Olhares Lugares, em análise

Nomeado para os Óscares de Melhor Documentário, “Olhares Lugares”, da quase mítica Agnès Varda e de um jovem artista urbano chamado JR, é uma deliciosa viagem pela França profunda e um filme singelo que questiona a natureza e a essência das imagens.

Este documentário “Olhares Lugares” é uma viagem pelas estradas de França através do prisma e do encontro do universo artístico de Agnès Varda e JR. Apesar da diferença de idades, Agnès Varda (actualmente com 89) e JR (35) parecem neste filme ter muitas coisa em comum: uma paixão e um desejo de questionar as imagens e, mais concretamente, os lugares e os suportes para as mostrar, num século em que tudo está em rápida mutação. Agnès Varda escolheu há muitos anos o cinema para se expressar. JR escolheu a fotografia de grandes dimensões — e a música, pois é um notável DJ — para criar galerias enormes a céu aberto. E é este o conceito deste precioso documentário chamado “Olhares Lugares” (Visages, Villages), uma viagem pela essência das imagens e das memórias nelas fixadas.

VÊ TRAILER DE “OLHARES LUGARES”

Agnès Varda não necessita pelo seu percurso na história do cinema — é uma das últimas sobreviventes da Nouvelle Vague — muitas apresentações mesmo ao espectador mais distraído. Pelo menos desde o seu brilhante, aclamado e antológico filme-ensaio “As Praias d’Agnès” (2008), onde faz um retrato intimista da sua vida e obra, desde o seu casamento com o realizador Jacques Demy e a sua familia, às memórias da Nouvelle Vague, até à actualidade do cinema francês.

Olhares Lugares
É também um olhar nostálgico sobre a vida e carreira da cineasta de 89 anos.

JR (22 de fevereiro de 1983) trata-se de um jovem artista de arte urbana, que se expressa através da fotografia de grandes dimensões, e cuja a verdadeira identidade ainda não foi revelada — usa sempre uns óculos escuros. É conhecido como o ‘fotógrafo clandestino’, pois tira fotografias a preto e branco, que depois de muito ampliadas são coladas em grandes muros ou paredes dos prédios das cidades, à vista de todos. Para ele ‘a rua é a maior galeria do mundo’. JR começou a fazer as suas intervenções nas ruas de Paris​, mas tem alcançado um enorme reconhecimento internacional sobretudo depois de ter ganho em 2011, um dos famosos Prémios TED, pela sua inovação e criatividade.

Agnès e JR conheceram-se 2015, e imediatamente tiveram vontade de trabalhar juntos. Deste improvável encontro de talentos, aparentemente muito diferentes, nasceu “Olhares Lugares”. Parece tratar-se de um desejo de conciliar ideias, de uma necessidade de diálogo, e sobretudo de um desafio e questionamento sobre o poder das imagens e da imaginação, feito pelo dois artistas. Filmado no interior da França, longe das cidades, viajando no camião de JR — onde foi adaptada uma máquina fotográfica de grandes ampliações —“Olhares Lugares” é um misto de fotografia, literatura, teoria da imagem, e sociologia, com os dois artistas a retratarem o dia-a-dia de pessoas simples be comuns de uma maneira sincera e realista.

Olhares Lugares
O olhar da veterana Varda estão nas fotografias gigantes, coladas nas paredes de JR.

Um tanto ao estilo de “As Praias d’Agnès” (2008), este “Olhares Lugares”, Agnès Varda coloca novamente o documentário — conhece-se-lhe o carácter e por isso é ela quem tenta de inicio comandar as operações — como um espaço dedicado à memória. No entanto, “Olhares Lugares” acaba por se tornar numa história de amizade — e compreensão sobretudo sem a complacência do mais novo — que cresceu durante uma rodagem intensa, entre surpresas e piadas, onde os dois artistas acabam por se rir das suas diferenças e olhares sobre o mundo. Agnès e JR procuram pelos vilarejos do interior da França, essas pessoas comuns que queiram partilhar as suas histórias de vida e experiências, mais ou menos divertidas.

Agnès Varda de 87 anos, na altura da rodagem, é uma das realizadoras em actividade mais idosas da história do cinema e faz-nos sentir por vezes uma certa saudade e nostalgia. Os retratos dos habitantes das pequenas cidade de provìncia, feitos por JR são de uma força e de uma paixão incríveis, próprias de um artista jovem no pleno da sua actividade. É deste contraste e desta energia mútua associadas a cada historia e fotografia dessas pessoas comuns, que nasce um filme sensacional, que tem uma dinâmica poética, criativa e política notáveis, que não cai em complacências ou conformismos.

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Para imortalizar a memória e dar-lhe uma forma, JR e a sua equipa pegam nas fotografias gigantes, tiradas na perspectiva da história contada pelos fotografados, e decoram casas ou lugares com um certo valor emocional para essas pessoas; em outros casos fotografa para recordar uma pessoa desaparecida, ou mesmo para confirmar a existência e os rostos de pessoas vivas: como o carteiro, pintor nas horas vagas ou os estivadores do Havre. À primeira vista poder-se-ia pensar que na sua errância, nem Agnès nem JR sabem exactamente o que procuram através deste enfoque, entrevistas e fotografias de “Olhares Lugares”. No entanto, desde os primeiros retratos, até ao bunker tombado na praia da Normandia, onde a fotografia gigante de um amigo falecido é batida pelas ondas do mar, que a ‘velha cineasta’ se apercebe consciente ou não, de que está numa viagem iniciática pelo mundo da memória das imagens. JR como se deixa levar. Só que esta viagem tem a sua quinta-essência nas margens do lago de Genebra, na Suíça, em frente à porta fechada da casa do famoso cineasta Jean-Luc Godard. Lá encontram uma mensagem codificada que deixou o mentor da Nouvelle Vague, com uma frase que faz Varda, reviver algumas recordações do passado.

Entre o jovial fotógrafo, a sábia e aventureira realizadora, há obviamente uma espécie de transmissão de testemunho e uma cumplicidade quase inexplicável: o primeiro imortaliza os olhos da segunda, cuja a vista já está diminuída, e cujo os pés apesar da bengala parecem ganhar uma nova força. Neste desdobramento de reminiscências conjuntas sente-se sem dúvida a sombra da velhice e da proximidade inevitável da morte. Agnès ajudou a transformar e revolucionar a Sétima Arte, como Jean-Luc Godard que apesar de tudo continua a tentar disfarçar uma ilusão de juventude, jogando, filmando e sonhando com a imaginação de um homem ou de uma mulher mais jovens. De facto é difícil por vezes ceder às emoções, aos sorrisos e lágrimas perante este documentário sensível, comovedor e divertido ao mesmo tempo, sobretudo para os mais cinéfilos e suas memórias. A música de “Olhares Lugares” é igualmente muito importante  nesta viagem iniciática ao mundo das imagens e é assinada pelo compositor Mathieu Chedid (“Belleville Rendez-Vous”). A ‘dança’ dos dois artistas acaba por se fundir num movimento único  e compassado, através dos seus questionamentos comuns e buscas. As suas personalidades estão presentes, e apesar da dureza de algumas das realidades mostradas e das histórias contadas, Varda e JR, preferem ver poesia e encantamento nelas.

Olhares Lugares
Uma viagem conjunta no camião máquina-fotográfica pelas estradas interiores da França.

“Olhares Lugares” é igualmente um filme de encontros: entre Agnès Varda e JR, as suas expressões artísticas e as suas experiências; e entre eles e os espectadores. E como o título indica, um filme de olhares: os olhares que os artistas projectam entre si e sobre eles próprios; sobre o mundo que os rodeia e as pessoas que encontram, sobre a sua evolução e futuro. Este documentário maravilhoso é sobretudo uma delicada viagem através do tempo e das memórias. Uma balada feita ao ritmo de uma curiosidade renovada e inspiradora.

Olhares Lugares
Olhares Lugares

Movie title: Visages, Villages

Date published: 2018-02-14

Director(s): Agnès Varda, JR

Actor(s): Agnès Varda, JR,

Genre: Documentário

  • José Vieira Mendes - 85
  • Daniel Rodrigues - 75
  • Cláudio Alves - 85
82

CONCLUSÃO

“Olhares Lugares” é um documentário poético que nos toca no coração. Curiosamente lida com uma série de temas sensíveis que vão desde a agricultura ao desemprego, da vida comunitária à esperança, da camaradagem à amizade, da beleza à identidade de géneros…sempre com uma infinita poesia e pura magia.
O MELHOR: A reflexão de Varda, mas sobretudo a revelação internacional das fotografias e do talento de um artista extraordinário como JR;
O PIOR: Os diálogos entre Varda e JR, nota-se que são por vezes ensaiados, mas mesmo isso não tira o brilho deste filme feito a quatro mãos.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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