Festival de Locarno | Mañana a esta hora, em análise

Uma família colombiana é abalada por uma tragédia inesperada e tem de reencontrar a sua normalidade em Mañana a esta hora, a segunda longa-metragem de Lina Rodriguez.

mañana esta hora

Quando passamos os olhos por qualquer mostra de cinema independente internacional deparamo-nos com dois módulos principais de expressão cinematográfica. Um deles, maioritariamente americano, segue os códigos estilísticos tipificados pelos filmes de John Cassavetes com a sua ênfase míope no trabalho de ator e uso de generosas montanhas textuais cheias de complexidade psicológica. O segundo vai buscar mais inspiração ao outro lado do Atlântico, ao cinema realista europeu com a sua estética naturalista e uso de vastos silêncios como veículo para a pressuposta observação do “real” e mundano. Mañana a esta hora, a segunda longa-metragem da cineasta colombiana Lina Rodríguez, insere-se nesse último grupo.

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Poderíamos também dizer que o filme consegue pegar nessas convenções e usá-las de modo a construir uma obra de arte que transcende tais conformismos, o que nem sempre acontece. Em primeiro lugar, há que felicitar a realizadora pela sua modesta, mas sincera, representação de uma dinâmica familiar moderna, entre um casal e sua filha adolescente. O registo do elenco tende a sugerir mais minimalismo que pura procura pelo natural, mas o uso de longos takes e um diálogo desprovido de desnecessários floreados ajuda a estabelecer um ritmo vagaroso, mas reminiscente da errática maneira como a vida mundana se desenrola. O drama é inexistente neste panorama e apenas a insolência adolescente da filha traz algum tipo de conflito ao ambiente pacífico no seio familiar que observamos.

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Isso altera-se pelo meio do filme, onde Rodriguez nos mostra que tem mais ambições que o mero registo do quotidiano de uma família de classe média. Com um fade to black que depois dá lugar a uma imagem do espaço doméstico vazio que parece tirado diretamente de Ozu, a dinâmica mudou e ao invés de longos takes cheios de atividade humana e movimento, passamos a tableaux estáticos onde apenas temos acesso a faces chorosas. Uma tragédia a abateu-se sobre a família e o resto do filme é uma exploração de como ela vai superar essa fratura e voltar à união de outrora.

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Mais do que ser ilustrada pelos atores ou pelo texto, essa procura por renovar um equilíbrio numa vida abalada pelo trauma é traduzida no formalismo de Mañana a esta hora. Já mencionámos o uso crescente de grandes planos que separam as personagens, mas essa isolação estende-se até às mais gerais composições. Diálogos inteiros são feitos em partes separadas da casa e cenas são obscurecidas por paredes, como se todos os intervenientes estivessem sozinhos, sua única companhia vozes cujos portadores estão sempre ausentes. Uma mera cena de refeição é orquestrada como uma severa imagem de distanciamento emocional com o espaço vazio entre as personagens a ter tanta ou mais relevância composicional que os humanos que ocupam os extremos laterais da tela.

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Essa elegante severidade passa também pela própria estruturação do filme que é quase simétrico – começa e acaba com planos silenciosos do mundo natural, no meio tem o plano à Ozu e o segundo e antepenúltimo plano do filme são ambos imagens da família a ver televisão, com os olhos a fitarem diretamente a audiência e seus corpos entrelaçados a ocuparem quase todo o frame. No final, Rodriguez conseguiu sintetizar uma trágica crise familiar numa modesta sinfonia de códigos cinematográficos. Ela estabelece um equilíbrio, depois quebra-o violentamente e observa a sua dolorosa reconstrução. O único e grande senão em toda esta abordagem é que na sua virtuosa formalidade, a cineasta distanciou-se de modo radical dos seus sujeitos o que torna a sua dor em algo quase alienígena. Um bom exemplo é um momento de realismo mágico em que um espectro (ou um sonho) aparece a uma das personagens, a carga emocional da cena é nula, sendo que Rodriguez nunca estabeleceu qualquer intimidade com os seus sujeitos.

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O MELHOR: A precisa estruturação simétrica de todo o filme e o uso dramático de contrastes na composição das figuras humanas no plano.

O PIOR: A frieza quase clínica que caracteriza toda a observação da unidade familiar.


 

Título Original: Mañana a esta hora
Realizador:  Lina Rodriguez
Elenco: Laura Osma , Maruia Shelton , Francisco Zaldua , Clara Monroy
Festival Scope | Drama | 2016 | 85 min

Mañana a esta hora

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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