And Breathe Normally

Queer Lisboa ’18 | And Breathe Normally, em análise

And Breathe Normally” é um drama social islandês, sobre duas mães solteiras de origens muito diferentes, que está entre a competição de longas-metragens do 22º Queer Lisboa.

Depois de uma série de curtas-metragens premiadas, a cineasta islandesa Isold Uggadottir finalmente assinou uma longa-metragem, “Andið eðlilega” também conhecida como “And Breathe Normally”. Trata-se da história de duas mulheres de origens bem distintas unidas, não só por um momento traumático que poderá mudar para sempre o curso das suas vidas, como também ligadas por uma série de provações pessoais que, mesmo sem saberem, as duas partilham. A primeira pessoa que conhecemos deste duo é Lára, uma mãe solteira islandesa com dificuldades financeiras e um problema com drogas que ela custosamente parece estar a ultrapassar.

Aquando da cena de abertura do filme, Lára está no supermercado a sofrer uma das muitas humilhações a que a sua condição económica a sujeita, não tendo dinheiro suficiente para pagar todos os bens de primeira necessidade que tinha no carrinho. Seu filho, Eldar, vive resguardado pela sua mesma inocência, nunca sendo diretamente confrontado com as mágoas que parecem quase pesar sobre os ombros cansados da mãe. A única preocupação do menino é cuidar do seu novo gatinho chamado Músi, mesmo quando ele e a mãe se tornam efetivamente em sem abrigos que têm de dormir no carro estacionado algures nas agrestes planícies da Islândia, onde vento e chuva parecem nunca cessar.

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Duas histórias de vida em precária colisão.

A única esperança de Lára reside na sua posição no aeroporto da modesta e pequena localidade onde vivem. Contudo, a sorte não é muita e, antes de ter uma posição paga, ela tem de passar por um período de aprendizagem e avaliação. É numa ocasião em que ela está a observar o protocolo de verificação de passaportes que Lára e a narrativa de “And Breathe Normally” se deparam com Adja, segunda protagonista do filme e uma mulher numa posição ainda mais precária e perigosa que a mãe islandesa. Afinal, acabamos por descobrir que Adja é uma imigrante da Guiné-Bissau a tentar fugir para o Canadá com a filha, para escapar a um país onde a sua homossexualidade é vista como algo punível com morte.

Não que Lára tenha qualquer noção disso quando repara que o passaporte de Adja não corresponde a todas as regulamentações, chamando a atenção ao seu colega e acabando por inadvertidamente ser a causadora da retenção da guineana na Islândia. Talvez já consumida pela culpa, Lára não divulga que viu Adja acompanhada por outra mulher e uma menina pequena, mas o mal já está feito e a imigrante ilegal é presa e, depois de cumprir a sua pena, é levada para uma residência onde espera saber o resultado de um desesperado pedido de asilo. Uma manhã, quando caminha pelas ruas opressivamente vazias do seu país-prisão, Adja depara-se com um menino perdido em busca do seu gato.

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O reencontro entre as duas mulheres por meio de um gato fugitivo e um menino irresponsável poderia parecer uma coincidência convoluta, mas a comunidade local parece ser tão diminuta que o realismo putativo do filme não é de modo algum violado. O que talvez seja mais difícil de engolir é a atitude de Adja que, talvez motivada pelas saudades da filha, se afeiçoa a Eldar e dá abrigo a ele e sua mãe quando os descobre a dormir no carro. Felizmente, Babetida Sadjo é uma atriz impressionantemente hábil na circum-navegação de um papel cheio de contradições, efetivamente dando a ideia de uma absoluta claridade emocional capaz de transmitir reações tão conflituosas como a irritação mesclada de benevolência com que a imigrante inicialmente confronta Lára.

Já houve quem apontasse como o filme parece cair na fórmula racista do “preto mágico” que só existe para facilitar a vida de um protagonista caucasiano e isso não é necessariamente falso. Muitos problemas que o filme tem seriam facilmente resolvidos se a narrativa se focasse em Adja e não em Lára. Sadjo pode oferecer uma prestação que merece aplauso e até uns quantos prémios, mas é Kristín Þóra Haraldsdóttir no papel de Lára quem comanda o filme e tem direito a quase todo o diálogo, reduzindo a outra atriz a uma presença quase sempre reativa. Em suma, com exceção do seu ato final, “And Breathe Normally” tende a negligenciar a perspetiva de uma das suas protagonistas, tirando balanço ao texto e denegrindo alguns dos seus elementos mais valerosos.

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Babetida Sadjo eleva o filme, quase ofuscando os grandes problemas da sua personagem no texto.

Referimo-nos principalmente ao foco que o filme coloca na empatia enquanto máxima qualidade humana, chegando mesmo a apresentar um mundo desprovido de vilificação individual e em que os problemas de xenofobia, racismo e homofobia não se concentram nas pessoas, mas sim a um nível institucional que é muitas vezes ignorado pelo cinema. Tal é a pressão de um sistema injusto sobre as personagens, que o espectador quase se sente sufocado, como se os grandes céus que dominam todas as cenas exteriores fossem uma materialização dessa mesma pressão, pronta a esmagar qualquer pessoa que se encontre debaixo de si.

Essa busca por empatia e pela compreensão de injustiças sociais como um problema humano que não se reduz ao indivíduo são ideias traídas pelo subdesenvolvimento de Adja e sua condição. O filme levanta questões sobre a desumanidade do sistema legal islandês, especialmente quando confrontado com a ilegalidade da homossexualidade em algumas nações, mas Uggadottir nunca se empenha em examinar isso preferindo sempre o caminho do melodrama dominado por atores e emoções viscerais. Um pouco mais de cerebralidade seria bom para “And Breathe Normally”, mesmo que, pelo final, seu poder enquanto máquina produtora de lágrimas esteja mais do que confirmado.

And Breathe Normally, em análise
Queer Lisboa And Breathe Normally critica

Movie title: Andið eðlilega

Date published: 2018-09-16

Director(s): Isold Uggadottir

Actor(s): Kristín Þóra Haraldsdóttir, Babetida Sadjo, Patrik Nökkvi Pétursson, Þorsteinn Bachmann, Sveinn Geirsson, Gunnar Jónsson, Petur Oskar Sigurdsson, Guðbjörg Thoroddsen, Helga Vala Helgadóttir,

Genre: Drama, 2018, 95 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO

“And Breathe Normally” é uma tapeçaria de injustiças sistematizadas e miséria social nas paisagens gélidas da Islândia. As suas personagens podiam ser mais desenvolvidas, assim como o discurso político da obra, mas quando o filme se rende ao fogo-de-artifício emocionalmente comedido da sua trama, então é difícil resistir ao seu apelo. As interações entre as duas protagonistas com sua constante negociação de culpa, indignação, irritabilidade, empatia, caridade e desespero. O final é um murro no estômago que produz tantas lágrimas como suspiros de alívio.

O MELHOR: O trabalho das duas atrizes principais. Sadjo é especialmente sublime.

O PIOR: Os clichés meio racistas em que o filme acaba por cair na sua caracterização subdesenvolvida de Adjar, a quem nunca é dada tanta interioridade como Lára.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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