"The Laundromat" | © Netflix

The Laundromat: O Escândalo dos Papéis do Panamá, em análise

The Laundromat: O Escândalo dos Papéis do Panamá” é o mais recente filme de Steven Soderbergh. A obra esteve em competição em Veneza e é protagonizado por Meryl Streep, uma coleção de perucas bizarras e o duo improvável de Antonio Banderas e Gary Oldman.

O caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções. Também se pode dizer o mesmo acerca de cinema medíocre, tal como “The Laundromat” bem nos comprova. As ambições de Steven Soderbergh são preciosas e urgentes, isso ninguém negará. Contudo, a obra que nasce desse miasma de indignação e vontade justiceira, de experimentalismos formalistas e opulência digital de Hollywood, tende a ser demasiado didática para o seu bem, demasiado incoerente, exagerado e desastrado. Há muito que apreciar no meio do caos, mas a forma geral do engenho é uma desilusão.

Só para se ter ideia da manta de retalhos que este filme é, basta fazermos uma breve listagem dos seus muitos registos tonais, temáticos e formais. Temos uma veia Brechtiana com um lado cómico, por onde Banderas e Oldman se desdobram em monólogos sem fim, tão arrogantes como oleosos. Depois, há um drama de investigação à la “Erin Brokovich” com Meryl Streep na liderança. Pelo meio esbarramos contra um drama jurídico e uma telenovela americana, um thriller de terror chinês e um conclusivo espetáculo de cinema metatextual que termina com Streep a retirar uma sucessão de caracterizações camaleónicas e a posar como a Estátua da Liberdade.

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Não há nada de enfadonho neste sermão cinematográfico, mas o aborrecimento só não se manifesta porque passamos a duração do filme de boca aberta face às loucuras estrambólicas de Soderbergh e companhia. De certa forma, esta é uma tentativa do realizador fazer o seu próprio “A Queda de Wall Street”, substituindo o cinismo de Adam McKay com calcinante sinceridade. Nesse aspeto, “The Laundromat” é um triunfo. Apesar de estar a sermonear, o filme jamais se deixa cair em ironias cruéis ou humor ácido. Há humanismo nas veias destes cineastas. Oxalá também houvesse um sentido de disciplina cinematográfica.

Enfim, chega de queixume. Vale a pena tentar delinear alguma da narrativa ao invés de somente falar de contraste tonais. Como o subtítulo português indica, “The Laundromat” conta a história do escândalo dos Papéis do Panamá. Os narradores desta peça de ganância virulenta são os próprios donos da Mossack Fonseca, cujos esquemas financeiros permitiram a inúmeros milionários e bilionários evadirem-se do fisco. A ferramenta da narração é assim usada para se falar diretamente para a câmara e tentar explicar o esquema bizantino de injustiças económicas que tornam possíveis tais sistemas.

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“The Laundromat” não se resume a explicar o porquê do escândalo, querendo também examinar a componente emocional do mesmo. Por detrás destes números, existem pessoas. Meryl Streep é uma dessas pessoas, dando vida a Ellen Martin, uma mulher cujo marido morre num trágico acidente de barco. A cena da morte é algo estrondoso, um píncaro de energia que nos apanha despercebidos. O modo como Streep nos mostra as várias permutações da perda também nos ajuda a compreender a dimensão sentimental do horror, o que, mais tarde, nos galvaniza face às injustiças financeiras que se abatem sobre Ellen.

Ela é uma vítima das intrigas da Mossack Fonseca, mas, ao contrário de tantas outras, Ellen Martin recusa-se ao silêncio e complacência. Como “The Laundromat” nos mostra, esta mulher de classe média está longe de ser a maior ou mais infeliz injuriada. De facto, apesar do filme nunca nos mostrar as desgraças dos mais necessitados, faz um bom trabalho ao exibir como a fortuna muitas vezes é um bilhete para o infortúnio. Empresários que se envolvem em esquemas obscuros na Ásia e são aniquilados pela própria ganância também contam. Famílias ricas, mas cheias de segredos e mentiras, são como que envenenadas pela promessa do cifrão. O dinheiro compra o luxo, mas é como uma toxina que mata a alma e corrompe o espírito.

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Estes contos são-nos apresentados em segmentos com os próprios títulos e introduções, conclusões e morais específicas. O filme mais parece uma coleção de curtas que uma narrativa sólida, sendo que até a estética de cada capítulo varia radicalmente. Como acontece com todas estas coletâneas de curtas-metragens em forma de longa-metragem, alguns dos capítulos são mais interessantes que outros e a comparação direta não beneficia ninguém. Adoraríamos ver Soderbergh a realizar um melodrama afro-americano depois do que ele nos mostra neste filme. Infelizmente, a brevidade das histórias e a sua própria qualidade só contribui para que “The Laundromat” seja uma espiral sem fim de frustração.

O mesmo acontece com os elementos individuais da fita, quer seja a nível interpretativo como formal. Os atores dão tudo o que têm, indo aos extremos que o guião exige, mesmo quando essas exigências são erróneas. Streep, por exemplo, é estupenda como Ellen Martin, mas vacila quando Soderbergh lhe dá um segundo papel, uma personagem que engloba em si alguns preocupantes estereótipos étnicos. Banderas e Oldman são delícias de comédia verbosa, mas raramente dão humanidade às suas caricaturas. O mesmo acontece com o resto do elenco, sempre a oscilar entre grandeza e desgraça. Há também a fotografia que se vai transfigurando de cena para cena, os figurinos que podem ser naturalistas numa cena e exageradamente glamourosos noutra. Tudo oscila e vacila, tudo treme com o peso da indignidade e a fúria justiceira de um realizador que quer desesperadamente educar o espectador e entretê-lo também.

The Laundromat: O Escândalo dos Papéis do Panamá, em análise
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Movie title: The Laundromat

Date published: 2019-11-11

Director(s): Steven Soderbergh

Actor(s): Meryl Streep, Antonio Banderas, Gary Oldman, James Cromwell, Sharon Stone, David Schwimmer, Jeffrey Wright, Marsha Stephanie Blake, Will Forte, Jessica Allain, Nonso Anozie, Matthias Schoenaerts, Rosalind Chao

Genre: Crime, Comédia, Drama, 2019, 95 min

  • Cláudio Alves - 55
  • Daniel Rodrigues - 40
  • José Vieira Mendes - 65
53

CONCLUSÃO:

“The Laundromat” é uma comédia política que zomba e demoniza justamente aqueles que, não contentes com o seu privilégio, se deixam levar pela ganância monstruosa. Os atores de Soderbergh bem tentam dar vida ao seu guião errático, mas o cineasta deixou-se cair num poço de indisciplina do qual não consegue sair.

O MELHOR: O monólogo final é o píncaro da ambição descontrolada do filme.

O PIOR: O monólogo final de Meryl Streep é também a parte mais gritada, didática e trapalhona de todo o exercício.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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