"Maléfica: Mestre do Mal" | © NOS Audiovisuais

Maléfica: Mestre do Mal, em análise

Angelina Jolie e Elle Fanning estão de volta para mais uma aventura da vilã mais icónica da Disney, “Maléfica: Mestre do Mal”.

Com a intensa febre de remakes e sequelas que assola a Hollywood contemporânea, é fácil diagnosticar uma perigosa falta de criatividade na indústria cinematográfica americana. A Disney é a santa padroeira desta dinâmica do cinema moderno, tendo construído a atual fartura através da recorrente canibalização do seu legado e nostalgia. Só este ano, já estrearam três obras derivadas do cânone de animação Disney, “Dumbo”, “Aladdin” e “O Rei Leão”. “Maléfica: Mestre do Mal” vem completar a tetralogia, sendo uma sequela ao remake revisionista de “A Bela Adormecida” que, em 2014, fez o mesmo a Maléfica que “Wicked” fez à Bruxa do Oeste, redimindo a vilã e reconfigurando-a como uma heroína complicada.

Todo este investimento em devaneios nostálgicos e fotocópias digitais, leva a um cinema que nunca ousa desafiar o espectador, limitando-se a corresponder às suas expetativas insípidas. Por isso mesmo, “Maléfica: Mestre do Mal” representa uma agradável surpresa, apesar de ser infinitamente mais incoerente e ocasionalmente desastroso que as outras produções Disney de 2019. Afinal, um conto-de-fadas que inclui iconografia do Holocausto, batalhas épicas, genocídios resolvidos com abraços e um Hitler transformado numa cabra merece alguma admiração, nem que seja pela sua ambição mesclada com loucura. É melhor ser-se mau e tresloucado que sano, competente e aborrecido.

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Cinco anos depois dos eventos do primeiro filme, Aurora é a Rainha dos Moors, a terra mágica povoada por fadas e outras criaturas fantasiosas. Ela vive meio isolada dos outros humanos, na companhia dos súbditos e da sua adorada Madrinha, a tenebrosa Maléfica. Os reinos em redor, espalham rumores sobre a suposta vilania da fada de asas negras e estranhos poderes, mas aqueles que a conhecem parecem imunes às sugestões de tais maldizeres. A ação do filme começa quando Filipe, o príncipe de um reino vizinho e amado de Aurora, pede a Rainha dos Moors em casamento e a convida a ela e sua Madrinha para jantarem no palácio real. Nestes primeiros instantes, o filme pouco se distingue do predecessor, a não ser no que se refere aos figurinos mais ostentosos e ao recasting do herói romântico, agora interpretado por Harris Dickinson.

Na noite do malfadado jantar entre futuros sogros, “Maléfica: Mestre do Mal” finalmente começa a conquistar o individualismo. Aí, o realizador Joachim Rønning aproveita-se das novas personagens para tecer uma tapeçaria de racismo sobrenatural e tensões políticas. A Rainha Ingrith é a estrela de tais passagens, com Michelle Pfeiffer a dar vida às suas palavras venenosas com gosto e o tipo de dramatismo meloso que assenta perfeitamente neste melodrama mágico. Através dos esquemas da monarca, Maléfica é incriminada de ter amaldiçoado o Rei e, na fuga da cena do crime, uma vassala de Ingrith alveja a feiticeira com uma bala de ferro, a substância capaz de matar aqueles que nascem de origens mágicas.

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Intrigas de corte e fantasia faustosa são dois géneros bem calibrados pelos cineastas, mas o filme depressa se aventura por mais questões políticas e acaba mesmo por se desdobrar num épico de guerra e genocídio. Acontece que Maléfica é resgatada do seu fado por um homem que, como ela, possui assas frondosas e chifres ameaçadores. Ela assim descobre as suas origens e encontra a comunidade marginalizada das fadas negras que, há tempo imemorial, têm sido levadas pela pressão humana a se esconderem. Furiosas e sedentas pela liberdade, muitas destas fadas querem incitar guerra contra os seus opressores. Sem saberem, estas vítimas sociais vão indo de encontro aos planos diabólicos de Ingrith, que planeia começar uma guerra entre as fações de modo a exterminar as criaturas mágicas e aproveitar-se assim dos seus recursos naturais.

O clímax bélico do filme explode todos estes enredos e subenredos numa batalha campal, um dia de matrimónio feito apocalipse de um conflito racial levado aos extremos da sanguinidade. Alguns momentos lembram mesmo as câmaras de gás dos Nazis e o tipo de carnificina que esperaríamos ver em “Guerra dos Tronos”, ao invés de numa história de princesas Disney. Nada é gráfico ou explícito, mas as situações que o guião sugere são deveras dramáticas e, em duas ocasiões, o espectador até tem direito a ver alguns suicídios sacrificais. A certa altura, quem tiver vindo ver esta aventura em busca de entretenimento fácil poderá encontrar-se de boca aberta perante as insanidades que Rønning e companhia arquitetaram, mas, infelizmente, a originalidade e a loucura não podem durar e, no final, tudo há que ser resolvido à moda da Disney.

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As conclusões abruptas são a pior parte de todo este engenho, estilhaçando a coerência tonal com um golpe do qual é impossível recuperar. Até as performances sofrem, sendo que nenhum dos atores, nem mesmo a fabulosa Angelina Jolie, conseguem fazer com que a coda do drama faça sentido. Pelo caminho, contudo, as mirabolâncias do argumento dão aso a maravilhosas estapafúrdias e espetáculo. As fadas negras são uma bizarra redução de todas as minorias étnicas e raciais da América contemporânea numa espécie fantasiosa, por exemplo. Michelle Pfeiffer, por seu lado, devora o cenário e dá a Jolie uma justa parceira de cena. Tal como a outra estrela, Pfeiffer ainda se pavoneia pelo ecrã em figurinos que devem mais ao orçamento desmesurado do projeto que a qualquer sentido de bom gosto.

Verdade seja dita, as ambições de comentário político do filme são a sua mais inesperada benesse assim como o maior inimigo da qualidade. Rønning é incapaz de conceber um filme em que o conto-de-fadas espetacular consiga coexistir com as personagens arquetípicas e abortados comentários sociais. As intenções são boas e o espetáculo é delicioso, mas a sua junção nunca resulta. É pena, mas sempre aplaudimos mais este tipo de fracasso que o sucesso medíocre de “Dumbo” ou “Aladdin”. “Maléfica: Mestre do Mal” não é bom cinema, mas é entretenimento com alguma garra e personalidade. É um filme que desafia e se espalha ao comprido em igual medida, capaz de desperdiçar duas grandes atrizes e de as elevar a estatuto icónico no mesmo gesto. É fantástico e é terrível. Por outras palavras, é Disney.

Maléfica: Mestre do Mal, em análise
Maléfica: Mestre do Mal

Movie title: Maleficent: Mistress of Evil

Date published: 2019-10-17

Director(s): Joachim Rønning

Actor(s): Angelina Jolie, Michelle Pfeiffer, Elle Fanning, Harris Dickinson, Sam Riley, Chiwetel Ejiofor, Ed Skrein, Robert Lindsay, Juno Temple, Imelda Staunton, Lesley Manville, David Gyasi, Warwick Davis

Genre: Aventura, Família, Fantasia, 2019, 118 min

  • Cláudio Alves - 50
  • Marta Kong Nunes - 60
  • Luís Telles do Amaral - 65
58

CONCLUSÃO:

Nesta batalha de titãs entre oprimidos revoltosos e privilegiados racistas, ninguém sai vencedor, nem mesmo o espetador. Contudo, há surpresas pelo caminho, algumas das quais são bem agradáveis e gratificam. Oxalá mais filmes de grande orçamento da Disney se rendessem às loucuras de que este projeto padece.

O MELHOR: Angelina Jolie como ícone alado da maternidade e Michelle Pfeiffer como uma demoníaca visão de racismo com uma coroa na cabeça e polvilhos de pérolas.

O PIOR: O final é horrível, especialmente a rápida resolução de conflitos tão calcinantes que nenhum filme da Disney alguma vez poderia encará-los com a devida franqueza e respeito.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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