14º IndieLisboa | Viejo Calavera, em análise

Viejo Calavera, a primeira longa-metragem de Kiro Russo, é uma soberba obra de neorrealismo contemporâneo, onde a dura vida de uma comunidade de mineiros é elevada ao estatuto de mito e à beleza de um sonho. 

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Na história do cinema existem vários movimentos e estilos de importância, sendo que poucos são mais impactantes na produção e no desenvolvimento da arte do que o Neorrealismo que nasceu no cinema italiano do pós-guerra. Apesar da sua influência em quase todo o cinema que se seguiu ao seu aparecimento, o Neorrealismo foi logo vítima das suas próprias ideias, com limites dogmáticos a impedirem o estilo de perdurar na sua forma mais pura ou, pelo contrário, a impedirem-no de se desenvolver de um modo que não fosse a sua direta contradição e subversão. Apesar disso, enquanto Rossellini trabalhava na sua trilogia da Guerra e De Sicca se preparava para abalar o mundo com Ladrões de Bicicletas, Luchino Visconti, estava a realizar a sua obra-prima Neorrealista. Em 1943, o cineasta aristocrático já havia chegado a uma espécie de proto-neorrealismo com Obsessão, mas foi em A Terra Treme que ele chegou à sua apoteose enquanto cineasta neorrealista. Nesse filme, as intenções marxistas do estilo uniam-se a uma estética bizarra, onde a dura realidade do proletariado (interpretado por si próprio) era apresentada num registo epicizante, quase onírico. O neorrealismo como meio para tornar a vida miserável dos mais pobres e marginalizados em algo semelhante ao mito Homérico.

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Infelizmente para todos nós, cinéfilos, essa proposta neorrealista que fugia ao duro documentário urbano e de estética crua não teve grandes seguidores e A Terra Treme manteve-se como um exemplo quase singular. Bem, em 2016 parece que finalmente temos a perfeita continuação desse híbrido estilístico com um filme boliviano que, aquando desta escrita, ainda nem sequer tem direito a uma página do IMDB. Viejo Calavera de Kiro Russo conta uma história assombrosamente simples – Elder é um jovem alcoólico cujo pai morreu enquanto trabalhava na mina de Huanuni. Rejeitado pelo resto da sua família e impávido para com a morte paternal, ele é deixado com a sua avó e rapidamente vai trabalhar para a mesma mina em que o pai perdeu a vida. Lá, ele é orientado pelo seu padrinho, Francisco, mas não há nada que qualquer pessoa possa fazer para levar a que o jovem deixe de beber ou tome alguma responsabilidade. Eventualmente, depois de muitos esforços do sindicato de mineiros, que se interpretam a si mesmos e ajudaram a produzir o filme, os trabalhadores vão de viagem numas miniférias, onde têm acesso a uma piscina e podem passar uma noite a beber e contar histórias. Não é na complexidade do seu enredo que Russo mostra o seu génio, mas sim na execução desta simples premissa.

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Para aproveitar a colaboração dos mineiros, o jovem cineasta usou técnicas diretamente tiradas do neorrealismo, chegando mesmo a recorrer a algo quase idêntico à entrevista para integrar a trama dos trabalhadores na narrativa e os não-atores no drama. A partir de tais técnicas, e de um argumento onde se faz um comovente apelo à solidariedade e à nobreza da união, Russo constrói um potente retrato humano desprovido de condescendimentos ou alienantes distanciações provenientes de registos demasiado estilizados. Com tal abordagem, Viejo Calavera fica logo marcado como uma obra moderna de neorrealismo, neste caso boliviano, e onde, acima de tudo o resto, se evidencia o retrato da vida comum e da realidade física destes trabalhadores.

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Mas esses valores não são a única razão pela qual este filme é o perfeito descendente do tipo de neorrealismo mítico de A Terra Treme. O modo como Russo e a sua magistral equipa de criativos constrói em Viejo Calavera uma das mais impressionantes experiências cinematográficas de 2016, a começar logo pela sua abertura, ou mais especificamente os seus primeiros 20 minutos. De um beco escuro, passamos a um clube noturno onde a câmara flutua como se estivesse num filme de Malick enquanto as strobs pulsam freneticamente. Do caos urbano, Russop transporta-nos ao universo rural, onde figuras escuras parecem rezar aos céus noturnos no meio da paisagem rochosa e a comunidade se mobiliza para encontrar uma idosa confusa, rasgando a paisagem com feixes de luz. Quando a encontram, ela vai para casa, onde está o corpo do seu filho, a ser preparado para o enterro à luz das velas, como se se tratasse de um herói dos tempos clássicos. Este era o pai de Elder, e a idosa é a avó com quem ele vai viver. Depressa Russo esclarece isso e mergulha-nos no interior da mina para o primeiro dia de trabalho do jovem. E aí o filme explode numa sequência de cortar a respiração, onde tudo se torna confuso e frenético, os sons mecânicos ensurdecem-nos e várias técnicas de montagem conjuram um furacão cinematográfico que representa a perspetiva de Elder, ressacado e exposto pela primeira vez à violência física do seu novo trabalho.

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Tudo isto é apenas a introdução do filme e é algum do cinema mais puro a agraciar as salas internacionais nos últimos tempos. Pensar só na escassez de recursos que originou esta magnificência é algo para dar dores de cabeça, tal é a mestria e sofisticação aqui manifestas. Poder-se-ia dizer que nem Russo, nem o diretor de fotografia Pablo Paniagua, ou a equipa de som alguma vez superam estes 20 minutos, mas também é verdade que o restante filme não fica muito longe desse nível de excelência. Mesmo num registo menos caótico, as minas são um ambiente quase mítico sob o olhar de Russo. Por várias vezes vemos Elder perder-se nos seus recantos e de todas as vezes, a Steadycam ou as composições precisas constroem tableaux de escala monumental, onde mais do que rocha, parece que estamos a ver o interior de uma besta gigante, uma garganta infernal por onde se perdem os humanos.

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Viejo Calavera é essencialmente um filme de escuridão, sendo que o seu momento final é a única imagem onde a luz é realmente realçada e tornada num elemento visual de relevo. Nesses instantes da conclusão, Russo injeta esperança no seu filme e uma grande dose de humanismo. Este mundo aqui retratado não é um lugar de sombras insuperáveis, mas sim uma realidade onde existe sempre a possibilidade da bondade humana. E é precisamente num simples gesto de bondade e empatia, que o filme se encerra, enquanto duas pessoas flutuam pela estrada de uma montanha e à sua volta o nevoeiro matinal cobre toda a atmosfera com uma brancura celestial. Como é que algo tão simples pode ser tão transcendente?

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[Originalmente publicado dia 15 de agosto de 2016 para a cobertura do Festival de Locarno através do Festival Scope]

 

Viejo Calavera, em análise
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Movie title: Viejo Calavera

Date published: 2016-08-15

Director(s): Kiro Russo

Actor(s): Julio Cezar Ticona, Narciso Choquecallata, Anastasia Daza López, Felix Espejo Espejo

Genre: Drama, 2016, 80 min

  • Claudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO

O MELHOR: Esses primeiros 20 minutos.

O PIOR: O facto de que, depois desses já muito referidos 20 minutos do início, o filme nunca mais volta a ser tão cinematicamente excitante. Uma fragilidade mínima que, mesmo assim, não deixa de ser um pouco frustrante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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