Terry Gilliam vs Paulo Branco | Uma odisseia quixótica

A polémica em torno de The Man Who Killed Don Quixote continua acesa. Desta vez foi nos tribunais franceses que o conflito entre Terry Gilliam e Paulo Branco ganhou novas dimensões quixóticas.

terry gilliam paulo branco don quixote

A história de uma versão cinematográfica da personagem de D. Quixote edificada pelo visionário realizador Terry Gilliam remonta aos anos 90, se não até mais cedo. Mais precisamente, foi em 1998 que Gilliam, um antigo membro dos Monty Python, começou o processo de pré-produção para o seu muito antecipado The Man Who Killed Don Quixote. Dois anos depois, com uma produção orçamentada em mais de 30 milhões de dólares, o cineasta deu início às filmagens daquele que, a nível pessoal e artística, era o projeto da sua vida.

Com Jean Rocheford no papel do lendário aristocrata que luta contra moinhos, Johnny Depp como um executivo de marketing do presente e Vanessa Paradis no papel do principal interesse amoroso, esta reimaginação do mito quixótico mostrou ser um projeto amaldiçoado. Não queremos com isto sugerir nenhum tipo de fenómeno sobrenatural, mas o facto é que uma série de dispendiosas desgraças se abateram sobre a equipa de filmagens como inundações que destruíram cenários e equipamento, doenças que incapacitaram os protagonistas, problemas com seguradoras e uma série de conflitos financeiros que resultaram no pior pesadelo do realizador – o projeto foi cancelado.

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Tal foi o impacto para Gilliam que o realizador destroçado fez um filme sobre a tragédia do seu sonho cinematográfico e as inúmeras infelicidades que o deitaram por terra. Até hoje, Lost in La Mancha, estreado em 2002, é um dos melhores e mais comoventes documentários sobre as dificuldades de se fazer cinema que já passaram pelos ecrãs do mundo. Mesmo assim, Terry Gilliam não permitiu que essa triste elegia a um filme que nunca existiu se tornasse no inexorável ponto final desse projeto tão amado e, durante os anos seguintes tentou por várias vezes reiniciar a produção, escolhendo até elencos diferentes, sem nenhum sucesso. The Man Who Killed Don Quixote ganhou assim a fama de ser um filme morto e enterrado que nunca ninguém iria ver completo.

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Pelo menos era isso que todo o mundo da cinefilia internacional pensava quando, durante o Festival de Cannes de 2016, Terry Gilliam veio anunciar que finalmente iria começar a filmar o filme, agora produzido pelo português Paulo Branco e pela Alfama Films. Desta vez, o elenco principal seria formado por Michael Palin, um antigo colega de Gilliam nos Monty Python, Adam Driver e Olga Kurylenko, e a produção em si teria início em outubro do mesmo ano. Tudo parecia ir de vento em popa, em Portugal até já se começavam a preparar adereços e reunir figurinos para encher os backgrounds do filme.

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Em agosto, no entanto, toda esta maravilha onírica teve de novo um fim inesperado. Segundo Paulo Branco, o produtor achou que ainda não estava na altura exata para avançar com a produção e, tendo ele os direitos sobre todo o filme e a visão de Gilliam, mandou parar o projeto. Segundo Branco, isto era apenas algo temporário até todas as condições estarem preparadas para se dar mesmo início à rodagem do projeto. No entanto, quando já passava um mês da inicial data prevista para o início das filmagens, Gilliam veio a público, por meio de entrevistas televisadas e de redes sociais, mostrar o seu descontentamento com Paulo Branco. Quem leu e ouviu o que o cineasta britânico teve a dizer, presumirá que Branco comprou os direitos para um projeto que não tinha meios de financiar e que mentiu ao realizador.

Efetivamente, este conflito público levou a um corte absoluto de relações entre Terry Gilliam e Paulo Branco, que veio abertamente negar as acusações do ex-Monty Python. Pela sua parte, o realizador não deixou que a infeliz situação pusesse em causa o seu filme de sonho e começou a organizar maneira de que a produção tivesse novamente início. O resultado dos seus esforços foi uma parceria entre produtoras de quatro diferentes nacionalidades, a espanhola Tornasol, a francesa Kinology, a belga Entre chien et Loup, e, por fim, a Ukbar Filmes de Portugal.

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As filmagens tiveram início este ano e, entre abril e maio, houve mesmo uma passagem por território português para filmar algumas cenas de The Man Who Killed Don Quixote. O único problema nisto tudo é que Paulo Branco e a Alfama Films ainda detêm os direitos do filme e moveram um processo judicial, exigindo que a produção fosse forçada a parar. Esta passada semana, o Tribunal da Grande Instância de Paris divulgou a sua decisão. O contrato entre Branco e Gilliam mantém-se válido, mas o Tribunal não pôs nenhuma barreira legal ao realizador continuar as rodagens, nem chegou sequer a suspender a intervenção das outras quatro produtoras. Gilliam vai recorrer da decisão, segundo o que foi anunciado pela Ukbar Filmes.

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Pela sua parte, Paulo Branco e a Alfama Films parecem ver esta decisão judicial como uma incontestável vitória e não demoraram muito a divulgar um comunicado de imprensa em que sublinham como “a rodagem desse filme é por isso manifestamente ilegal e a sua exploração e/ou utilização das suas imagens não poderá, de modo algum, existir sem o acordo prévio da Alfama Films”. Gilliam e a sua equipa, que durante quase duas décadas pareceram verdadeiros D. Quixotes a debater-se contra os gigantes da indústria cinematográfica e sua relutância em financiar o projeto, caracterizam agora Paulo Branco como um homem a futilmente lutar contra os moinhos de vento.

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Apenas no futuro saberemos se The Man Who Killed Don Quixote chega por fim aos cinemas. Quem sabe, talvez seja desta que o filme de sonho de Terry Gilliam chega finalmente às salas de cinema?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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