8 1/2 Festa do Cinema Italiano: Sangue del mio sangue, em análise

Em Sangue del mio sangue, Marco Bellocchio retrata dois exemplos de injustiça institucional, com a igreja católica do século XVII e um controlador vampiro a serem os principais alvos da sua crítica.

Na mais recente obra do autor italiano Marco Bellocchio, o realizador constrói um filme com uma estrutura bipartida, duas histórias separadas pelo tempo e ligadas geograficamente que se confrontam numa explosiva conclusão. Explosiva, na medida em que qualquer obra tardia de Bellocchio é explosiva, sendo que o realizador de Sangue del mio sangue, ao ser um dos principais preponentes do tipo de teatralidade curada que marca muito do cinema italiano, tem uma tendência em pegar em histórias de forte melodrama e intensidade emotiva, e as esvair de energia, deixando para trás carcaças que mantêm traços melodramáticos e uma sensibilidade estilística que já cheira a mofo.

De modo mais específico, a narrativa de Sangue del mio sangue começa em Bobbio no século XVII, quando um aristocrata chega ao convento de Santa Clara depois do suicídio do seu irmão gémeo, um padre que havia sido seduzido por uma jovem freira. Essa mesma sedutora, a irmã Benedetta, é acusada de bruxaria, numa violenta e desesperada tentativa dos poderes religiosos imporem a sua ordem, revelando a sedução como obra de Satã e assim desculpabilizando o padre do seu suicídio.

sangue del mio sangue

Na segunda parte do filme, observamos o mesmo edifício do convento, agora na contemporaneidade. Depois de ter sido uma prisão, o velho convento acabou por se tornar a habitação do Conde Basta, um ancião vampiro que controla a cidade e que se vê ameaçado pela eminente venda do convento de Santa Clara a um milionário russo. De tragédia de época, o filme passa a um registo de peculiar comédia negra, com os dois fios narrativos a culminarem num clímax tão mortífero como esperançoso, especialmente no caso de Benedetta, cuja triste história se assemelha grandemente à da Freira de Monza ou mesmo ao horrendo final da Condessa de Bathory.

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A unir estas duas metades estão numerosos paralelos temáticos, sendo que o maior de todos eles é o que consiste numa crítica a instituições de poder italianas. No século XVII, Bellocchio apresenta a ensandecida violência do dogma católico no tempo da Contrarreforma, enquanto no presente, o seu foco está numa cidade congelada no tempo pelos desejos conservadores de um poderoso senhor das sombras. Para uma audiência será fácil descartar as injustiças passadas como uma distante realidade já ultrapassada, mas a narrativa presente é muito mais difícil de ignorar, com a sua simbólica crítica à corrupção endémica das estruturas de poder italiano e seu fascinante retrato de uma cidade povoada por maníacos ensandecidos, levados à loucura pelo sufocante controlo de um déspota sobrenatural, que mais parece um senhor da máfia que Drácula. No último plano do filme, Bellocchio parece sugerir outro tipo de autoridade institucional, a polícia e o Estado, que, pelo menos na visão do autor, parecem não ter qualquer poder ou consequência face à igreja ou aos mundos de corrupção e crime organizado.

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Em termos mais formais, Sangue del mio sangue continua a mostrar os mesmos tipos de polidas técnicas a que Bellocchio tem acostumado os seus seguidores. A fotografia, por exemplo, é rica em teatrais jogos de chiaroscuro, que conferem uma qualidade pitoresca ao passado e uma desconcertante negrura ao presente. Apesar da sua beleza, quando emparelhada com figurinos e cenários francamente desinspirados, esta abordagem fotográfica depressa se torna monótona, sem cor ou interesse composicional que confira alguma variação. Apenas algumas estranhas escolhas musicais conseguem resgatar a audiência das profundezas da sonolência e apatia formalista, com uma cover de “Nothing Else Matters” alguns momentos da narrativa com sua etérea musicalidade coral. De resto, há que referenciar a edição de Sangue del mio sangue, cujo vagaroso ritmo rapidamente desafia a paciência do mais generoso dos espetadores.

As limitações desta obra há que esclarecer, não se reduzem a questões de estética e ritmo, sendo que a opacidade narrativa e simbólica de Bellocchio pode ser incrivelmente enfurecedora, especialmente para uma audiência que não esteja disposta a seguir cegamente a proposta do autor, ou que não consiga perder-se por entre a já mencionada monotonia formal de Sangue del mio sangue. No entanto, é o estranho tratamento das personagens femininas que merece particular atenção. Muito promovido como uma apologia da resiliência da mulher italiana face às injustiças institucionais da igreja católica de outras épocas, este filme demonstra uma imensa recusa, ou incapacidade, em ver as suas personagens femininas como pouco mais do que cifras, sempre belas ou cómicas, mas sempre cifras que nunca são tratadas com a mesma nobre humanidade das suas contrapartes masculinas. Repare-se numa cena em que Benedetta é interrogada por um grupo de hostis homens da igreja. A situação pode sugerir a Joanne d’Arc de Dreyer, mas Bellocchio nunca concede à sua injustiça o privilégio da aproximação ou da mera empatia humana. Não é tanto ativa misoginia como é uma preocupante miopia, o que pode ser ainda mais perigoso.

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Como consequência, apesar da importância estrutural da sua personagem, Lidiya Liberman nunca consegue fazer nada de particular interesse com Benedetta e sua altiva resistência. Com exceção das prestações de Federica Fracassi e Alba Rohrwacher, cujo registo tentativamente cómico oferece uma agradável idiossincrasia tonal, a primeira parte é, na verdade, um poço de sufocante banalidade no que diz respeito ao elenco, com ninguém a eletrizar o ecrã, mesmo com um argumento que poderia ter sido, noutras ocasiões, potentemente galvanizante. Na segunda secção narrativa, ocorre o inverso, com a maior parte do elenco a cair na peculiar indulgência do exagero, parecendo quase entrar num registo de Commedia del’arte. Mas, é também na segunda parte que temos a mais extraordinária prestação do filme, a de Roberto Herlitzka como o vampírico protagonista. Na sua elegante postura e ponderada forma de discursar e se mover, Herlitzka faz da sua personagem uma presença magnética que, ironicamente, é também a criatura mais fortemente humana de todo este triste cortejo de seriedade teatral.

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Sangue del mio sangue é assim uma obra de respeitável densidade temática que não deixa de ter uma montanha de perniciosas fragilidades. Depois de se experienciar a totalidade do filme, a primeira metade parece ser uma repetição de muitos temas e abordagens já previamente massacradas na filmografia do autor, enquanto a segunda, apesar de ser monumentalmente mais interessante, peca por um certo subdesenvolvimento, sendo que talvez merecesse ter sido o foco de um completo filme e não apenas metade de um. A inesperada conclusão da narrativa, consegue salvar Sangue del mio sangue do triste destino de ser uma obra completamente esquecível e desnecessária, mas, no seu presente estado, este é um filme que terá pouco apelo para quem não for já um fã devoto da obra de Bellocchio.

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O MELHOR: A nobre prestação de Roberto Herlitzka.

O PIOR: A entediante forma que, apesar de bela, é imensamente banal em tudo que não e a sua estranha música.



Título Original:
 Sangue del mio sangue

Realizador:  Marco Bellocchio
Elenco: Roberto Herlitzka, Pier Giorgio Bellocchio, Alba Rohrwacher

Drama | 2015 | 106 min

sangue del mio sangue

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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