“Si c’était de l’amour” | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Si c’était de l’amour, em análise

Vencedor do Teddy para Melhor Documentário com temas LGBTQ+ na Berlinale de 2020, “Si c’était de l’amour”, também conhecido como “If It Were Love”, é um dos melhores filmes em competição no 17º IndieLisboa.

Emoção é locomoção. O sentimento mexe-nos a alma e o corpo, faz músculos entesar, muda a expressão e propulsiona-nos pelo espaço. Por um gesto, por um toque, assim se expressam os desejos que circulam pela mente e inebriam o coração. Nesse sentido, toda a interação é como uma dança, corpos num relacionamento que é antagónico ou não, próximo ou não, recíproco ou não. No entanto, é sempre belo de se ver. Essas paixões explodidas em movimento, essa folia expressa através da cinética do corpo humano, essa energia nua.

Trata-se do perfeito sujeito para o palco. Para a câmara também, tal como nos comprova o mais recente trabalho do cineasta austríaco Patric Chiha. Há quatro anos, ele maravilhou-nos com os seus “Irmãos da Noite” e hoje, volta a maravilhar-nos, desta vez com o seu mais perfeito tratado sobre a expressividade do movimento. “Si c’était de l’amour” é um híbrido de teatro e de cinema, tendo sido desenvolvido a partir de uma performance da coreógrafa e encenadora Gisèle Vienne.

si c'etait de l'amour critica indielisboa
© IndieLisboa

A premissa do projeto é simples. Nos anos 90 desenrola-se uma rave, noite de festa e de êxtase pela qual duas dezenas de jovens se deixam levar, rendendo-se à magia da dança coletiva. Contudo, não se trata somente de uma festa encenada. Um dos elementos mais importantes do engenho teatral é que os corpos não se movimentam em tempo real. Eles estão suspensos no momento prolongado, uma câmara lenta feita com a tensão do organismo e não com o efeito na mesa de montagem. É um transe tornado num quadro abstrato.

Convém, contudo, dizer que “Si c’était de l’amour” não é um mero exercício de performance filmada. Chiha constrói todo um engenho cinematográfico com base no trabalho dos vinte bailarinos, capturando ensaios e récitas com abordagens visuais em constante mutação. Além disso, a câmara não se cinge a filmar um que um espetador de teatro poderia ver. Ela participa na dança e interage com os corpos em cena, fragmenta-os e deturpa-os. Por vezes até contrasta seu irrequieto borburinho com um toque de inusitada estaticidade.

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O realizador e sua câmara também se aventuram pelos bastidores e pelos diálogos da companhia. Eles assim retratam como o teatro é templo da comunidade, onde os artistas se tornam família sob a alçada do proscénio. Sem violar a intimidade dos bailarinos, o filme disseca o seu processo, examina o modo como cada um concebe a figura que interpreta em palco. Todas as performances são diferentes, mas os âmagos de cada dançante mantêm-se, assim como as histórias nunca verbalizadas que lhes vão na alma em tempo de espetáculo.

Há um rapaz transgénero que se deixa seduzir por um fascista com desejos reprimidos. Um triângulo amoroso desdobra-se em cena e seu clímax é um meio ponto entre o orgasmo e o choro. Não há aqui nudez ou a exploração lúrida do sexo, mas há luxúria à flor da pele, uma necessidade de contacto e de companhia. É algo que transcende a excitação dos genitais e chega ao patamar do espírito. O toque é a comunhão máxima que podemos ter com outro ser humano, é pele contra pele fazendo uma só entidade de dois indivíduos.

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© IndieLisboa

Através da disciplinada coreografia dos bailarinos, um caos ordenado, Chiha concebe uma experiência de cinema que atrai o espetador, que o enfeitiça. Chegado o fim da obra, quase que nos sentimos envolvidos na rave que ilumina o ecrã, também nós parte dos toques saboreados entre jovens a transbordar de desejo. Com isso dito, o lirismo não nos é impingido à força. Chiha e Vienne fizeram uma sedução e não uma doutrina. Eles convidam-nos a cair nos devaneios cinematográficos, mas só nos estendem a mão. Cabe a cada espetador decidir se se deixa levar ou não, se se rende ou fica à cautela. Nós sugerimos a plena rendição.

Si c'était de l'amour, em análise
si c'etait de l'amour critica indielisboa

Movie title: Si c'était de l'amour

Date published: 2020-08-27

Director(s): Patric Chiha

Actor(s): Philip Berlin, Marine Chesnais, Kerstin Daley-Baradel, Sylvain Decloitre, Sophie Demeyer, Vincent Dupuy, Massimo Fusco, Núria Guiu, Rehin Hollant, Georges Labbat, Oskar Landström, Theo Livesey, Louise Perming, Katya Petrowick, Anja Röttgerkamp

Genre: Documentário, 2020, 82 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

Uma rave dos anos 90 torna-se num espaço para comunidade artística em pleno século XXI. Em câmara lenta cinética, Patric Chiha filma o processo de uma performance de dança, capturando a união dos bailarinos, a visão da encenadora, e a intoxicante energia do espetáculo final. Trata-se de um triunfo de cinema imersivo num modelo documental.

O MELHOR: A certa altura, o corpo em arrítmico movimento parece distorcer o tempo. A imagem aos saltos sugere uma cassete com a fita emaranhada, mas os solavancos que nos perturbam vêm todos do corpo. A câmara está estática, a luz imutável e só os bailarinos se mexem. Eles criam essas magias audiovisuais com o mais simples instrumento de todos – seu gesto.

O PIOR: Com somente 82 minutos o filme deixa a audiência a querer mais. Podíamos estar horas a saborear as delícias de “Si c´était de l’amour”.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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