Ghost Stories

MOTELx ’18 | Ghost Stories, em análise

Com três histórias de aparições tenebrosas e a odisseia de um homem em busca de respostas que não existem, “Ghost Stories” é a rara antologia de terror que se eleva acima da mediocridade. Este filme de Jeremy Dyson e Andy Nyman é também uma das longas-metragens europeias em competição no 12º MOTELx.

Antologias de terror são propostas cinematográficas que normalmente nunca resultam em obras particularmente satisfatórias. Tanto em termos de entretenimento como de valores artísticos, tais esforços tendem a feder ora de inconsequência tingida de incoerência tonal ou então de mercenarismo desajeitado. Suas narrativas de encaixe, ou mera presença de um apresentador, raramente produzem algo mais que uma cola apressada e distrativa para unir episódios cuja variação qualitativa acaba por denegrir todo o projeto. Enfim, isso pode-se dizer de todos os filmes compostos por episódios, mas quando se fala de terror, a epidemia de mediocridade é muito mais intensa.

Queremos com isto dizer que, face a “Ghost Stories”, é difícil ter-se grandes expetativas de primor cinematográfico. Esta é uma antologia de terror que reúne três contos de aparições assustadoras unidas pela história de um cético profissional em necessidade de uma boa chapada sobrenatural. Trata-se de um esforço de baixo orçamento baseado numa peça de teatro meio experimental. Trata-se também de uma agradável surpresa que, de modo geral, consegue circum-navegar os maiores problemas que, segundo a norma, afetam este tipo de criação, a começar pela sua narrativa de encaixe.

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A rara antologia de terror que não desaponta.

Aqui, tal mecanismo vem sob a forma da história de um homem a quem já chamámos um cético profissional. Seu nome é Phillip Goodman, um académico de origem judaica que sofreu uma infância disfuncional às mãos de um pai fanaticamente religioso e agora dedica a vida a revelar como o sobrenatural não é mais que ilusões e embustes. Na sequência de abertura, depois de uma montagem à la “Up” sobre a infância de Goodman, o nosso proto protagonista é mostrado a interromper uma sessão espírita, jubilando com a sua suposta superioridade moral e intelectual face ao vigarista em palco. Aquilo a que ele não presta atenção é ao modo como a sua intrusão leva uma mãe que perdeu o filho e está em busca de algum alívio para o seu sofrimento a desmanchar-se em copiosas lágrimas.

Goodman pode falar de si mesmo como um herói justiceiro, mas é evidente que os seus esforços não são motivados por nenhum tipo de impulso altruísta. Essa mesma observação é feita pelo ídolo de infância deste cético que em tempos foi um apresentador televisivo e expert em desmascarar o artifício dos fenómenos paranormais. Este ancião contacta o nosso “herói” depois de anos em que todo o mundo achava que estava morto, para o confrontar com três casos de atividade sobrenatural sem aparente explicação lógica. Como este é um exercício antológico, o filme lá se aventura em três episódios distintos sobre esses ditos casos irresolvíveis.

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O primeiro conto provém de um guarda noturno de classe baixa com uma esposa sete palmos debaixo da terra e uma filha em estado locked-in no hospital. Certa noite, quando estava a trabalhar num antigo asilo feminino, ele é assombrado pelo espírito de uma menina desfigurada. Depois, temos o caso de um jovem com os nervos à flor da pele, uma existência suburbana de classe média completada com uma família disfuncional e um conto de horror que envolve o atropelamento de um verdadeiro diabo no meio dos bosques. Finalmente, há a história de um snob abastado que, na noite em que esposa estava no hospital a dar à luz, foi confrontado com um poltergeist muito familiar.

Nenhum destes contos é particularmente denso em termos concetuais, é muito difícil de explicar racionalmente ou possui grande inspiração formal, mas são divertimentos vagamente aptos e satisfatórios. Jeremy Dyson e Andy Nyman são bons a criar atmosferas ricas em tensão e medo, baseando-se em modelos parecidos com os clássicos da Hammer Productions. A sua utilização de cenários intrinsecamente britânicos imbuídos pela tirania da estratificação social dá sabor a esta receita clássica, nem que seja pela sua paleta cromática nauseante de verdes bolorentos e castanhos fétidos.

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As reviravoltas finais dão novos significados a todo o filme.

O problema ocorre quando essa tensão tem de explodir em momentos de choque, onde a falta de orçamento em efeitos especiais e a falta de experiência dos dois realizadores no panorama do terror cinematográfico se torna evidente. Enfim, muitos são os filmes de terror que, depois de grandes construções de crescente temor e incerteza, entornam o caldo aquando do desfecho narrativo. O que é interessante é o modo como “Ghost Stories” sofre deste problema ao nível dos seus episódios individuais, mas não no que diz respeito à sua narrativa macro.

Aliás, é a reviravolta quase surrealista que a história de Goodman sofre, que confere coerência concetual a todo o projeto, une tematicamente os episódios dispares e eleva o filme acima de tantas outras antologias. No início do filme, Goodman caracteriza o paranormal e as histórias de fantasmas como uma reação humana à morte. A possibilidade de que não há nada para além desta vida, de que quando morremos cessamos de existir e o nosso corpo simplesmente apodrece, é o maior horror de sempre. Para lidarmos com tais angústias, auxiliamo-nos da religião e do folclore, construindo artifícios narrativos que dão significado, razão e propósito a um fenómeno que é tragicamente imparável e isento de tais qualidades.

Chegado o final, sobre o qual estamos a tentar ser vagos para evitar spoilers, “Ghost Stories” vira um espelho ao seu protagonista e narrador, tanto literal como figurativamente. No seu reflexo, Goodman é forçado a confrontar a hipocrisia do seu pensamento e filosofia. Talvez, mais do que a Humanidade a fugir da realidade da Morte, era ele quem fugia, não da Morte, mas das consequências das suas ações, da culpa e da responsabilidade. Em muitos outros casos, tal twist seria encarado com um revirar de olhos, mas Dyson e Nyman constroem o fim com tanta crueldade, que quaisquer clichés ou fórmulas em ação acabam por ganhar nova vitalidade. Mais assustador que qualquer fantasma é a possibilidade de que somos nós os monstros que atormentam este mundo.

Ghost Stories, em análise
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Movie title: Ghost Stories

Date published: 2018-09-09

Director(s): Jeremy Dyson, Andy Nyman

Actor(s): Andy Nyman, Martin Freeman, Paul Whitehouse, Alex Lawther, Paul Warren, Kobna Holdbrook-Smith

Genre: Terror, Drama, 2017, 98 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO

Não se divorciando por completo das origens teatrais da sua narrativa, Jeremy Dyson e Andy Nyman constroem, em “Ghost Stories” uma atraente proposta de terror em linhas clássicas. As reviravoltas finais são profundamente loucas e dão um novo dignificado a tudo o que veio antes, dando originalidade e relevância a um filme que, inicialmente, parece ser igual a tantos outros.

O MELHOR: mais soberbo ainda que a conclusão é o trio de contadores de histórias e os atores que lhes dão vida. Paul Whitehouse traz solenidade carrancuda ao seu guarda noturno, Alex Lawther é uma visão de psicose juvenil bem mais assustadora que qualquer demónio e Martin Freeman é algo entre o estereótipo do aristocrata arrogante e um mestre de cerimónias do inferno tão mais perturbador pela sua constante boa disposição.

O PIOR: Qualquer momento de choque que dependa na confrontação direta com as assombrações, excetuando o último monstro de todos, cuja aparência cadavérica é talvez a única instância no filme em que a maquilhagem é mais perturbadora que potencialmente hilariante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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