Virgem Prometida, em análise

Alba Rohrwacher tem, em Virgem Prometida, a prestação da sua carreira, ao interpretar uma mulher que, seguindo uma antiga tradição albanesa, vive sob uma identidade masculina.

virgem prometida

Virgem Prometida, a primeira longa-metragem da realizadora italiana Laura Bispuri, começa com um tableaux de cortar a respiração. Nele, observamos um grupo de homens numa zona montanhosa e isolada da Albânia a perseguirem e a tentar dominar um violento bode negro. As montanhas rochosas impõem-se à vida animal e humana como monumentos divinos e maravilhosamente capturados pela fotografia azulada de Vladan Radovic, e, em contraste, esses elementos mais pequenos e cheios de vitalidade movem-se erraticamente pelo espaço, no fulgor e liberdade do caos. Na verdade, toda a cena poderia ser uma ilustração do conceito abstrato de liberdade, tão elusiva e efémera, mas potente e quase violenta como o bode que furioso parece exigir respeito à multidão de homens que o rodeia.

Tal como esse animal furioso, uma das figuras humanas tenta desesperadamente afirmar a sua liberdade, uma ideia omnipresente a todo o filme, mesmo quando nem a audiência ou as personagens parecem entender muito bem o que é que essa “liberdade” implica. Essa figura é Mark, um jovem reconhecido como homem pela população local mas que nasceu mulher. Longe de sugerir qualquer cultura híper progressiva e aceitante de identidades transgéneras, a masculinidade de Mark é, na verdade, um marco da corrosiva tradicionalidade da região. Nascido Hana, Mark decidiu abandonar a sua identidade feminina em troca das liberdades dadas ao sexo masculino, seguindo a tradição da burrnesha, em que uma mulher pode passar a viver sob uma identidade masculina se jurar manter-se virgem até à sua morte.

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Quando o filme se inicia, já 14 anos passaram desde que Hana se tornou em Mark, sendo que ela própria se parece ter esquecido do que era ser mulher. No entanto, o desconforto performativo da sua identidade masculina é estranhamente óbvio e depressa a vemos partir da aldeia que a enclausurou nesta condição de homem, o seu destino é a casa de sua prima, quase irmã, com quem ela cresceu e que, tal como Hana, decidiu fugir às monstruosas regras sexistas que tornavam as mulheres da aldeia em escravas e objetos sem agência própria. Só que, ao contrário de Hana, a sua fuga foi feita a partir da viagem até á Itália, onde ela procurou esquecer as suas origens e se tornar mais uma mulher de classe média, com seu marido e uma filha adolescente, completamente afastada dos costumes ancestrais do seu povo.

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Não que Virgem Prometida alguma vez nos dê estas informações de mão beijada. Na sua estreia no panorama das longas-metragens, Bispuri demonstra uma surpreendente segurança e uma admirável ousadia, preferindo construir todo o seu filme com base na observação passiva e nas insinuações, ao invés de em longas cenas de exposição gritada. Isso é tão frustrante como fascinante para a audiência que tem de encarar o filme como uma espécie de puzzle identitário, cuja imagem final, por vezes, parece que nem mesmo os cineastas envolvidos têm bem a certeza do que será. Apesar disso, os detalhes do sacrifício de Hana são bem explicados através de uma série de flashbacks que vão regularmente interrompendo a narrativa principal, oferecendo pequenas porções de informação tonal, tradicional ou pessoal para que vamos entendendo, a pouco e pouco, um pouco mais sobre estas confusas mulheres, presas num mundo que as quer reprimir impiedosamente.

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Consequentemente, a relação que une as duas primas quase irmãs, é maioritariamente expressa nesses vislumbres do passado, sempre em alto contraste com a frieza e distância que as separa no presente. Por muito estranho que pareça, é Jonida, a sobrinha adolescente de Hana, quem mais se abre à virgem titular. Despida de pudor ou respeitabilidade, a jovem demonstra o tipo de rude insolência típica da adolescência, primeiro perguntando se Mark é uma lésbica travesti, antes de começar a entender melhor a sua “tia” ou, pelo menos, a achar progressivamente mais fascinante. Algo que o filme inteligentemente implica é que, estando esta adolescente numa idade de confusão e descoberta sexual, ela é quase que uma companheira de Hana na sua viagem sexual e identitária, mesmo que as suas abordagens e situações sejam bastante diferentes.

Uma conclusão que parece emergir das suas interações e jogos de curiosidade e observação mútua é que, no seu âmago, o género, como existe na sociedade atual, é mais uma performance que uma condição orgânica. O que é ser mulher no mundo contemporâneo senão uma coleção de códigos e ideias que a sociedade impõe a quem nasce com um sexo feminino. E o que é ser homem? Pela sua parte, Hana curiosa em experimentar esse ilusivo conceito de “mulher” e “feminilidade” mas, tal como acontece com a sua identidade masculina, há algo de forçado e desconfortável em toda a sua pose e atitude que nunca parecem estar bem conformados a nenhuma das ideias binárias de género tradicionais.

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A fazer com que toda esta complicada dinâmica de identidades sexuais e fluidez de género se convertam numa presença humana concreta está a fabulosa atriz italiana Alba Rohrwacher. Ela pode ter ganho a taça Volpi pela sua prestação em Hungry Hearts, mas esta prestação como Hana/Mark é, sem sombra de dúvida, o píncaro da sua jovem, mas muito luminosa, carreira. O minimalismo característico do seu trabalho assume novos píncaros neste complicado papel e é precisamente a sua reticência e capacidade de sugerir uma interioridade presente, mas misteriosa, que fazem desta virgem prometida uma personagem tão fascinante, visceral, mas ao mesmo tempo distante e merecedora de uma análise quase antropológica. Os momentos em que ela tem anónimos encontros sexuais com um homem que, inicialmente, julgava que Hana era um rapaz, são de particular destaque, mostrando a nu toda a brilhante criação de desconforto e performance física que Rohrwacher conjurou para este papel, onde a própria natureza do trabalho da atriz a interpretar o corpo de outra pessoa é posta em violenta evidência.

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Tendo tudo isto em consideração, é justo dizer que Virgem Prometida oferece uma das mais fascinantes visões de género a recentemente marcar presença nos cinemas internacionais. Muitos têm sido os críticos que veem na procura de Hana uma celebração de conceitos convencionais de feminilidade, mas basta olhar com atenção e generosidade para o trabalho de Bispuroi e Rohrwacher para concluir que tais observações são mais fruto da miopia indignada dos espetadores que de qualquer fragilidade cinemática. No entanto, isso não implica que o filme seja perfeito, sendo que vários problemas estruturais e irritantes escolhas musicais tendem a prejudicar a experiência global. Mesmo assim, Virgem Prometida tem sempre mais algumas cartas na manga, como uma sublime sequência perto do final, numa piscina, em que a beleza quase amorfa e primordial dos corpos humanos desfragmentam o filme numa abstração de vida, carne e movimento, tão transcendente que nos fazem esquecer quaisquer problemas que possam existir no resto da fita.

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O MELHOR: Alba Rohrwacher!

O PIOR: A estrutura com os flashbacks vai-se tornando crescentemente repetitiva e enfaticamente explicativa. Já próximos do terceiro ato narrativo, estas escolhas aprisionam o filme numa condição quase mecânica e demasiado sistematizada para o tipo de história humana em exposição.


 

Título Original: Vergine giurata
Realizador:  Laura Bispuri
Elenco:  Alba Rohrwacher, Emily Ferratello, Lars Eidinger, Flonja Kodheli

Midas Filmes | Drama | 2015 | 84 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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