Outlander | Figura de Estilo, T2E06

Roupas de maternidade setecentista, sobriedade clerical e um belíssimo manto ao estilo da Balenciaga marcam o guarda-roupa deste novo episódio de Outlander.

 

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Durante a sua estadia em França, os Fraser têm-se distinguindo como elementos de constante dissonância visual. Claire, com suas cores fortes, cortes estilizados e absoluta falta de decoração e Jamie com sua atípica sobriedade no meio do fausto aristocrático parisiense. Terry Dresbach tem feito muito para exacerbar esta separação entre os protagonistas de Outlander e o mundo que os rodeia, mas neste sexto episódio essa diferenciação é atenuada, e os Fraser parecem estar mais assimilados que nunca com o mundo parisiense. Aliás, uma das cenas do episódio é dedicada singularmente ao modo como Murtagh, padrinho de Jamie, envergou pela primeira vez as modas francesas como modo de se disfarçar para um assalto. Quando estes forasteiros se começam a integrar melhor neste mundo, é quando este se abate sobre eles em trágica sucessão de planos fracassados.

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Com essa linha concetual em mente, examinemos primeiro o vestuário masculino no episódio, nomeadamente as roupas de Jamie. Tal como nos anteriores capítulos desta estadia em Paris, o estilo deste nobre escocês é caracterizado por uma severidade que se opõe às exuberâncias hedonistas dos homens dessa sociedade estrangeira. Aliás, com o seu uso insistente de um fato em cetim preto sem adornos e simples camisas brancas, Jamie tem uma imagem quase clerical, com apenas Murtagh e Fergus a se assemelharem minimamente ao seu visual.

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Interessantemente, o usual contraste entre Jamie, o príncipe Carlos e o Conde Saint Germain é incrivelmente atenuado nesta hora. Primeiro, quando os vemos aos três, todos estão vestidos em igual silhueta e, pela primeira vez, as roupas dos dois faltosos aristocratas jacobitas estão tão desprovidas de bordados e tecidos contrastantes como as de Jamie. É certo que a cor e os tecidos continuam a distingui-los, com o príncipe coberto em cetim dourado e o conde num damasco azul em oposição ao preto de Jamie, mas tal contraste é comparativamente minúsculo se pensarmos nos episódios anteriores.

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Numa segunda confrontação entre Jamie e o Conde, ambos estão vestidos praticamente de igual. A única diferença é mesmo a cor, pois enquanto Saint Germain continua a exibir-se em tons claros e puros, Jamie é sempre um poço de negrura visual. Na maior parte das narrativas clássicas, o branco e o preto são cores associadas aos heróis e aos antagonistas respetivamente, mas Outlander parece estar a querer inverter e subverter tais códigos, ao mesmo tempo que realça quão eticamente dúbias são as atitudes de Jamie e Claire nestes seus perigosos jogos de manipulação e mentira.

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Esse assalto acima mencionado foi perpetrado por Murtagh disfarçado de malfeitor francês, sendo que ele apenas concordou com o ridículo plano após Claire lhe explicar a realidade da sua sobrenatural situação. Esse momento de rara confidência entre Murtagh e a mulher do seu afilhado é complementado pelos figurinos que demarcam a proximidade visual dos dois, ambos vestidos de bege e envergando duas versões de um simples colete para vestir em ambiente casual e doméstico. É claro que enquanto as peças de Murtagh são sóbrias e masculinas, as de Claire são mais femininas e concebidas como indumentária de maternidade, algo que raramente se vê em narrativas de época.

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Pela sua raridade em produções deste tipo, é duplamente fascinante que ao conceber as roupas para as últimas etapas da gravidez de Claire, Terry Dresbach tenha construído alguns dos figurinos mais historicamente corretos desta temporada. O uso de aberturas laterais para possibilitar o ajuste progressivo das peças e suas pequenas diferenciações dos rígidos estilos femininos normais, são perfeitamente congruentes com as modas da época. A sua simplicidade decorativa continua a ser anacrónica mas o facto de Claire envergar muitos destes figurinos como roupa de trabalho justifica esta escolha. Aliás, de todos os figurinos que Claire usa neste episódio, apenas um manto azul claro inspirado em casacos da Balenciaga é que mostra os padronizados níveis de estilização no guarda-roupa de Claire.

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Mesmo quando vemos a heroína de Outlander entre as mulheres da alta sociedade francesa, o seu figurino é curiosamente semelhante aos seus. Certamente que o tecido do seu vestido é historicamente incorreto e a tonalidade azul-escura, a cor principal dos seus figurinos, a destaca por entre os cremes, castanhos e dourados, mas o corte da peça é estranhamente próximo ao das outras mulheres, até no uso de um pièce d’estomac decorado com renda. Aliás, este robe volante com as costas construídas em pregas Watteau, está muito mais próximo da realidade histórica da França nesta época que os robes a l’anglaise que as restantes figuras envergam nesta cena. Claire pode olhar com escárnio e superioridade moral para a insensibilidade elitista destas mulheres, mas assim é o papel que as normas sociais do século XVIII lhe concedem. Apesar dos visuais inteligentemente questionarem esta situação, Claire é inexoravelmente uma mulher fora da sua zona de conforto, enquanto Louise, em toda a sua vácua coscuvilhice e femininos tecidos florais, está em triste harmonia com a sua condição.

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É claro que nenhuma discussão deste episódio estaria completa sem mencionar o violento duelo que encerra o episódio. Desde que vislumbramos o casaco escarlate de Jack Randall nos aposentos do bordel de Madame Elise, que tememos os horrores que a sua presença vai trazer, e tais medos são justificados quando chegamos ao final do episódio com este pérfido vilão a lutar contra Jamie. De novo, temos dois homens vestidos quase de igual, um em tons claros e outro em preto, e de novo a figura escura é quem vemos como herói. No entanto, é difícil ver heroísmo no sanguinário final deste duelo, quando Claire, pela primeira vez em completo contraste com tudo à sua volta, cai no chão aos gritos, seu leve vestido azul a abrir-se à volta de sua sofredora figura. Neste mundo de violência, preto e branco e masculinidade em conflito, não há lugar para a anacrónica força feminina de Claire e mais uma vez os figurinos destacam a sua fragilidade em tal situação e sua incapacidade para dominar e se opor às trágicas injustiças deste mundo passado.

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Para semana, as personagens de Outlander terão de lidar com as consequências da tragédia deste episódio e será fascinante ver como a figurinista Terry Dresbach irá ilustrar tais conflitos internos e externos. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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