Opinião | 71º Festival de Cannes e o (seu) futuro?

Não foi apenas a apresentação da cópia restaurada em 4K de “2001, Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick no Cannes Classic, ou de um novo “Fahrenheit 451”, de Ramin Bahrani, nas sessões fora de competição, que 71º Festival de Cannes, demonstrou a sua uma visão de futurista e do que aí vem a seguir no cinema e no próprio evento.

71º Festival De Cannes
O cartaz deste ano com o beijo de Godard.

Aliás, este foi um ano de transição, para o Festival de Cannes em muitos aspectos: começou pelas mudanças de horários das sessões de imprensa, a realizarem-se só depois das sessões de gala. Era algo que incomodava muito a indústria de cinema internacional, a opinião da crítica sair antes da apresentação oficial, prejudicando, muitas vezes a carreira do filme e desmotivando as equipas (actores, realizadores e produtores) para o passeio de fama, na passadeira vermelha; por outro lado a proibição das selfies na passadeira vermelha, pois ‘quem vai a Cannes é para ver e não para ser visto’; e depois as ‘guerras’ com a Netflix e com  o produtor português Paulo Branco, a propósito dos direitos de “O Homem Que Matou Don Quixote”, de Terry Gilliam — desta-se aqui a grande presença internacional e marcante no filme da actriz portuguesa Joana Ribeiro — que acabou afinal e em princípio por tudo correr bem: o filme encerrou esta 71ª edição como esta anunciado e vai em breve estrear nas salas, pelo menos em França. Resta saber e dadas as críticas muito pouco positivas, qual a carreira que vai fazer “O Homem Que Matou Don Quixote”, e se não se transformará em mais numa aflição e numa dor de cabeça para o veterano  realizador Terry Gilliam e para os seus s produtores?

71º Festival de Cannes
A grande presença internacional e marcante no filme da actriz portuguesa Joana Ribeiro.

No entanto, se no ano passado, em 2017, a competição foi uma maçada e pouco memorável, com cineastas consagrados a apresentarem filmes fracos, este ano a competição subiu muito, mas muito — mesmo pensando na concorrência dos festivais da ‘saison de outono’ como a Mostra de Veneza — esteve a um nível bastante razoável e gerou mesmo muita discussão entre a crítica e muita imprevisibilidade no que dizia respeito aos potencias candidatos aos Prémios e sobretudo à Palma de Ouro 2018.  Acabou por se confirma essa incerteza e essa ausência de um favorito ou mais, para a Palma de Ouro ter sido atribuída a bonomia cinematográfica e familiar de “Shoplifters”, do japonês Hirokazu Kore-eda. Na verdade parece ter-mos assistido a um regresso à essência do Festival de Cannes como  a grande montra do ‘cinema de autor’; e os realizadores foram as verdadeiras estrelas de cinema: Pawel Pawlikowski, Spike Lee, Lee Chang-dong, Hirokazu Kore-eda, Alice Rohrwacher, Nadine Labaki, Jafar Pahani, Matteo Garrone, Jia Zhang-ke, e outros marcaram este festival e apresentaram trabalhos com bastante força e expressão.

71º Festival de Cannes
A Palma de Ouro 2018 foi atribuída a “Shoplifters”, do japonês Hirokazu Kore-eda.

Para 2019 não se esperam grandes alterações, mas é evidente que o Festival de Cannes, precisa de se renovar e auto-avaliar bastante — afinal de contas são mais de 20 anos com Therry Fremaux na direcção artística e não está em causa a sua competência — pois está a precisar das estrelas e mais estreias mundiais do cinema de Hollywood, ausentes este ano de uma forma bastante significativa:  “Solo: Uma História de Star Wars”, foi apenas estreia europeia pois em Los Angeles foi visto a semana passada.

71º Festival de Cannes
Therry Fremaux o director artístico há mais de 20 anos.

Quanto à Netflix, a guerra está para durar, e vamos ver quem vai dar o braço a torcer, inclusive com os estúdios de Hollywood, distribuidores e exibidores a resistirem o máximo que puderem, tendo em conta a força criativa, o crescimento de mercado — no campo da séries de televisão inclusive — e do potencial económico da plataforma, que permite que ao espectador veja em qualquer lugar e onde todos os dias e sem horários fixos, há um festival de cinema. Não é a mesma coisa que ver nas salas, é verdade, mas os mais novos já  inauguraram essas outras formas de ver.

71º Festival de Cannes
A presidente do júri, a atriz Cate Blanchett, anunciando os prémios.

No horizonte do Festival de Cannes levanta-se ainda outra questão e outro importante desafio: este ano no júri, cinco dos nove membros era mulheres; na competição, de 21 filmes a concurso, só três foram dirigidos por mulheres-cineastas. Por muito, que a organização de Festival de Cannes, queira ser politicamente correcta, favorecendo uma quota de filmes de mulheres, defendendo e apoiando a igualdade de géneros — ou mesmo se colando às ideias do #MeToo — como por exemplo na fotografia tirada a 12 de maio passado em pleno Festival, as 82 cineastas e actrizes posaram juntas na passadeira vermelha e nas escadas principais de entrada para o Grande Auditório Lumière, do Palácio dos Festivais. Elas quiseram representar, as 82 realizadoras que já competiram nas 71 edições contra 1.688 homens, e era óbvio que a mensagem era contundente e clara: a exigência de uma paridade na selecção oficial do Festival de Cannes. Como dizia Cate Blanchett, ‘nós mulheres no mundo ainda somos minoria’.

71º Festival de Cannes
As mulheres num apelo à paridade de géneros na selecção de Cannes.

Efectivamente, foi o ano de uma certa radicalização marcado pela denúncia de abusos e violações  a mulheres no cinema, por realizadores e produtores, como Harvey Weinstein — como aliás corajosamente a actriz Asia Argento levantou a voz na cerimónia de encerramento, para fazer uma revelação — e do aparecimento do #MeToo. Mas afinal até que ponto, a arte em geral, a qualidade e o critério de uma selecção de filmes ou de outras obras  artísticas, tem de obedecer a um critério de igualdade e a uma paridade de géneros? É impossível estabelecer regras que não prejudiquem uns em função de outros, e que não torne negativo para a própria criação artística.

71º Festival de Cannes
Foram proibidas as selfies na passadeira vermelha, pelo menos aos festivaleiros (as).

Por isso o que é importante é que haja um critério de posicionamento das mulheres e dos homens rejeitando qualquer tipo  de abuso e se defenda a igualdade de oportunidades, que respeitem a diferenciação e a sensibilidade dos géneros. E assim vamos ter sempre um grande Festival de Cannes, e muitos filmes bons e para nosso deleite, feitos tanto por homens como por mulheres.

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José Vieira Mendes (em Cannes)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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