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Rocketman, em análise

Rocketman” traz a vida e algumas das melhores canções de Elton John ao grande ecrã na forma de um exuberante musical com Taron Egerton no papel principal.

É trágico que, não obstante os seus méritos próprios, “Rocketman” viverá sempre na sombra de “Bohemian Rhapsody”. Afinal, não só são os dois projetos extremamente semelhantes a uma primeira vista – filmes biográficos sobre ícones queer da indústria musical britânica dos anos 70 e 80 – como até partilham personagens, um realizador e um figurinista. Isto é particularmente triste, pois, em quase todos os aspetos imagináveis, a obra sobre Elton John é superior ao filme que valeu um Óscar a Rami Malek. Aliás, é aí que as diferenças entre os dois projetos se começam a evidenciar, pois os filmes representam abordagens extremamente diferentes da mesma premissa biográfica. Por isso mesmo, seria injusto para com “Rocketman” reduzir esta crítica a uma comparação simples e direta com esse outro filme. Esqueçamos então “Bohemian Rhapsody” e celebremos a glória deste novo sonho de música, cinema e lantejoulas.

Escrito por Lee Hall, realizado por Dexter Fletcher e produzido com a colaboração do próprio Elton John, “Rocketman” pertence a esse tão enfadonho subgénero, a cinebiografia musical. No entanto, dizer que “Rocketman” segue as fórmulas do género seria um tanto ou quanto erróneo. Por um lado, é certo que os momentos-chave que vemos repetidos ad nauseum nestes filmes também têm lugar na narrativa desta obra, desde as turbulentas cenas domésticas com a família até à espiral autodestrutiva por meio de hedonismo descontrolado. Por outro lado, estes ditos momentos surgem no contexto de um musical cuja perspetiva é assumidamente subjetiva, imprecisa, exagerada e fantasiosa. “Rocketman” está mais perto de um musical clássico do que das cinebiografias de outros músicos famosos.

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Apesar de ser um número musical mais tradicional e diegético, “Your Song” representa um dos pontos altos desta fantasia musicada cheia de artifício e sentimentalismo sem vergonha.

Para algumas pessoas, isso poderá parecer um detalhe de pouca importância, mas faz toda a diferença. Longe de adotar a estrutura de uma biografia, “Rocketman” é uma memória emoldurada por uma sessão de terapia em grupo numa clínica de desintoxicação. Logo aí, o filme posiciona-se como um estudo de personagem focado na sua figura central enquanto ser humano e não na sua lenda enquanto um ícone pop. “Rocketman” não é um sumário da carreira de Elton John. “Rocketman” é a história de um homem carismático e talentoso que, apesar de chegar rapidamente à fama e ao sucesso, sofre de uma enorme falta de autoestima, uma necessidade de afeto e validação quase patológica e uma triste tendência para a dependência de drogas.

Com outro sujeito e outro tom cinematográfico, tal história, por muito bem estruturada que fosse, poderia facilmente cair num poço de miserabilismo intragável e melodramático. O génio de Hall e Fletcher é o modo como eles minaram a persona ostentosa de Elton John, a celebridade, estrela, o ícone camp e o músico, para injetar vitalidade tonal ao seu estudo de um homem em crise. Em muitas ocasiões, “Rocketman” mergulha no passado de Elton John através das reminiscências dele, em lágrimas na sessão de terapia, mas o que encontramos não são flashbacks normais. O que vemos são cenas estilizadas, com uma pátina de glamour operático e nem uma ponta de realismo, sempre prontas a explodir em números musicais ao estilo de um exuberante jukebox musical.

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Para fãs de Elton John, isto poderá ser frustrante. Cenas de concerto são raras e só há duas reproduções de famosas performances gravadas do artista. A voz do cantor nem tem direito a aparecer uma única vez ao longo da narrativa, sendo que o trabalho vocal é dividido pelo elenco e nenhum dos atores, nem mesmo Taron Egerton, tentam reproduzir mimeticamente o registo vocal de Elton John. As músicas aparecem assim como ferramentas para contar a história e refletir a realidade emocional que a personagem central lhes associa. A relação que o público possa ter com essas mesmas melodias não é de interesse ao filme. “Your Song”, por exemplo, não nos surge somente como a canção que ajudou Elton John a catapultar-se para o estrelato, mas sim como a manifestação musical do laço de amor que une o cantor e o seu letrista e melhor amigo, Bernie Taupin.

Tais momentos são muitos e muito gloriosos e refletem o equilíbrio tonal difícil que “Rocketman” conjura. Não falamos só do potencial melodrama do arco narrativo do homem em busca de salvação em conjugação com o espetáculo de entretenimento. Nas cenas da memória, há uma necessária e constante negociação a ocorrer entre o artifício delirante e a realidade emocional que serve de esqueleto ao filme. As interações mais conflituosas entre Bernie e Elton mostram bem esta dinâmica, exigindo aos dois atores uma grande flexibilidade de registo tonal e dramático. Num gesto delicioso, os instantes elétricos antes de um concerto servem de palco para um confronto entre os dois amigos, um deles vestido como uma espécie de galo burlesco. Eles discutem e magoam-se, mas mostram rapidamente que se adoram e entendem, pedem o perdão um do outro com um toque e duas frases curtas.

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Uma salva de palmas para Taron Egerton.

É assim que amigos comunicam e os dois atores telegrafam toda uma história pessoal partilhada sem terem de recorrer a diálogo expositivo. De facto, o elenco é a arma secreta do filme, mesmo que quase ninguém se assemelhe às pessoas que estão a interpretar. Bell, apesar de não ter as melhores cordas vocais para estas canções, traz grande transparência emocional ao seu retrato de Bernie Taupin. Richard Madden é uma fonte de desavergonhado erotismo como o manager e amante de Elton, John Reid, e é bem cortante quando tem que ser. É claro que a revelação de “Rocketman” é Taron Egerton. Ele não se parece com Elton e não o tenta imitar muito, seguindo os conselhos do próprio cantor que incentivou a criar uma caracterização original sem base em pura mimese. O resultado é extraordinário, sendo o tipo de performance que, num mundo justo, instantaneamente torna um ator numa estrela.

Egerton mostra-nos a dolorosa realidade de alguém carismático e bem-sucedido que é, mesmo assim, incapaz de se amar e aceitar a si próprio. Sem querer levar os nossos elogios a extremos indevidos, o ator oferece aqui um dos melhores retratos de alguém sem autoestima no cinema mainstream recente. Além disso, ele é um intérprete musical nato, tanto em termos de conseguir atuar através das canções como ao nível da sua expressividade física em coreografias exuberantes. “Rocketman” não é perfeito, estando pejado de problemas de ritmo e montagem meio indisciplinada, algumas das suas imagens são clichés ou demasiado ilustrativas e o sentimentalismo da narrativa é ocasionalmente sufocante. Tudo isto é certo, mas Fletcher e Egerton, com a ajuda de uma equipa formidável, compensam estas fragilidades e até tornam algumas delas em méritos do filme. Afinal, sentimentalismo e um toque de indisciplina e exagero são algo obviamente apropriado a um retrato de Elton John. Em conclusão, uma salva de palmas para “Rocketman”!

Rocketman, em análise
Rocketman

Movie title: Rocketman

Date published: 31 de May de 2019

Director(s): Dexter Fletcher

Actor(s): Taron Egerton, Jamie Bell, Rochard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Tom Bennett, Matthew Illesley, Charlie Rowe, Stephen Graham, Celinde Schoenmaker, Harriet Walter

Genre: Drama, Biografia, Musical, 2019, 121 min

  • Cláudio Alves - 80
  • Rui Ribeiro - 90
  • Catarina d'Oliveira - 75
  • Maria João Bilro - 75
  • Marta Kong Nunes - 80
  • Maria João Sá - 75
  • José Vieira Mendes - 70
  • Luís Telles do Amaral - 79
  • Daniel Rodrigues - 45
  • Inês Serra - 80
75

CONCLUSÃO:

“Rocketman” é o raro filme biográfico que trata o seu sujeito como uma personagem cinematográfica e como um ser humano ao invés de como um símbolo ou um ícone popular. Parte do engenho do projeto depende da sua conceção como um jukebox musical de linhas clássicas e desavergonhada aceitação dos elementos camp e sentimentalistas inerentes à figura de Elton John e à história da sua vida. Com isso dito, como adota uma abordagem antirrealista e subjetiva, consegue circum-navegar problemas de exatidão histórica em nome do drama e da emoção. Os atores são brilhantes e, juntamente com todo o fausto da produção, conseguem ofuscar as fragilidades presentes.

O MELHOR: Egerton, os figurinos, os números musicais, o modo como o filme não demoniza a exuberância de Elton John ou faz julgamentos morais sobre o seu hedonismo ou sobre a sua sexualidade. Tal pode parecer pouco, pois, afinal, estamos no século XXI, mas, infelizmente, o cinema mainstream de Hollywood tem-nos vindo a provar uma e outra vez que tal progressismo não é garantido.

O PIOR: Há uma enorme arritmia estrutural na segunda metade do filme. O casamento de Elton John com uma mulher, por exemplo, durou anos na vida real, mas no filme dura duas cenas rápidas. A cronologia de “Rocketman” é, de forma geral, um caos difícil de decifrar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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