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The Terror: Infamy T2, primeiras impressões

The Terror” regressa para nos voltar a mordiscar a alma, mas desta vez trás na bagagem toda a teatralidade sobrenatural do horror japonês. Preparem-se para serem possuídos por “yūreis” e “yōkais“, num manipulativo e espicaçante primeiro episódio.

Quem diria que “The Terror”, uma expressão tão primitiva e vulgar na sua essência, pudesse, de facto, cativar-nos com a premissa de satisfazer a nossa curiosidade masoquista, à custa dos nossos medos e devaneios mais íntimos. Mas não o faz de uma maneira barata, existe uma certa eloquência cénica na montagem formalista deste terror, algo que fez catapultar a série antológica da AMC para patamares de excelência. E se a primeira temporada, foi capaz de invocar o charme clássico do isoterismo medieval das expedições marítimas malignamente perfumadas com aquela “Coisa” de John Carpenter, desta feita somos levados para os campos de internamento nipo-americanos de Roosevelt, no rescaldo do infame ataque a Pearl Harbor. Ou seja, quem não apanhou o fio à meada da anterior história baseada na obra homónima de “Dan Simmons”, pode agora embarcar numa narrativa fresca completamente independente.

The Terror Infamy T2 Corpo
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A AMC, tem, de resto, dado um “spin” interessante a estes contos inspirados em factos reais, mudando de equipa técnica e de elenco a cada nova iteração de “The Terror”, oferecendo-nos, assim, uma experiência audiovisual virgem, como que um “reboot” do show televisivo. Mas mais curioso ainda, é a explicação dada pelos produtores Alexander Woo (“True Blood”) e Max Borenstein (“Godzilla”) para a veiculação do terror no argumento histórico que, segundo os mesmos: “liberta o espectador de se sentir seguro por algo que aconteceu há muito tempo. O terror ajuda a tornar a experiência mais imediata, a perceber aquilo por que as personagens estavam a passar”. O conceito aterrorizador assume ainda mais relevância, não estivéssemos a invocar um período sombrio abafado para as entrelinhas da História Mundial, que levou ao encarceramento compulsivo dos chamados “Nisei” – comunidade de japoneses étnicos que residiam maioritariamente na Costa do Pacífico -, acusados de instigarem uma possível milícia armada de propaganda subversiva a favor do inimigo nipónico. Assim sendo, as incidências narrativas focalizam-se num jovem americano de ascendência japonesa, Chester Nakayama (Derek Mio), que vive com a sua família em Terminal Island.

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O nome da localidade soa àquele típico cliché fictício de um thriller psicológico sensacionalista, mas ficarão surpreendidos, tal como nós ficámos, ao descobrirmos que a dita ilha existiu mesmo, como resultado da junção artificial de duas ilhas menores: a “Rattlesnake Island” e a “Deadman’s Island”, situadas entre o porto de Los Angeles e o porto de Long Beach. Até há indícios de que uma comunidade de portugueses se tenha fixado por lá em 1899. Pois bem, o cenário de um pedaço de terra com uma miscelânea de culturas encapsuladas, não poderia servir as intenções maquiavélicas da trama com melhor provimento circunstancial, sobretudo se estivermos a divagar sobre espíritos embruxados e fenómenos sobrenaturais sinistros. E é mesmo por aí que, “The Terror”, inicia o seu rito demoníaco ao aprumar uma típica mulher nipónica com o seu kimono da paz, enquanto a paisagem assassina do crepúsculo vespertino aguarda que se ajoelhe perante ela num ato de obediência mortal. É assim que, pelas trevas, ficamos a conhecer a Sra. Furuya, que o penitente Chester recorda como a gentil herbanária a quem recorreu com um insólito pedido.

The Terror Infamy T2 Corpo
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A partir deste instante definidor, o seu espírito pesado passa a estar intimamente ligado ao espectro metafísico da vítima como uma maldição familiar. E é numa toada vagarosamente perturbadora e profana, com o suspense amarrado por arames, que Chester vai conhecendo laivos das aparições de um “bakemono” – uma criatura invisível que assume várias formas enfeitiçadoras. Mas não se pense que o enredo esteja sobrecarregado com estas intervenções fantasmagóricas, elas vão-se insinuando paulatinamente na inocência das vidas mundanas a gravitar na órbita de Chester, em justaposição com momentos de delicada intimidade pessoal. É nesta conjuntura simultaneamente abençoada e malograda que somos apresentados a Luz (Cristina Rodlo), uma destemida estudante de enfermagem mexicana, que vive com Chester uma paixão tão proibida quanto o segredo culposo que ambos carregam. E enquanto o círculo relacional da funesta Sra. Furuya vai inalando os ventos da sorte e do azar que se confundem mutuamente, porque a sorte de uns pode ser o azar de outros, também o guião se aproveita astutamente dessas agulhas individuais para tecer a sua crítica política e social às práticas abusivas e discriminatórias da época.

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E terminamos como começámos, na companhia de mais uma figura feminina misteriosa, Yuko (Kiki Sukezane), que suscitará as intrigas mais horrendas e estapafúrdias, o que poderá ser benéfico ou prejudicial, se a relevância histórica não perder a sua identidade com a presença hermética e ininteligível proveniente dos rompantes do folclore japonês. “The Terror: Infamy” é mais uma grandiosa produção televisiva, imensamente cobiçada pelo seu faustoso guarda roupa de época e toda a teatralidade do misticismo oriental, mas só o tempo dirá se sabe o que quer ser e se encontra o arquimédico ponto de equilíbrio da compreensão da realidade pela via da fabulação. Por agora, ainda não chamem os “ghostbusters”!!!

The Terror: Infamy
The Terror Infamy

Name: The Terror: Infamy

Description: A segunda temporada decorre durante a Segunda Guerra Mundial e centra-se num misterioso espectro que ameaça uma comunidade americana de origem japonesa, desde o seu lar no sul da Califórnia até à guerra no Pacífico, passando pelo campos de internamento. A segunda temporada representa um dos acontecimentos mais arrepiantes e importantes do século XX segundo David Madden, Presidente de programação original do AMC, SundanceTV e AMC Studios. O co-creador e productor executivo da segunda temporada é Alexander Woo (True Blood) e Max Borenstein (Kong: A Ilha da Caveira, Godzilla). Além de continuar a contar com Ridley Scott e Dan Simmons.

  • Miguel Simão - 85
85

CONCLUSÃO

“The Terror: Infamy” possui o pedigree visual e exibicional do primeiro, oferecendo-nos mais uma história credível potenciadora de um tipo de terror inteligente, que leva o seu tempo para se soltar gratificantemente.
É audaz e ambicioso com o conteúdo que aborda, misturando factos reais com elementos transcendentais culturalmente reconhecidos,
mas já dizia o ditado: “primeiro estranha-se e depois entranha-se”.

O MELHOR: Fusão do drama histórico com o sobrenatural; produção audiovisual luxuosa e inventiva; intervenientes de grande capacidade interpretativa.

O PIOR: Argumento com alguns pontos de interrogação; perigo em desvirtuar demasiado a realidade com o devaneio.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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