistem em colocar no seu guião, mas nem ela consegue salvar o filme de descarrilar no seu ato final. Aí, para além de uma crescente condescendência racial e social, Jean-Pierre e Luc Dardenne mostram uma incomum falta de sagacidade no que diz respeito ao casting, anunciando a todos os espetadores atentos, quem é o assassino pela inclusão de um ator que é quase tão conhecido no cinema francófono como a protagonista. É um erro comum dos thrillers de Hollywood mas, vindo destes mestres do realismo europeu, seria de esperar algo mais sofisticado e refletido. Que o ator em questão dá aqui uma das suas mais exageradas e medíocres prestações não ajuda o filme, de todo.

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Condescendência que tende a levar a história ao limite da hipocrisia moral, casting desastrado e uma tendência a simplificar em demasia a psicologia da personagem principal são fragilidades incomuns na filmografia desta equipa de realizadores e argumentistas. Felizmente, a nível formal a sua eficiência contínua sólida e humilde, sem grandes floreados mas também nenhuma escolha claramente má. É, em resumo, o seu estilo aborrecido e ossificado do costume, aplicado a um guião e produção com mais defeitos e fragilidades do que é habitual na sua oeuvre. Mesmo assim e apesar de todos estes elementos negativos, há que dar valor ao trabalho de dois cineastas que, em tempos de discórdia política e tóxico individualismo, constroem um filme que tenta celebrar a heterogenia social da Europa contemporânea e a decência de uma mulher que não consegue virar as costas a uma injustiça perpetrada contra uma jovem, cuja tragédia o mundo em redor parece decidido a ignorar.

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O MELHOR: A astuta, inteligente, obstinada, confiante e complexa prestação de Adèle Haenel.

O PIOR: A conclusão da narrativa num momento que é quase racista na sua abjeta falta de tato e moralidade para com o tratamento de uma personagem periférica mas emocionalmente fulcral ao desfecho da intriga. Por muito nobres que sejam as intenções dos cineastas, neste preciso momento, eles perdem o controlo da linha ideológica do seu filme e terminam La fille inconnue numa desastrada nota de hipocrisia.



Título Original:
 La fille inconnue
Realizador: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Elenco:
Adèle Haenel, Olivier Bonnaud, Jérémie Renier, Louka Minnella, Fabrizio Rongione

LEFFEST | Drama, Thriller | 2016 | 113 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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