"Ousadas e Golpistas" | © Cinemundo

Ousadas e Golpistas, em análise

Ousadas e Golpistas” é uma estrondosa tour de force da realizadora Lorene Scafaria que aqui ecoa os clássicos de Scorsese e traz os seus mecanismos a uma história do século XXI, com strippers, Usher e Jennifer Lopez.

Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão. Assim dita o provérbio popular e assim pensam as heroínas de “Ousadas e Golpistas”. Ou melhor, essa é a mentira que elas desesperadamente contam a si próprias, como uma prece silenciosa, na esperança de justificar as suas ações e limpar o espírito. Uma coisa é certa, o dinheiro é um veneno que corrompe tudo aquilo em que toca e a ganância é a doença que mais facilmente leva à perdição. Não interessa de onde vens ou onde nasceste, a promessa do Mefistófeles que é a cifra acaba sempre por te agarrar e arrastar para o inferno. O melhor que tens a fazer é mesmo tentar aproveitar a viagem até ao submundo.

Lorene Scafaria sabe disso e o seu “Ousadas e Perigosas” é o balanço perfeito entre o prazer da viagem e o juízo final. Não se trata de nenhum tratado moralista ou de um espetáculo desmiolado, mas sim de algo bem mais prazeroso e complicado. O filme é uma festa que dura a noite toda e acaba mal, mas, com os primeiros raios da alvorada, nos embala com a promessa que tudo vai ficar bem e um novo dia está prestes a começar. Tais floreados verbais são um tanto ou quanto desnecessários quando simplesmente podíamos dizer que este é um dos melhores filmes do ano, assim como um dos mais inteligentes também, tanto a nível emocional como intelectual.

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A narrativa baseia-se numa história verídica e todo o esqueleto do argumento se apoia numa entrevista entre a protagonista e a jornalista que veio a tornar famoso o escândalo. Tudo teve início em 2006, quando Dorothy, também conhecida como Destiny, começou a trabalhar em clubes de strip como modo de subsistência para si e para avó com quem vivia. Depois de uns tempos passados em estabelecimentos com má reputação, ela chegou a um clube no meio de Manhattan, onde homens de Wall Street com carteiras gordas se iam divertir e perder pequenas fortunas entre lapdances e shows privados.

Apesar de alguma experiência, Dorothy começou o trabalho como um peixe fora d’água, suas inseguranças e inabilidades bem expostas para todos verem. Assim é até que ela trava conhecimento com Ramona. Introduzida ao som de Fiona Apple, a mulher mais velha é uma diva do varão e uma mestra da dança exótica. Os seus movimentos são tão complexos como magnéticos e ela sabe melhor do que ninguém a arte de livrar um milionário excitado de umas quantas centenas de dólares. Talvez por ver potencial em Dorothy, talvez por ter um instinto maternal apurado, Ramona torna-se na mentora da outra stripper e juntas tornam-se estrelas do seu pequeno mundo de fios dentais e saltos altos.

A vida vai bem e estas mulheres parecem ter conseguido dar a volta a uma sociedade patriarcal e fazer da sua sexualidade um ganha-pão. Contudo, tudo muda em 2008, quando a crise da bolsa americana vira o mundo de pernas para o ar. Isso e uma relação infeliz, afastam Dorothy do varão e deixam-na como uma mãe solteira e desempregada. Felizmente, no início da segunda década do século XXI, ela e Ramona voltaram a cruzar caminhos e a amizade poderosa do passado volta, mais uma vez, a salvar Dorothty.

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Com a ajuda de mais umas amigas, as duas mulheres iniciam um esquema ilegal para roubar dinheiro a homens ricos e à procura de emoções fortes na companhia de mulheres bonitas. Elas seduzem os seus alvos, drogam-no e depois levam-nos até clubes de strip onde os fazem gastar monstruosas quantias e ficam com uma percentagem do que o estabelecimento ganha. O mantra que usam para limpar a consciência é sempre o mesmo – estes canalhas merecem, depois de tudo o que fizeram à economia e ao mundo, depois de arruinarem inúmeras vidas e ainda terem dinheiro suficiente para perderam milhares e continuar a viver bem.

Como seria de esperar, esta situação é insustentável e tudo acaba em desgraça. O lado mais amoral de Ramona mostra a cara e ela leva o esquema longe demais, até que as vítimas se acumulam e a atenção das autoridades finalmente se vira para o grupo de criminosas. Basicamente, tanto em termos de estrutura como de história, de forma e conteúdo, Lorene Scafaria concebeu aqui uma versão feminina de “Tudo Bons Rapazes” de Martin Scorsese. Entenda-se que isto não é uma crítica. Afinal, muitos são os cineastas que tentaram ir buscar inspiração a esse clássico e nenhum deles teve tanto sucesso como Scafaria.

Parte do seu génio, deriva do facto que a cineasta não escolheu esta abordagem ao calhas. Simplesmente, a história real se predispunha perfeitamente a estes mecanismos. Há aqui uma coleção de escolhas musicais fantásticas, montagens energéticas, leitmotivs visuais inteligentes, jogos de escutas e até coreografias de câmara que parecem tiradas diretamente do filme de 1990. No entanto, nada parece ser fotocópia desinspirada. Além de homenagem, também aqui vemos grande especificidade e até alguns toques de empatia e humanismo que faltam à obra de Scorsese e enriquecem o novo filme.

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Não querendo cair em clichés, “Ousadas e Golpistas” é um filme sobre mulheres, contado por mulheres e claramente filmado por uma mulher. Há algo de poderoso no modo como Scafaria mostra o corpo sexual das atrizes sem as objetificar. A perspetiva do espectador é sempre a das personagens e nunca a dos clientes que lhes banham os corpos com notas e as veem pouco mais do que como entretenimento gratuito. Isso acaba por conferir uma enorme multidimensionalidade tonal à obra e, certas cenas, contêm em si conflitos emocionais que nunca são resolvidos pela obra, mas deixados ao critério do espectador. Além de respeitar a dignidade das suas personagens, Scafaria também respeita o intelecto da audiência.

Acima de tudo, o que mais espanta e deleita é o modo como “Ousadas e Golpistas” faz tudo isto e é, ao mesmo tempo, um triunfo de entretenimento do mais alto gabarito. É certo que Scafaria parece mais interessada no ardor da ressaca que na euforia da bebedeira, mas ela nutre um afeto tão grande pelas figuras do guião que o próprio espectador é enfeitiçado por essa paixão. Veja-se, por exemplo, como Ramona é simultaneamente um anjo salvador e um demónio corruptível. Como esta mulher contraditória, Jennifer Lopez é genial, mas ainda mais primoroso é o modo como a câmara a captura, delineando a espetacularidade da sua presença, ao mesmo tempo que examina a feiura que ocasionalmente lhe mancha a expressão. Face a tal grandiosidade, resta-nos simplesmente aplaudir.

Ousadas e Golpistas, em análise
Ousadas e Golpistas

Movie title: Hustlers

Date published: 2019-09-26

Director(s): Lorene Scafaria

Actor(s): Constance Wu, Jennifer Lopez, Keke Palmer, Lili Reinhart, Cardi B, Lizzo, Julia Stiles, Trace Lysette, Marcy Richardson, Mercedes Ruehl, Usher Raymond

Genre: Comédia, Crime, Drama, 2019, 110 min

  • Cláudio Alves - 85
  • Daniel Rodrigues - 50
  • Marta Kong Nunes - 75
  • Maggie Silva - 75
71

CONCLUSÃO:

“Ousadas e Golpistas” é um filme furioso contra um patriarcado capitalista. Mesmo assim, tem capacidade para olhar com franqueza os crimes das suas heroínas. Além do mais, trata-se de um grande objeto de entretenimento.

O MELHOR: A banda-sonora é uma boa candidata a melhor do ano.

O PIOR: O modo como retrata as dançarinas russas que chegam a Nova-Iorque após o rebentar da recessão.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “Ousadas e Golpistas, em análise

  • Ousadas e Golpistas | 4*

    Ousadas e Golpistas: 4*

    Bastante bom, mas é um pouco longo.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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