LEFFEST ’17 | O Dia Seguinte, em análise

Em “O Dia Seguinte”, o realizador sul-coreano Hong Sang-soo volta a temas habituais da sua filmografia, mesclando autobiografia com jogos estruturais para criar um melodrama pessoal que esteve em competição em Cannes e agora chega ao Lisbon & Sintra Film Festival, também na secção competitiva da seleção oficial.

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Desde 2015 que circulam rumores sobre um romance extraconjugal entre o realizador coreano Hong Sang-soo e sua atriz compatriota e 22 anos mais jovem, Kim Min-hee. Em 2017, aquando da estreia da sua segunda grande colaboração no Festival de Berlim, os dois assumiram a sua relação, que tem vindo a causar considerável escândalo no seu país natal, onde os dois são celebridades cuja fama transcende a cinefilia de presença assídua em festivais. Isto é importante quando consideramos o trabalho de Hong Sang-soo, não sendo somente bisbilhotices anódinas, pois este é um realizador cujos filmes sempre existem em diálogo com um impulso autobiográfico da sua parte.

Temas de infidelidade não são uma novidade no cinema de Hong Sang-soo, mas os seus três filmes estreados em 2017 representam uma trilogia particularmente obcecada com essa realidade. Em Berlim estreou “Na Praia à Noite Sozinha”, que ganhou o prémio de Melhor Atriz para Kim Min-hee e que retrata uma atriz a refletir sobre a sua relação com um homem casado. Em Cannes, ele estreou dois filmes, sendo que o primeiro a ser exibido foi “A Câmara de Claire”, um pequeno esboço cómico com Isabelle Huppert e Kim Min-hee, em parte sobre uma mulher que trabalha para uma produtora de cinema e é despedida depois de dormir com um realizador. Por fim, dentro da competição oficial da Croisette, o cineasta coreano apresentou “O Dia Seguinte”, o único destes filmes a posicionar o homem casado no centro da história de infidelidade.

“O Dia Seguinte” começa com um diálogo pesado entre Kim Bongwan, o chefe de uma editora literária, e sua esposa, que recentemente descobriu a infidelidade do marido. Tal confrontação é seguida de uma sequência típica do cinema de Hong Sang-soo, onde passado, presente, memória e linhas narrativas alternativas se mesclam, convergem e dançam entre si, à medida que observamos Bongwan sair de casa resguardado na escuridão da madrugada e atormentado pela dor da perda. Na sua viagem, o fantasma de uma relação passada, a causa das acusações da sua esposa, manifesta-se, mas a jovem envolvida parece já estar ausente da sua vida. Aliás, quando chega ao trabalho, Bongwan encontra a mulher que vem substituir a sua amante, ausente após ter deixado o emprego, na editora.

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Song Areum, interpretada por Kim min-hee, não parece estar particularmente interessada em ter qualquer tipo de relação sexual ou romântica com o seu patrão, mas a construção de “O Dia Depois” insinua tais realidades ao impor a presença passada dessa outra mulher no decorrer do primeiro dia de trabalho de Areum. Existe assim uma peculiar tensão nas interações entre patrão e subordinada, como se o espectro de um romance estivesse em ativa comunhão com a possibilidade sugestiva de um outro entrelaçar amoroso no futuro incerto. Tal dinâmica é ainda mais exacerbada quando a esposa de Bongwan aparece, com uma carta romântica na mão, e acusa Areum de ser a amante do marido, atacando-a aos gritos.

Esta tentativa de explorar o melodrama no seu cinema de casuais esboços de observação humana não é algo inédito na filmografia deste autor coreano, mas raramente os resultados são tão grosseiros como em “O Dia Seguinte”. Como interpretada por Cho Yunhee, a esposa de Bongwan é uma harpia de fúria sem modulação, uma agressora incrédula que ataca a inocente Arreum e recusa a crer que ela é na verdade uma nova empregada da editora literária no seu primeiro dia de trabalho. Por seu lado, Kim Sae-byeok no papel de Lee Changsook, a amante passada de Bongwan, não é muito mais credível, subtil ou multidimensional que Yunhee, mas os limites do seu desempenho têm o fascinante efeito de tornar a sua personagem em algo espectral e quase imaterial na narrativa principal do filme, mesmo quando ela efetivamente aparece fora da nostalgia dolorosa da memória.

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Ao contrário das outras figuras femininas neste quarteto melodramático, Areum é, no entanto, o centro gravitacional à volta da qual toda a realidade do filme vive. Kim Min-hee é simplesmente magnética e é difícil para o espetador afastar o seu olhar da musa de Hong Sang-soo, tal é a confiança e latente humanidade que ela irradia, mesmo quando está somente sentada num sofá a ouvir, meio incrédula, às explicações e discussões das outras personagens à sua volta. Uma coisa é certa, mesmo se Hong Sang-soo não estivesse enamorado por ela, a sua câmara está certamente apaixonada pela atriz, sendo que só quando a filma num táxi durante uma noite em que neva é que o registo preto-e-branco do projeto parece ser minimamente justificado.

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Ela é simplesmente luminosa e, de certo modo, a sua presença e a palpável complexidade humana da sua personagem dentro da narrativa apenas realçam a pequenez daqueles que a rodeiam, quer seja a fúria cega de uma esposa traída, a insipiência e indefinição de uma amante regressada aos braços de um homem casado ou a mediocridade patética de Bongwan. É raro o protagonista masculino deste realizador que consegue fugir à pátina de inconsequência e desconfortável sentimentalidade com que Sang-soo tende a pintar os seus alter-egos fictícios, mas o homem que putativamente ocupa o centro de “O Dia Seguinte” é particularmente triste na sua falta de valor e no modo como o anti estilo com que é filmado o subjuga na própria história da sua vida.

Uma espécie de coda ou epilogo em que Areum regressa á pequena editora e se depara com o antigo patrão que já não a reconhece é particularmente flagrante na sua ilustração desta dinâmica. Para Bongwan, Areum não passou de um reflexo esbatido da sua amante, um detalhe inócuo de um dia terrível tão facilmente atirada para os confins do esquecimento como a memória de Changsook. A câmara e o espetador, no entanto, não podiam estar mais presos à individualidade da figura feminina que o protagonista esqueceu, realçando-se assim o contínuo movimento da filmografia do realizador, de perspetivas masculinas às histórias de mulheres cuja complexidade é o mistério e a maravilha que dá razão de existência ao filme. Por consequência, “O Dia Seguinte” é um filme melhor apreciado por fãs do realizador, que consigam assim ver o filme em diálogo com as outras obras do autor, mesmo que esta seja uma obra relativamente menor, mesmo dentro do tríptico de infidelidades de 2017.

 

O Dia Seguinte, em análise

Movie title: Geu-hu

Date published: 2017-11-19

Director(s): Hong Sang-soo

Actor(s): Kwon Hae-hyo, Kim Min-hee, Kim Sae-byeok, Cho Yunhee

Genre: Drama, Romance, 2017, 92 min

  • Claudio Alves - 70
  • José Vieira Mendes - 60
65

CONCLUSÃO

Menos acutilante que “Na Praia à Noite Sozinha” e certamente menos charmoso que “A Câmara de Claire”, “O Dia Seguinte” é, mesmo assim, mais uma interessante meditação de Hong Sang-soo sobre o tema da infidelidade, usando as suas usuais técnicas de repetição estrutural e equívocos identitários na narrativa para construir uma obra familiar para os fãs do realizador, mas com algumas variações fascinantes, nomeadamente na presença da atriz principal.

O MELHOR: A prestação de Kim Min-hee que nunca deixa a sua personagem tornar-se somente no eco de outras mulheres que o protagonista masculino do filme nela vê.

O PIOR: OS epítetos histriónicos com que a esposa atraiçoada é concretizada e algumas afetações estilísticas, como a música e a fotografia preto-e-branco, que nada fazem para complementar, contrastar ou modular a experiência geral do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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