Top 10 cinema italiano | 4. O Leopardo

Adaptado de um romance de Giuseppe Tomasi de Lampedusa, O Leopardo de Luchino Visconti é um dos mais estonteantes filmes de época na história do cinema, capturando de forma minuciosa a complicada realidade política, ideológica, humana e estética de uma era já esquecida.

 

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Título Original: Il Gattopardo
Realizador:  Luchino Visconti
Elenco:  Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale, Romolo Valli
1963 | 187 min


 

Luchino Visconti di Modrone, Conde de Lonate Pozzolo, foi uma das personalidades mais fascinantes na história do cinema italiano. Ele foi um aristocrata que renunciou as expetativas associadas ao seu estatuto social e foi o grande pioneiro que levou à criação do Neorrealismo Italiano com o seu Ossessione de 1943, uma lógica extensão da ideologia comunista e antifascista do seu autor. Mais tarde, Visconti viria a ser um dos mais respeitados encenadores de ópera no teatro italiano, transportando essa mesma sensibilidade teatral para o cinema em filmes como Senso. Finalmente, nos últimos anos da sua carreira, o realizador virou-se para um cinema de opulente reprodução de época em que a sua política e sexualidade se tornavam partes integrantes da criação de filmes como Os Malditos, Morte em Veneza e Luís da Baviera. Só um cineasta tão peculiar e magistral como Visconti poderia, por suposto, ser o responsável por uma das obras seminais no cânone do cinema italiano, o esplendoroso O Leopardo.

O Leopardo

O filme adapta brilhantemente o romance homónimo de Giuseppe Tomasi de Lampedusa sobre a queda em desgraça da aristocracia italiana aquando da subida ao poder dos Republicanos, que teve por consequência a unificação de uma nação segmentada por um ancião regime apoiado no poder nobiliárquico. Nas mãos de Visconti, a obra de Lampedusa torna-se uma brilhante pintura cinematográfica, em que o seu artista nutre uma igual quantidade de amor e ódio pelo seu sujeito, construindo uma complicada e singular visão, que consegue ao mesmo tempo satirizar e homenagear a aristocracia do passado, humanizando a sua angústia, mas admitindo e sublinhando a necessidade do seu desaparecimento. Esta multiplicidade de complexas perspetivas sobre a mesma instituição tem a sua personificação na figura central do príncipe Fabrizio Salina, um fóssil de uma era que deve apenas existir na memória, que é também um homem minuciosamente retratado, por Visconti e Burt Lancaster, como uma figura trágica que se vai apercebendo, aos poucos, da sua própria irrelevância.

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Uma funérea e fatalista visão do fim de uma era, concretizado com todo o esplendor que Visconti conseguiu conjurar. Em termos de fidelidade histórica e requinte visual, não existe praticamente comparação na história do cinema, com O Leopardo a ser o absoluto píncaro do cinema de época na sua arte de retratar realidades passadas. Os espaços, os fabulosos figurinos de Piero Tosi, os vários objetos e até as composições inspiradas por pinturas da época, fazem do filme uma espécie de máquina do tempo que nos permite vislumbrar uma época esquecida. Isto nunca é mais visível e esmagador que no grande clímax de todo o filme, uma cena de baile que dura cerca de 45 minutos, em que todo O Leopardo e a própria carreira de Visconti parecem culminar, oferecendo às audiências um trágico espetáculo que é tão delicadamente humano como grandiosamente opulente e enfurecido na sua apresentação de um luxo tão maravilhoso como perigoso.

De uma magnífica pintura do passado, filmado em requintados e elegantes movimentos, a nossa lista passa para um dos mais enraivecidos produtos de cinema politico no cânone do cinema italiano.

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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