Disobedience

Queer Lisboa ’18 | Disobedience, em análise

Disobedience” marca a estreia do realizador chileno Sebastián Lélio no cinema de expressão anglófona, onde este cineasta continua a provar a sua mestria no que diz respeito à representação de mulheres complicadas no grande ecrã. Este é um dos filmes da Secção Panorama do 22º Queer Lisboa.

Em cinema, não é raro encontrarmos protagonistas queer que, no caminho para a sua autossalvação, têm de sair de situações causticas, famílias e comunidades opressivas, culturas de repressão e até nações onde o preconceito é lei. Desse modo, o ato de fugir é tornado no gesto heróico, num triunfo glorioso com que muitas histórias terminam, assim oferecendo uma conclusão que satisfaz, que jubila, que apazigua. Raro é o filme que examina o custo dessa fuga, o preço que o abandono de todo um mundo em que se cresceu e viveu tem na mente e no coração. A fuga é muitas vezes necessária para a vida de indivíduos queer por todo o mundo, mas não é algo unidimensionalmente positivo. Nada que implica tantos sacrifícios pode ser tão simples assim. Fora do panorama do cinema queer, aqueles que deixam, que saem, que fogem, são raramente tão celebrados.

É no regresso a casa que se encontra a glória, tornando aqueles que a deixaram em párias, pessoas que se enganaram, que traíram as suas origens, que foram egoístas. Em “Disobedience”, Sebastián Lelio coloca estas duas ideias paradoxais sobre o mesmo ato em complicado diálogo. Apesar disso, a figura na qual tais conceitos se encontram não se vê a si mesma como alguém que tenha fugido, mas como alguém que foi expulsa. Ela é Ronit Krushka, uma fotógrafa nova-iorquina que é bissexual e há anos foi ostracizada pela sua comunidade ortodoxa judaica. Segundo a comunidade em questão, ela não foi expulsa, ela abandonou-os na sua relutância em voltar e é essa mesma falta de retorno que a sua antiga família, vizinhos, amigos e anciãos apontam como um crime para o qual é difícil encontrar perdão.

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A comunidade é conforto e opressão, é salvação e perdição.

Adaptado de um romance de Naomi Alderman, “Disobedience” começa com uma crise que leva Ronit a atravessar o Atlântico, adotando relutantemente o papel principal em mais uma história de atribulado regresso a casa e às origens. Num subúrbio londrino, Ronit volta ao seio da comunidade religiosa a que o pai, um Rabi, dedicou a vida. É essa figura paterna que incitou a sua viagem, tendo falecido na primeira cena do filme depois de várias complicações de saúde sobre as quais Ronit nunca teve conhecimento. A chegada de Ronit, para assistir ao enterro do pai, não é caracterizada por nenhuma hostilidade direta. Aliás, são muitos os sorrisos com que a fotógrafa se depara, mas há tristeza, reprovação, julgamento e outras tantas gradações de sentimentos difíceis de descrever a sombrear a fachada de hospitalidade da congregação.

Ninguém parece mais surpreendido pela aparição inesperada de Ronit do que Dovid, um discípulo do Rabi Krushka e antigo amigo muito de Ronit. Pela sua parte, ela fica tanto ou mais surpreendida quando sabe do casamento de Dovid com Esti, com quem tanto a fotógrafa como o homem religioso tinham uma relação de amizade próxima, antes de algo ter feito ruir a fundação do seu laço. Enquanto audiência, sabemos que há algo mais que a perda de uma amizade a pintar as interações entre Esti e Ronit com tanto calor como a frieza da reticência, e o filme não demora muito a confirmar tais presunções. Em tempos, as mulheres foram amantes e parece que as labaredas da sua atração não se extinguiram totalmente. O regresso de Ronit é o sopro necessário para as reacender.

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O uso de imagética fogosa para caracterizar “Disobedience” é uma escolha um tanto ou quanto contraditória para com o tom da obra. Mais do que um drama romântico que explode em fogosa paixão, esta experiência cinematográfica está mais perto de um estudo de personagem e comunidade a lume brando. A temperatura vai subindo muito gradualmente, até chegar a um ponto de ebulição que, não obstante a sua inevitabilidade, é curiosamente gentil. Veja-se a coleção de inúmeras cenas passadas no interior da casa de Dovid e Esti, um autêntico labirinto de repressão emocional, onde cada canto esconde o fantasma de um desejo abandonado ou a dolorosa ferida deixada pela ausência de alegrias que agora apenas vivem em memórias mal lembradas.

Por muito eletrizante que uma cena de refeição em que Ronit confronta verbalmente as hipocrisias da comunidade que viu nascer e chegar à idade adulta, o conflito de “Disobedience” é mais usualmente internalizado pelas personagens e pelos cineastas que nos contam suas vidas. Só no hábito e imagem de Ronit a fumar existe uma impiedosa fricção entre a ideia do que uma boa mulher judia devia ser e o obstinado contraexemplo contido na atitude da fotógrafa. O mesmo ocorre nos mais mínimos detalhes do filme, como as roupas soturnas das personagens ou os penteados e perucas do elenco feminino, onde linhas de tradição ancestral negoceiam precariamente noções de modernidade e liberdade pessoal que são tão tentadoras como contraditórias aos dogmas que formam a base da vida comunitária.

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Todo o elenco é sublime.

O mais interessante de tudo isto, é o modo como Lélio e sua equipa não caem no habitual modelo de tais narrativas, onde a comunidade que oprime é abertamente condenada pelo mero olhar da câmara. Em “Disobedience”, o realizador chileno convida o seu espectador a participar numa meditação sobre a importância de comunidades, sua possibilidade para o bem e para o mal, seu papel essencial na vida de muitos e seu papel venenoso na vida de tantos outros. Na vida real, o conforto da família e do lar é sempre uma receita que contém algumas pitadas de dor, mas o cinema raramente tenta representar essa variedade de sabores, preferindo abordagens onde a disfunção total ou a perfeição dominam. Este filme tenta explorar o balanço desses ingredientes, não oferecendo conclusões fechadas ou vácuos mecanismos de apaziguamento.

Há quem vá encontrar nessa abordagem, imperdoáveis doses de ambiguidade e intransigência, mas “Disobedience” é um filme mais rico por isso mesmo. Até a sua execução formal reflete isso, optando por uma modéstia quase absoluta, onde os referidos detalhes de figurinos podem existir sem chamar a atenção, por exemplo. A fotografia tudo subsume a permutações de cinza e castanho, fazendo dos subúrbios londrinos um mundo de contida elegância e atmosfera solene. Somente na banda-sonora é que Lélio deixa que o filme seja dominado por algum impulso mais dramático, sugerindo o melodrama, mas também indicando algo próximo de uma sinfonia modernista sobre as tempestades interiores que flagelam o coração das personagens.

De forma semelhante a essa dinâmica formalista, as prestações do elenco principal de “Disobedience” são tesouros de modéstia, cuja opacidade reprimida é pontualmente rasgada por momentos de claridade emocional tão magnífica que é quase dolorosa de testemunhar. Em Ronit, Rachel Weisz pega numa personagem cujas provocações parecem incontornavelmente diretas, e encontra a sua idiossincrasia pessoal nas entrelinhas dessas mesmas instâncias de liberdade por meio de rebeldia. Alessandro Nivola faz de Dovid um homem de contradições e surpresas, um puzzle difícil de decifrar, mas sempre completamente credível na sua integridade e amor pelas mulheres que dominam a sua vida.

Com isso dito, Rachel McAdams é, apesar de um sotaque inglês notoriamente forçado, a arma secreta do filme. Nas mãos da atriz, Esti serve de complemento e contraponto à narrativa de Ronit, acabando mesmo por roubar-lhe o filme e afirmar-se como a verdadeira protagonista. Afinal, se “Disobedience” é um filme sobre as complexidades do abandono de uma comunidade, é Esti e não Ronit quem tem de se debater com elas. Ronit fez a sua escolha muito tempo antes do filme nos abrir uma janela às vidas destas mulheres. Agora é a vez de Esti escolher e, tal como já se tornou claro, ficar ou sair são possibilidades igualmente complicadas, que envolvem tanta dor como potencial felicidade.

Disobedience, em análise
Queer Lisboa Disobedience critica

Movie title: Disobedience

Date published: 2018-09-20

Director(s): Sebastián Lelio

Actor(s): Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola, Allan Corduner, Bernice Stegers, Clara Francis, Lia Cohen, Nicholas Woodeson, Anton Lesser, Liza Sadovy, Alexis Zegerman

Genre: Drama, Romance, 2017, 114 min

  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 85
83

CONCLUSÃO

“Disobedience” é um filme difícil e emocionalmente avassalador, mesmo que os instrumentos usados pelos seus criadores para mexer no coração do espetador sejam a subtileza e a modéstia. O elenco é merecedor de prémios e a banda-sonora é uma maravilha inesperada. Lélio continua a ser um dos grandes cineastas dos nossos dias a retratar personagens complicadas, cujos conflitos e inquietações são raramente externalizados.

O MELHOR: Rachel McAdams.

O PIOR: Apesar da construção visual do filme ser amplamente justificável de um ponto de vista concetual e temático, há algo entediante e tristemente convencional na solenidade forçada das suas imagens. Pelo menos em algumas instâncias, seria bom haver uns toques de variação.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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