O Mês em Música | Playlist de Novembro

A Playlist de Novembro é uma oportunidade para conhecer já em 2018 o que emergirá de novo em 2019. Aproveitamos a acalmia do final do ano, para descer aos subterrâneos.

Não faltam, na nossa Playlist de Novembro, grandes singles vindos de artistas já bem conhecidos da nossa praça. Em alguns casos, tratam-se mesmo de regressos muito esperados e não falta mesmo um fantasma do passado na forma de uma canção composta para celebrar o Natal. De 2007. É preciso que se diga ainda que a melhor canção do mês, e seguramente uma das canções do ano, “No One Changes”, vem da secção dos veteranos. Não obstante, este é o mês em que os grandes descem ao subterrâneo por já terem estado na ribalta (a tempo de constar na lista de melhores do ano) e às luzes do palco emergem os que vivem na escuridão. Mas todos nos puseram a aguardar ansiosamente por 2019. Este é também, não há dúvida, o mês dos singles, porque, embora haja álbuns dignos de serem acrescentados à biblioteca pessoal de cada um, ainda assim, o nosso vencedor é, mais uma vez, um EP. E bem curto. Potente, no entanto, e apoiado na força de um série de singles que o precederam ao longo deste ano.

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Playlist de Novembro | Os singles

Deste o Art Angels, lançado em 2014, que Grimes nos mantém a todos expectantes, desejosos de perceber que rumo irá tomar. Não faltam à canadiana de Vancouver instintos iconoclastas, esboçando e delineando identidades que depois destrói, sem nunca olhar para trás. Da discreta compositora experimental à exuberante adolescente pop, Grimes explora em cada novo registo conceitos como o da cultura anime, servindo-se da multiplicidade audio-visual que compõe esta forma de arte a que damos o nome de música pop. O novo single “We Appreciate Power”, que incluímos aqui na Playlist de Novembro, acende uma luz sobre o próximo conceito em vista, a ser tratado num álbum prometido desde o início do ano.

PLAYLIST DE NOVEMBRO | “WE APPRECIATE POWER”

De volta, confirmando o seguimento de um novo caminho mas com uma inflexão menos eufórica, está Sharon Van Etten com o seu single “Jupiter 4”. Num fundo instrumental pós-punk, que cria uma atmosfera fantasmagórica e evocativa dos The Cure da era de Disintegration, a voz da cantautora indie-folk flutua e ecoa nostálgica, com vislumbres melódicos da Sharon Van Etten de antigamente. Em reverberações sonoras vindas do passado, que se expandem em todas as direcções numa nuvem sonora a revolver-se em torno de si própria, sem se encaminhar para lado algum, o tempo é implodido: “It’s echoing, echoing, echoing, echoing, echoing, echoing”. Só para sublinhar a espera ancestral que lateja nos versos “I’ve been waiting, waiting, waiting my whole life/ For someone like you/ It’s true that everyone would like to have met/ A love so real”.

PLAYLIST DE NOVEMBRO | “JUPITER 4”

Nos últimos anos tem vindo a surgir em Dublin um pequeno grupo de bandas e artistas que estão a reformular o cânone pós-punk de maneira crua e idiossincrática. Os Fontaines D.C., banda de pós-punk e rock de garagem, conseguiram suscitar um vasto burburinho na Irlanda natal, mas também na Europa, só à base de alguns singles que têm vindo a lançar. Estrearam-se com o irresistivelmente dançável “Liberty Belle,” seguido do angustiante “Hurricane Laughter” e do duplo lado-A “Chequeless Reckless”/“Boys In A Better Land”, com o primeiro a situar-se claramente na órbita do pós-punk mas o segundo a oscilar já na direcção do britpop. Com ritmos fortemente propulsivos e a voz de Grian Chatten a evocar fantasmagoricamente a alma dos The Fall, Mark E. Smith, estes singles manifestam de forma evidente as simpatias e identidade musicais dos Fontaines D.C..

Mas o mais recente single da banda, “Too Real”/“The Cuckoo Is A-Callin’”, revela novos e promissores traços, mais difíceis de rastrear. O lado-A em particular, que não podíamos de deixar de adicionar à Playlist de Novembro, é de fazer parar todo o trânsito mental. O tema envolve o ouvinte na sua desconcertante, frenética agitação só para o precipitar várias vezes em quedas livres instrumentais, ganhando momento até explodir num clímax em que o vocalista Grian Chatten interroga impositivo e sarcástico: “Is it too real for ya?”

PLAYLIST DE NOVEMBRO | “TOO REAL”

Pertencendo também a este círculo de bandas pós-punk de Dublin, estão os Silverbacks, cuja abordagem ao género é mais clássica, com um staccato propulsivo e eléctrico. Longe de abraçar as formas mais esqueléticas e esparsas de pós-punk, os Silverbacks integram três guitarristas, criando temas constituídos por linhas melódicas entrelaçadas que se vão estreitando tensamente até se libertarem numa sobreposição, em cascata, de ideias musicais. O seu alinhamento e sonoridade já lhes mereceu comparações à polifonia de guitarras dos Television, e não há dúvida que se ouvem bem as influências dos Talking Heads e outras bandas da cena de rock artístico da Nova Iorque de finais de 70, inícios de 80. Mas não faltam ecos de bandas mais recentes como os Parquet Courts.

Estando agora a trabalhar com o Daniel Fox dos Girl Band como produtor, os Silverbacks estão a preparar o seu álbum de estreia, a lançar em 2019. Deste LP já conhecíamos o single “Dunkirk”, onde se sente bem a força do triplo assalto de guitarras e a oscilação entre malhas de pós-punk espiraladas e intermitentes erupções de distorção. “Dunkirk” é imensamente contagioso, um subtil exercício de acumulação e extravasamento de tensão. Este mês tivemos mais um vislumbre promissor do que nos espera neste debute. Divergindo do método de crescente tensão que caracteriza todos os anteriores singles até agora lançados pela banda, “Just In The Band” começa logo, desde o princípio, a todo o vapor para nunca mais abrandar. A bateria precipita incansável o tema para diante, ao som de um baixo propulsivo, as guitarras vibram frenéticas e metálicas, modulando-se e ultrapassando-se continuamente, enquanto o canto conversacional de Daniel O’Kelly flutua ora impassível, ora plangente, ora quase em agonia, sobre a densa textura.

PLAYLIST DE NOVEMBRO | “JUST IN THE BAND”

Como muitos dos músicos emergentes, a banda Thyla vem de Brighton, estando a conseguir a proeza de se destacar da diversidade musical que caracteriza a cidade. Os Thyla nasceram da amizade de Millie Duthie, vocalista, com o baterista Danny Southwell, que tal como os restantes membros da banda, oriundos de diferentes cidades, se encontraram em Brighton com o claro objectivo de se tornarem músicos. A voz de Millie Duthie é um das características fundamentais da banda, uma voz policromática que tanto acompanha a manifesta tendência dream-pop dos primeiros singles dos Thyla, “Pristine Dream” e “Ferris Wheels”, lançados em 2017, como sobressai agora, desde o início do ano, na sonoridade grunge que a banda tem adoptado. O seu EP de estreia What’s On Your Mind será lançado no próximo mês de Fevereiro.

“Candy”, o primeiro single de What’s On Your Mind, começa com uma batida lenta. À medida que a música se desenrola as guitarras crescem, voltando novamente a descer com a mesma rapidez. No centro, a voz de Millie Duthie a sugerir irónica todo o universo do pop alternativo adocicado dos Altered Images. A música mantém o seu tom vibrante e um tanto sinistro, que condiz com o tema abordado. O carácter bipolar ligado à ingestão de “doces”, confrontando as dramáticas consequências de saúde com o seu divino prazer. É no interior deste cepticismo que surge “Blue”, single lançado este mês e integrado aqui na Playlist de Novembro. Menos feroz do que algumas das faixas pós-punk de Thyla, apresenta ainda o seu jogo habitual de tensão entre suave e pesado. Abre com uma afirmação da supremacia da bateria, alternando depois entre versos dream-pop nos quais a voz de Millie Duthie se lamenta e alucina: “I will never know where I am or what I need/ Still trying to understand my misery/ I’m blue, blue, blue blue.”

PLAYLIST DE NOVEMBRO | “BLUE”

Tentem pôr no Google o nome do projecto de John Cudlip – Launder – e tudo o que vos aparecerá são detergentes. Se acrescentarem o nome do single “Powder”, a pesquisa não vai melhorar, por razões óbvias. De facto, o cantautor e guitarrista californiano de 27 anos, que compõe sob o sugestivo nome de Launder (para quem teve irmãos rapazes a imagem faz algum sentido), lançou apenas um EP, para além deste seu mais recente single. O nativo de Dana Point, a viver agora em Los Angeles, cresceu a ouvir os discos de rock clássico do pai, como Harry Nilsson e The Zombies, até se converter à música que influiria no seu projecto Launder. Não é difícil de rastrear o seu shoegaze brumoso e enérgico a John Phillips, Pavement ou the Brian Jonestown Massacre, nomes que avança como amizades posteriores.

Pink Cloud saiu em Abril e, apesar de ser uma edição de autor, está longe de resultar do trabalho solitário de Cudlip. Jackson Phillips dos Day Wave produziu, a partir do seu estúdio doméstico em Echo Park, todos os cinco temas que compõem o disco, a cantautora francesa new wave Soko canta as vozes de fundo de quatro deles e Zachary Cole Smith dos DIIV, há anos amigo de Cudlip, toca guitarra em dois dos mesmos. Agora, Launder lançou um novo single “Powder/Chew”, que damos a conhecer nesta Playlist de Novembro. Novamente produzido por John Phillips, conta com a colaboração de, mais uma vez, Cole Smith, que toca guitarra principal no lado A, “Powder”, e guitarra e baixo no lado B, “Chew”, e de Lukas Frank, que toca bateria em “Chew”. Oscilando entre momentos acústicos, onde a sensibilidade de cantautor de Cudlip emerge, e motivos melódicos ascendentes, que disparam eufóricos e nostálgicos, imersos em distorção, a canção embrenha-nos na visão onírica a que o shoegaze nos habituou: “And I saw you there”. Imagem fugidia que se evoca para reter e exorcizar.

PLAYLIST DE NOVEMBRO | “POWDER”

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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