"Rafiki" | © Big World Cinema

Queer Lisboa ’19 | Rafiki, em análise

Rafiki” brilhou no Festival de Cannes do ano passado e veio a gerar grandes polémicas no Quénia. Este filme é também uma das obras mais antecipadas a marcar presença no Queer Lisboa 23.

Em 2018, “Rafiki” fez História como a primeira produção queniana a ser exibida no Festival de Cannes. O drama romântico sobre duas jovens lésbicas a lidarem com um clima político e doméstico homofóbico fez furor entre a crítica. Tal aclamação terá levado a obra a ser vista por especialistas como a escolha lógica do país para se candidatar para o Óscar de Melhor Filme numa Língua Estrangeira. Só houve um problema. Depois da sua estreia na Croisette, “Rafiki” foi banido pelas autoridades quenianas por promover ideais LGBT e celebrar o lesbianismo. Entenda-se que o Quénia é um dos países em que pessoas ainda podem ser presas se forem descobertas numa relação homossexual.

Inicialmente, fizeram-se tentativas de censurar o filme e a realizadora Wanuri Kahiu foi pressionada para alterar o final da história, dando-lhe uma resolução mais punitiva para as protagonistas. Quando ela recusou, “Rafiki” foi proibido e decretou-se que quem quer que fosse encontrado em posse de uma cópia do filme poderia ser punido com uma pena de até 14 anos de prisão. Considerando a atenção crítica que o filme havia recebido na Europa, as notícias espalharam-se rapidamente e assim se formou uma cause célébre para várias associações mundiais da luta pelos direitos LGBT. Face a tudo isto, Kahiu não fez por menos e pôs o estado queniano em tribunal.

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Há pouco mais de um ano, a 21 de setembro de 2018, a proibição de “Rafiki” foi revogada pelo Supremo Tribunal do Quénia e a obra teve direito a ser exibida durante sete dias nos cinemas nacionais. Apesar de sessões esgotadas e respeito internacional, o filme acabou por não ser selecionado como representante do Quénia para os Óscares. Considerando a luta mediática entre Kahiu e as instituições estatais que fazem tal seleção, isto não é de admirar, mas não deixa de ser um triste fado para o filme. Uma coisa é certa, se tivessem escolhido “Rafiki”, o Quénia possivelmente teria celebrado a sua primeira nomeação para os Óscares e limpado a má imagem que ficou do país nas mentes de muitos círculos cinéfilos.

Enfim, não vale a pena chorar sobre leite derramado. Neste momento, o melhor que temos a fazer é celebrar o filme, se é que merece ser celebrado. “Rafiki” ganha o seu título do termo suaíli para amigo, um eufemismo muito usado pela comunidade LGBT queniana para falar dos seus companheiros amorosos. A narrativa incide sobre este mesmo tipo de relação, uma flor de romance nascida entre uma selva de conservadorismo e opressão cultural e religiosa. As duas heroínas de tal paixão são Kena e Zika, as filhas adolescentes de dois políticos locais que, quando o filme começa, estão em plena campanha eleitoral.

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É através dos olhos de Kena que o espectador experiencia “Rafiki”, olhos esses que procuram com avidez a visão de Zika e sua cabeleira rosada. Tal comentário não é algo anódino, pois este é um filme que vive por e para a cor. Como nos é mostrada, Nairobi é uma cidade que pode existir em epítetos de pobreza, mas entre o degredo há maravilha e há beleza. Há as pessoas que são belas, os padrões, os tecidos coloridos, as luzes de clubes noturnos e as tintas com que amantes se pintam para celebrar a euforia da noite.

No dia-a-dia, há uma natureza garrida nesta cor, sempre a preencher a imagem com montanhas de informação visual em jogos de contraste. Trata-se de algo belo, mas também é algo cansativo para a vista. Isso não é uma fragilidade ou um erro, mas sim um gesto deliberado da realizadora. Dizemos isto, pois, nas cenas em que Kena e Zika conseguem estar sozinhas, a tempestade cromática acalma-se para dar lugar a uma paleta mais pastel, mais suave e mais sedutora. A realidade pictórica é transmutada pelo sopro do amor. De facto, até os ritmos do filme e seu trabalho sonoro são abalados pelo poder da intimidade das protagonistas e a linearidade é sacrificada para dar lugar ao formalismo impressionista.

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Como dá para ver no Queer Lisboa, o cinema LGBT+ tende a preferir estéticas realistas e envereda por um discurso social que afeta a sua própria abordagem formal. Não há nada de errado com o fenómeno, mas a repetição depressa se torna enfadonha. A especificidade audiovisual de “Rafiki” é como uma lufada de ar fresco neste contexto e muitos aplausos temos de dedicar aos cineastas responsáveis por tal feito. Parabéns pela realização de Wanuri Kahiu, parabéns pela fotografia de Christopher Wessels, pela montagem de Isabelle Dedieu e a sonoplastia de Noemi Hampbel.

Tão primorosa é a sua execução formal, que nos dói ter de criticar negativamente o resto de “Rafiki”. O argumento levanta fascinantes questões sobre comunidade e dinâmicas familiares no início, mas a segunda metade da história parece a fórmula do costume neste tipo de narrativas lésbicas. Além dessa componente perfunctória, há ainda questões de atuação, um indicativo que os talentos formalistas de Kahiu não se traduzem em boa direção de atores. Por variadas razões, “Rafiki” é um filme a ser celebrado, mas, em relação à sua totalidade, temos de nos ficar por aplausos sentados. O filme é bom, é valioso, é importante e é urgente, mas não merece uma ovação de pé.

Rafiki, em análise
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Movie title: Rafiki

Date published: 2019-09-27

Director(s): Wanuri Kahiu

Actor(s): Samantha Mugatsia, Sheila Munyiva, Neville Misati, Nice Githinji, Charlie Karumi, Muthoni Gathecha, Jimmy Gathu, Nini Wacera, Dennis Musyoka, Githae Njogu

Genre: Drama, Romance, 2018, 83 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Rafiki” é uma produção tão polémica como bela, um romance lésbico do Quénia pintado em cores vivas e com delicadeza formal. Wanuri Kahiu mostra aqui os seus talentos como uma das realizadoras mais promissoras da atualidade, mas questões de guião e elenco roubam o filme da grandiosidade a que podia ter chegado.

O MELHOR: A perspetiva subjetiva como entendida em questões de fotografia e montagem. As cores de “Rafiki” são deveras sublimes.

O PIOR: Os caminhos clichés por onde a história se envereda. Mesmo assim, a obra quase se redime nessa frente com um belíssimo gesto final.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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