Óscares 2017 | Travis Knight

Com o magnífico Kubo e as Duas Cordas, o animador e realizador Travis Knight conquistou mais uma nomeação para a Laika, o estúdio de animação que fundou há pouco mais de uma década.

 


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Travis Knight durante as filmagens de KUBO E AS DUAS CORDAS (2016)

 

Como tantas outras crianças, na sua juventude, Travis Knight adorava filmes de animação, especialmente aqueles que continham histórias de fantasia e aventura. Esse gosto particular veio da influência maternal, sendo que, até durante a gravidez, a mãe do futuro realizador estava a ler a saga do Senhor dos Anéis e, quando o filho cresceu, ela levou-o e introduziu-o a uma série de semelhantes aventuras fantásticas como a saga Star Wars. Outra grande influência foi Ray Harryhausen, um pioneiro dos efeitos especiais e um mestre da animação stop-motion, cujos maravilhosos trabalhos em filmes de fantasia como Jasão e os Argonautas o tornaram num ídolo de Travis Knight.

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Apesar de um interesse musical que o levou, no princípio dos anos 90, a gravar um álbum de rap de que ninguém se lembra, Travis Knight estudou animação. Depois de completar os estudos, conseguiu um estágio nos Will Vinton Studios, onde se veio a especializar na animação stop-motion que tanto o cativava desde a infância. A sua carreira nesses estúdios durou uma década, e levou-o a trabalhar na série galardoada com um Emmy The PJs, assim como uma série de campanhas publicitárias.

 

 

É aqui que temos de esclarecer que, para além da sua vocação e paixão pelo cinema animado, Travis Knight é bem diferente do comum dos mortais devido a quem o seu pai é, Phil Knight, o bilionário dono da Nike. Dizemos isto porque não é qualquer animador que convence o seu pai a tornar-se um dos principais acionistas do estúdio para o qual trabalha. Eventualmente, o investimento de Phil Knight nos Will Vinton Studios foi tão grande que o seu fundador nominal acabou por perder o poder dentro da casa de animação que tinha criado de raiz. Polémicas à parte, com o seu foco em animação tradicional, nomeadamente stop-motion e claymation, os estúdios de Will Vinton estavam destinados à ruína com a crescente popularidade da animação completamente gerada por computador. Felizmente, Travis Knight, ao contrário de muitos outros herdeiros de fortunas americanas que procuram uma vida de celebridade, convenceu o pai a ajudá-lo a fundar os sucessores dos Will Vinton Studios.

 

Travis Knight durante as filmagens de OS MONSTROS DAS CAIXAS (2014)
Travis Knight durante as filmagens de OS MONSTROS DAS CAIXAS (2014)

 

Esses novos estúdios de animação são a Laika, um projeto nascido da imaginação e paixão de Travis Knight que, ao contrário de muitos outros profissionais do seu setor, tem recursos suficientes para, basicamente, criar o tipo de cinema que ama sem estar acorrentado à caprichosa vontade do público geral, seus gostos e preconceitos. Aliás, logo no primeiro projeto da Laika, o fundador, chefe e animador Travis Knight fez questão de deixar bem claro como os estúdios têm um incalculável valor pessoal para ele. Referimo-nos a Moongirl, uma charmosa curta-metragem realizada por Henry Selick, que é explicitamente dedicado à memória do irmão falecido de Travis.

 

 

Nunca virando as costas ao estilo de animação que o cativou desde infância, Travis Knight rapidamente levou a Laika à produção da sua primeira longa-metragem, uma adaptação de uma história de Neil Gaiman chamado Coraline. Convencer distribuidoras e produtoras a colaborarem no projeto foi difícil, inclusive por razões de sexismo institucional que fizeram muitos produtores rejeitar o filme devido à sua protagonista feminina, mas Knight lá conseguiu levar a melhor. Apesar das suas imagens saídas de pesadelos e de uma história com mais complexidade emocional que muitos filmes ditos para adultos, Coraline foi um relativo triunfo tanto com a crítica como com o público e valeu ao estúdio recém-nascido a sua primeira nomeação para o Óscar. Seguiram-se outras indicações por cada uma das seguintes longas-metragens, ParaNorman e Os Monstros das Caixas.

 

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Para a quarta longa-metragem da Laika, que acabou por receber duas triunfantes nomeações da Academia, Travis Knight decidiu não se restringir ao papel de chefe dos estúdios e animador, experimentando pela primeira vez a cadeira de realizador. Esse envolvimento é entendível se considerarmos toda a carga pessoal subjacente a Kubo e as Duas Cordas. Trata-se da história de um jovem contador de histórias que cria aventuras emocionantes através de miniaturas animadas pela sua música. O poder da criatividade é um elemento central a toda a história, assim como a relação de Kubo com os seus pais, uma figura masculina distante mas que está sempre pronto a proteger o filho e uma mãe que dá ao filho o maior dom de todos, o amor e habilidade de contar histórias. É um filme que conjura lágrimas na mesma medida que propulsiona gargalhadas e sussurros de admiração, e que, não obstante a qualidade dos outros projetos, é o maior triunfo técnico e artísticos que a Laika produziu até agora. Para além do mais, Travis Knight há décadas que é obcecado com a cultura japonesa, desde uma viagem que fez com o sue pai aos oito anos, e aqui ele pode finalmente trazer um pouco dessa cultura oriental à sua animação.

 


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Na próxima página, chegamos ao fim desta exploração de nomeados para os Óscares que (possivelmente) não conheces. Guardamos o melhor para o fim, sendo que vamos falar da pessoa viva que mais vezes foi nomeada para um Óscar sem nunca ter ganho. Será que é desta?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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