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Skin – História Proibida, em análise

Skin – História Proibida” é uma cáustica história verídica de ódio e redenção, com Jamie Bell a dar uma prestação vulcânica no papel principal.

Em fevereiro deste ano, o realizador israelita Guy Nattiv ganhou o Óscar para Melhor Curta-Metragem pelo seu filme “Skin”. Essa curta é uma atrocidade sem medida, um conto contra o racismo que consegue ser racista por acidente, uma exploração superficial de problemas complexos e uma desgraça sensacionalista que está a dois passos do precipício do absurdo. Mesmo assim, sentimentalismo e boas intenções são formas fáceis de ganhar prémios em Hollywood e assim “Skin” consagrou-se com um Óscar. Enfim, dizemos tudo isto pois, apesar do que possa parecer, “Skin – História Proibida” não tem nada que ver com o “Skin” Oscarizado.

Há claras semelhanças temáticas entre os dois projetos e até algumas repetições de iconografia, mas as histórias são totalmente díspares. Nos tempos que correm, em que é normal vermos cineastas em início de carreira a expandir curtas-metragens da sua autoria, seria fácil supor que “Skin – História Proibida” era somente uma nova versão de “Skin”. Confessamos que esta mesma relação nos encheu a alma de expetativas negativas e que, talvez por isso, o filme se tenha revelado como uma agradável surpresa. Dizer isso sobre uma história de neonazis e skinheads pode parecer estranho, mas pelo menos não é uma repetição das alegorias incompetentes da curta-metragem.

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“Skin – História Proibida” é uma cinebiografia focada em Bryon ‘Babs’ Widner, um supremacista branco que se veio a arrepender das crenças e ações da sua juventude e abandonou a comunidade racista a que pertencia. Nos anos que tem vivido desde a decisão, Widner tem-se vindo a tornar numa espécie de ícone e exemplo. A sua história dá esperança aqueles que pensam que é possível redimir os fascistas extremistas que hoje em dia se tornam numa visão cada vez mais comum. Afinal, se ele conseguiu, outros também o hão de fazer. Pelo menos, essa possibilidade não é logo descartada.

O filme aborda o processo de separação entre este homem e todo o edifício de ódio que era a sua vida até então. Nattiv estrutura muita da narrativa através da relação amorosa entre Widner e Julie Price, uma história de amor que o terá motivado a separar-se dos supremacistas brancos e sua cultura de violência e brutalidade. Pelo menos, de um ponto de vista pragmático, vê-se que é impossível tomar uma vida pacífica e longe de conflito quando todo um círculo social se baseia no repúdio agressiva de valores sociais vigentes e na descriminação de enormes percentagens da população. O ódio, por outras palavras, é insustentável a longo prazo, a não ser que se escolha viver em constante combate e vilania para com aqueles que os rodeiam.

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Não que o cineasta seja cego às delícias sedutoras da retórica racista e sua asquerosa promessa de superioridade. Para tantos dos homens e mulheres que se resguardam em cobertores de preconceito e armaduras de escárnio, estas crenças dão propósito a uma vida errante e dão comunidade àqueles que não têm mais ninguém no mundo. Em algumas das suas passagens mais poderosas, “Skin” retrata como a promessa de família é um dos alicerces de todo este aparato ideológico. Para pessoas como Babs, os skinheads e supremacistas brancos, os neonazis e fascistas americanos são braços abertos prontos a acolhê-los e lhes dizer, talvez pela primeira vez na vida, que eles são especiais e merecem tudo aquilo que desejam. De mentiras se constroem castelos de ódio e maldade.

No entanto, quando não concordas com a ideologia que tudo orienta, és excluído e a exclusão não é pacífica ou isenta do derramamento de sangue. O romance de Widner e Price oferece a possibilidade de um futuro incompatível com o estilo de vida que ele tinha. Ao mesmo tempo, as demandas cada vez mais amorais dos seus amigos pesam sobre uma consciência muito flexível, mas não por isso inexistente. A dúvida é punida e parece que todas as tentativas de fugir são infrutíferas ou abortadas pela influência quase omnipresente do ódio racista. Uma tarde pacata entre família é transformada num pesadelo pelo aparecimento de convidados inesperados e uma viagem de carro inofensiva facilmente se torna numa procissão de horrores até aos confins do inferno. Com tudo isso dito, atente-se que o protagonista desta história não é nenhum herói. Nattiv simpatiza com as suas angústias, mas nem ele nem Jamie Bell o retratam sem as arestas mais aguçadas da sua personalidade e historial.

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Nas mãos do ator, Widner é uma tempestade de violência sempre pronta a rebentar, ora contra outros ou contra si próprio. Desde miúdo ele foi amamentado com o veneno da retórica fascista e o seu corpo é praticamente feito de racismo personificado. Isso é perfeitamente visível no modo como a pele de Widner se converteu num manifesto, cheio de símbolos e lemas da comunidade supremacista. Para ele, despir-se do mal é também despir-se da pele e isso é visto pelo processo laborioso de queimar a tinta subcutânea e trocar os desenhos do ódio por carne viva e eletrizada pela dor. Todos os atores são excelentes, com necessário e muito especial destaque para Vera Farmiga e Bill Camp como a mãe e pai improvisados para toda uma prole de combatentes na guerra da raça e da classe. Juntos, eles sugerem um Mefistófeles bifurcado entre força patriarcal e a promessa de gentileza de uma matriarca venenosa.

É, portanto, uma tragédia que o resto do filme nunca chegue aos calcanhares do elenco. De facto, o maior problema de “Skin” é o seu argumento, pois até a nível formalista o projeto merece reconhecimento positivo. Infelizmente, há uma relutância em confrontar as mais complicadas permutações da ideologia do protagonista. Teria sido proveitoso explorar mais a sua relação com o ativista afro-americano que o ajudou a reconstruir a vida, mas Nattiv parece sempre mais interessado em melodrama matrimonial e nunca se digna a humanizar qualquer personagem marginalizada pelos supremacistas brancos. Como outros projetos deste cineasta, “Skin – História Proibida” propõe-se a falar de racismo, mas não o faz além de um nível muito superficial e limitado, caindo nos mesmos erros de miopia filosófica que afetam as suas figuras mais odiosas.

Skin - História Proibida, em análise
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Movie title: Skin

Date published: 2019-10-03

Director(s): Guy Nattiv

Actor(s): Jamie Bell, Jeanette Macdonald, Vera Farmiga, Bill Camp, Louisa Krause, Zoe Margaret Colletti, Kylie Rogers, Colbi Gannett, Mike Colter, Mary Stuart Masterson, Russell Posner

Genre: Drama, Biografia, Crime, 2018, 118 min

  • Cláudio Alves - 60
  • Maggie Silva - 65
63

CONCLUSÃO:

Um elenco espetacular e atraentes soluções formais fazem de “Skin – História Proibida” uma elegante proposta biográfica. Contudo, um argumento míope desvaloriza o filme e evidencia as limitações do seu realizador. Nattiv tem grandes ambições e boas intenções, mas estas continuam a ser maiores que a sua capacidade enquanto artista.

O MELHOR: Jamie Bell, Vera Farmiga e Bill Camp.

O PIOR: As limitações do argumento no que se refere à sua exploração das políticas e filosofias do preconceito e do ódio que estão na fundação de todas estas comunidades de supremacistas brancos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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